Pobre Acre. Faz pelo menos um ano que o clima lhe prega peças. Primeiro foi a seca extrema do ano passado, que aliada à mania dos homens de limparem suas roças com fogo fez as florestas do estado arderem como nunca tinham ardido antes. Depois veio um período de chuvas abaixo do que era esperado. Janeiro de 2006 não foi tão seco como no ano passado. Mas o índice pluviométrico, de 240 mm, ficou abaixo da média histórica de 300 mm de chuva para o mês, que vinha sendo registrada desde 1994. Fevereiro chegou e com ele veio água em excesso. Resultado, em várias regiões, inclusive na capital, Rio Branco, o Acre está literalmente submerso.
Só que a culpa não é da chuva que anda tombando sobre seu território este mês. Há quatro semanas chove dentro da média histórica, até um pouco abaixo do esperado. Portanto, insuficiente para provocar alagamentos como os que vêm acontecendo. As culpadas desta vez são as nuvens carregadas de água que, desde janeiro, resolveram se concentrar ao Sul e Sudeste do Acre, mais precisamente sob os céus da Bolívia e Peru, países com os quais o estado faz fronteira. Lá, desde o mês passado, chove torrencialmente.Várias cidades peruanas e bolivianas sofreram com as enchentes. E o que tem a ver essa região com a atual inundação no Acre? Tudo.
Nela, nascem dois dos principais rios do estado, o Acre e o Purús. O excesso de chuva colocou água em abundância na cabeceira desses rios, que correram volumosos em direção ao interior do estado. Foi assim que tanta água chegou à região de Rio Branco, onde o rio Acre transbordou e deixou cerca de 30 mil pessoas desabrigadas. Seu nível atual está em 16,72 metros. “O leito aguenta até 14 metros”, diz Alejandro Fonseca, pesquisador do Grupo de Estudos e Serviços Ambientais da Universidade Federal do Acre (Ufac). “A partir daí, transborda”. Ele acha que se o rio continuar nessa batida, em breve irá superar o recorde de cheia de 17,66 metros, alcançado em 1997.
Enchentes não são raras no Acre. Mas a que está acontecendo é absolutamente inédita. O fenômeno nunca foi provocado por chuvas que caíram longe da região alagada.Como explicou Fonseca à Defesa Civil do estado, os registros históricos mostram que inundações no Acre são antecedidas por meses de chuva intensa na própria região. Assim foi com a grande enchente de março de 1997. No mês anterior, o Acre tinha registrado média de 405 mm de chuvas, quando o normal seria em torno de 300 mm. Este ano, aconteceu justamente o contrário. A carga de chuvas está não só abaixo do normal, mas distribuída irregularmente. Na parte leste do estado, onde fica a capital, não choveu quase nada até dia 20 de janeiro. Depois disso choveu cerca de 200mm, o que ainda é pouco.
“Aqui a distribuição das chuvas sempre foi regular. Este ano, elas se concentraram ao Sul e Sudeste do estado”, diz Fonseca. Por que, ele não sabe. “Não temos nada que justifique o que está acontecendo”. As trapaças da sorte metereológica que graça desde o ano passado no Acre produziram uma situação no mínimo irônica. O estado está nadando em água, mas não por causa de sua chuva. E na falta dela, ele corre o risco, mesmo inundado, de ficar sem umidade suficiente para impedir que o fogo, que em geral é colocado em pastos e plantações a partir de setembro, chegue até suas florestas novamente. “O risco de termos em 2006 queimadas fora de controle ainda é muito grande”, diz Fonseca.
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