Detergente, amaciante, álcool, sabonete líquido, óleo lubrificante, iogurte, shampoo, soro fisiológico, desodorante, suco e leite em garrafa plástica… Depois de usados, viram o quê? Lixo? Não, se caírem nas mãos dos catadores organizados da Grande Belo Horizonte. Trituradas, lavadas, aquecidas, derretidas e condensadas, todas essas embalagens se transformam em pellets, pequenos granulados plásticos. E assim voltam à indústria, como matéria-prima para a produção de mangueiras, tubos, lonas, peças de automóveis e revestimentos diversos (clique na foto para ver a seqüência).
O saldo da transformação, além do alívio aos lixões e aterros, é dinheiro. Um quilo de plástico prensado, como o que os catadores mineiros vendiam a atravessadores, custa entre 40 e 60 centavos. Um quilo de pellet, agora que eles têm uma usina própria para processar o material, rende entre 1,60 e 2,20 reais.
Por isso, no dia 5 de setembro, em Belo Horizonte, na inauguração da primeira fábrica de reciclagem a ser administrada por catadores na América Latina, o tom dos discursos era muito mais social do que ambiental. Jacques de Oliveira Pena, presidente da Fundação Banco do Brasil que bancou metade dos 4 milhões de reais investidos no projeto, lembrou que os catadores são um dos públicos-alvo do programa Fome Zero e que as 3 mil toneladas de plástico processadas por ano vão aumentar a renda dos 550 integrantes das cooperativas que vão gerir o negócio.
Discretos, distantes das autoridades do palanque — dos ministros das Cidades e Desenvolvimento Social ao prefeito de Belo Horizonte, deputados e vereadores — os catadores circulavam ainda meio sem jeito pelo espaço que será seu. É gente que veio do mais baixo dos andares sociais, aquele que sobrevive das sobras da cidade, acostumado a ser tratado como seu objeto de trabalho, o lixo. Gente que, nos últimos anos, virou protagonista de um movimento de inclusão social que quer pegar carona num mercado em expansão. A fórmula das cooperativas tem dado certo, mobilizando parcerias públicas, privadas e de ongs, e permitindo a muitos catadores deixar para trás a vida indigente para garantir ao menos um salário mínimo no fim do mês.
As cooperativas de oito municípios que integram a nova usina de reciclagem — além da capital, Betim, Contagem, Igarapé, Itaúna, Paraopeba, Nova Lima e Pará de Minas — têm um líder natural. É a Associação dos Catadores de Papel, Papelão e Material Reaproveitável de Belo Horizonte, ASMARE. Fundada há 15 anos, é uma das mais antigas do Brasil, tem hoje 380 associados, dois galpões de triagem das 450 toneladas de material que recolhe por mês, e até um Centro Cultural, o Reciclo, que vende objetos artesanais, promove oficinas e à noite funciona como bar. A decoração faz jus à proposta, da porta de pára-brisas de carro ao teto de tubos de pasta de dente.
Com o Festival Lixo e Cidadania, a ASMARE transformou Belo Horizonte em capital brasileira da reciclagem. O evento chega em 2005 à sua quarta edição, e a grande presença da mídia e do público, sem falar na usina de reciclagem que conquistaram, são provas do poder de mobilização dos catadores. Num galpão da cooperativa decorado de alto a baixo com luzes e objetos multicoloridos, ocorre a mistura de festa – com shows de artistas “reciclados” como Naná Vasconcellos e Hermeto Paschoal -, feira de artesanato (com coisas como crochê de plástico, esculturas de engrenagens de bicicleta e mil-e-uma utilidades para PET) e debates.
Na abertura do Festival, os cantos, palavras de ordem, faixas, bonés e bandeiras agitadas lembravam o crescimento de um certo movimento social que no início dos anos 90 ganhou a simpatia da opinião pública. Mas em vez do vermelho da luta pela terra, entre os catadores predomina o verde, e versos como “Nessa marcha sem parar / Caminhar é resistir / E se unir é reciclar”. Com presença confirmada até a véspera, o presidente Lula deu bolo, talvez convencido pela assessoria de que não é boa hora de aparecer em evento sobre lixo e reciclagem. Perdeu uma grande chance de se aproximar das massas. Os catadores de todo o Brasil acolheriam o presidente como um dos seus. “Ele veio de baixo, não tem nada a ver com essa corrupção toda. Foi envolvido”, acredita Ruth, ex-prostituta de Goiânia (GO), pioneira do movimento em seu estado e hoje integrante do Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis (MNCMR).
“Hoje é um dia histórico porque conquistamos o domínio da cadeia produtiva, que sempre esteve na mão de cartéis”, discursou Cido Gonçalves, da ASMARE, na abertura do Festival. A inauguração da usina, entretanto, não subiu à cabeça de Luiz Henrique da Silva, também catador da Associação, que falou logo depois dele. “Hoje foi tudo maravilhoso, mas a situação no Brasil ainda é degradante. 64% dos municípios estão com lixo a céu aberto. Os orçamentos municipais não priorizam o lixo e não há uma ação concreta que beneficie nossa categoria”, disse Luiz Henrique para um público de pelo menos 700 pessoas.A convidada de honra na abertura do evento foi Danielle Mitterand (foto), ex-primeira dama francesa e presidente da fundação France Libertés. Levantando a bandeira da proteção aos recursos hídricos, Danielle definiu a lógica da reciclagem como uma nova mentalidade, “em que nada se perde e nada se destrói”, indispensável para “modificar as estruturas irresponsáveis de poder, que devastam a natureza”. “Queremos ser consumidores ou cidadãos?”, perguntou à platéia.
Se por um lado a causa da “preservação da vida, do planeta e de todos nós” embalava o clima do Festival, por outro o objetivo dos catadores não é lutar contra o sistema, mas arranjar um lugarzinho nele. Sua cidadania hoje depende exatamente do consumo dos outros, e sua mentalidade está voltada para a geração de trabalho e renda. Preservação ambiental, neste caso, é efeito colateral e passa por equações econômicas.
Que o diga Carlos Henrique Seibt, coordenador da empresa gaúcha Seibt, que forneceu todo o equipamento da nova usina de reciclagem, por cerca de 500 mil reais. Sua empresa instala em média 12 unidades de reciclagem de plástico por ano, e vem sendo cada vez mais requisitada, inclusive por outros países da América do Sul. “As encomendas para reciclagem pós-consumo cresceram 35% nos últimos três anos, e já representam 50% do faturamento da empresa”, informa.Mercado novo, novas oportunidades. Na inauguração da fábrica já tinha empresa anunciando produtos para facilitar a vida de quem vive da reciclagem. Como o Coletortec (foto), um carrinho motorizado que não livra o catador de andar a pé, mas ameniza seu esforço de carregar o material. Custa 7 mil reais, mas pelo menos uma unidade já foi doada à fábrica pela Prefeitura.
Os atrativos financeiros aliados à inclusão social podem ajudar a reverter o quadro crítico do destino dos resíduos sólidos no Brasil. As latinhas de alumínio já sumiram dos lixões e da natureza, e as garrafas PET seguem o mesmo caminho. Mas os demais resíduos plásticos ainda são um problema. Em 2004, foram produzidas 2 milhões de toneladas de plástico pós-consumo, e recicladas apenas 359 mil toneladas (16,4%). As regiões Sul e Sudeste concentram quase que a totalidade da reciclagem de plástico no país (82,7%). Na região Norte, a reciclagem é zero.
* Lorenzo Aldé viajou a Belo Horizonte a convite da Fundação Banco do Brasil.
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