Reportagens

Nem um pouco selvagem

Onça que vivia como cão numa fazenda é encontrada junto com armas usadas em caçadas no Pantanal. Incapaz de voltar à natureza, tenta se acostumar ao novo lar.

Carolina Mourão ·
2 de dezembro de 2005 · 18 anos atrás

“É ótimo saber que o Brasil tem um safári deste nível, onde se pode abater animais de grande porte. Obrigado pelo passeio”. Foi assim que o francês André Milotic agradeceu pela temporada de safári no Pantanal. Gentilmente, o brasileiro que promoveu os dias de caçada se despediu antes da saída do vôo clandestino: “Volte sempre. Estamos às ordens”.

Teria sido por vingança de namorada que uma fita de vídeo, mostrando uma caçada a onças no Pantanal, foi parar nas mãos do programa do Ratinho, do SBT, em fevereiro do ano passado. O filme mostra cenas de crueldade explícita e pura covardia durante a matança de três onças pintadas na fazenda São Jorge, em Lambari do Oeste (MT). Em 2003, uma força-tarefa foi montada envolvendo Ibama, Ministério Público Federal e a Polícia Federal, que identificaram os autores do crime, entre eles, o próprio francês.

Além da grande quantidade de armas deixadas para trás na sede da fazenda, a força-tarefa encontrou uma onça pintada de 100 quilos amarrada como um cachorro. Mas não houve flagrante. “Ele fugiu pouco antes. Deixou o animal de estimação e o material de trabalho”, diz Roberto Borges, chefe da Divisão de Fiscalização de Fauna do Ibama. A onça abandonada é um grande macho, Gavião, que teve as garras extraídas pelo provável caçador de seus pais. Segundo depoimento do homem que promoveu o safári gravado em vídeo – um veterinário, diga-se de passagem – Gavião passou seus 11 anos amarrado por um cabo de aço com apenas 20 metros de extensão. E só depois de dois anos de investigações, a força-tarefa conseguiu retirá-la dali. Na última quinta-feira, dia 1º de dezembro, Gavião conheceu, bem longe do antigo endereço, seu novo abrigo.

Nova vida

Eu estive lá para acompanhar sua chegada. Já sem a corrente que lhe marcou o pescoço, me fitou por 40 minutos, e depois veio em minha direção. Fiz a foto (acima). O animal estava assustado, e me assustou. Foi também a minha primeira vez com onças. Dei a sorte de pegar também o primeiro mergulho do animal, que ao longo da vida só tomou alguns banhos de balde ou mangueira. O reservatório limpo ao lado do abrigo de pedras reteve a atenção da onça, que não sabia se bebia a água ou se nadava. Depois que saiu da água, aproximou-se de novo, e eu toquei seu pêlo e sua enorme cabeça, “maior do que o padrão”, como diz o tratador dos animais.

“Engraçado onça com nome de Gavião, gavião sem garra”, reparou. “Pior é que ele não pode subir em troncos verticais e nem dividir o recinto com outras porque, se tiver briga, ele pode até morrer sem defesa”, avalia o funcionário que parece entender mais sobre onças do que o veterinário que a mutilou.

Gavião estranhou as grades, queria transpô-las o tempo todo. O recinto tem 100 metros quadrados. Um alívio para quem vivia acorrentado, mas as dimensões ainda estão muito longe do que ela realmente precisa: 25 a 80 quilômetros quadrados por indivíduo. De qualquer maneira, ele foi o oitavo e último felino que o criadouro conservacionista do Instituto Não Extinção (NEX) vai abrigar, ao menos por enquanto.

Segundo Cristina Gianni, presidente da ong, os recursos são limitados e, sem apoio, fica impossível salvar esses animais que não têm mais condições de viver na natureza. “Uma onça custa R$ 800 por mês, ou R$ 9.600 por ano. Quero construir um abrigo maior, de até 200 metros quadrados para o Gavião, mas para isso preciso do apoio de empresas, que podem adotar o animal e transformá-lo em ‘selo ambiental’”, diz Gianni.

No NEX, os técnicos e veterinários promovem atividades ocupacionais para manter os felinos ativos, como esconder a carne dentro de um coco. O intrigante é a distância que o animal teve de percorrer para ser abrigado. “Os recintos do Pantanal eram menores. O melhor que a gente encontrou e que pôde receber a onça foi o NEX, no município de Corumbá de Goiás, a cerca de 80 quilômetros do Distrito Federal. É preciso lembrar que esses lugares estão com sua capacidade esgotada para receber mais animais. Gavião teve sorte porque chamou a atenção da opinião pública”, conta Borges.

Uma das cenas do vídeo mostrava uma onça pintada acuada em um galho enquanto os caçadores, a menos de um metro, brincavam de mirar as armas em seus olhos. Enquanto isso, o francês elogiava a adrenalina da ação. O tiro derrubou, mas não a matou. Mais de 20 cães terminaram a carnificina. “A marca dele é o requinte de crueldade, como capar o animal antes de matá-lo. A emoção fez parte do pacote”, descreve Borges.

Sem punição

Apesar disso, a maldade não é levada em consideração. “As pessoas reclamavam quando o crime ambiental era inafiançável. É claro que o sujeito não ia ficar preso, mas pelo menos ficava detido alguns dias”. Hoje, ela é branda demais para os casos mais cruéis, cada vez mais comuns. “A pena hoje varia de 6 meses a um ano, na teoria, mas nem detidos eles ficam. Vão lá, prestam depoimento, e depois são obrigados a pagar uma cesta básica ou algo parecido”, lamenta. “Essa sensação de impunidade acontece também no meio ambiente. A gente investiga, gasta dinheiro do erário, investe, e termina em nada. É muito frustrante”, protesta. Borges sugere a modificação da lei, abrangente e superficial, para que situações assim não se repitam.

Mas para prender o responsável pela crueldade há sim uma saída: a condenação pelo fato de ter tantas armas de alto impacto de forma ilegal na fazenda. “Eram equipamentos caros, para fins específicos de abate. Enchemos a carroceria do carro da apreensão com esse material”, calculou Borges. De acordo com o artigo 12 do Estatuto do Desarmamento, a posse ilegal de arma de fogo de uso permitido pode levar de 1 a 3 anos de prisão e multa. Mas, se forem apreendidas armas mais sofisticadas, de uso restrito, a pena pode chegar a seis anos, além da multa.

Pela quantidade de armamento e pelas palavras do cliente francês do safári registradas no vídeo, a atividade era tipicamente turística e causava a morte de muitos animais. Motivo para o Ibama continuar de olhos abertos. “Esse safári pareceu um caso isolado, mas não se pode garantir isso, com uma legislação que acaba incentivando os criminosos”, diz. Borges informou que, por causa das investigações, não pode revelar o nome do dono do safári, que está livre. Apesar do vídeo mostrar a morte de animais em extinção, o que é crime inafiançável, por enquanto o instituto não pode fazer nada contra o fazendeiro. Em 1996, ao descobrir que havia uma onça em sua propriedade, o Ibama de Mato Grosso o fez assinar um termo de responsabilidade e, como não tinha para onde levá-la, regularizou a situação. Gavião pertencia a ele.

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