Reportagens

Prontas para adoção

O habitat natural da surucucu está sumindo, mas ela não pode contar nem com o abrigo dos criadouros oficiais do governo. Sua melhor opção é um médico apaixonado.

Aline Ribeiro ·
5 de maio de 2006 · 17 anos atrás

A surucucu (Lachesis muta rhombeata), maior cobra venenosa das Américas e segunda maior do mundo (perde apenas para a naja real da Índia), pode sumir da natureza. Para sobreviver, a espécie depende de características típicas da Mata Atlântica e da Amazônia, como temperatura e umidade. Mas como esses ambientes estão sendo devastados, as serpentes estão em risco. No Brasil elas são raridades até nos três centros autorizados pelo Ministério da Saúde para criar surucucu para produção do soro antiofídico. No momento, o maior defensor da espécie é o médico Rodrigo de Souza, dono de um criatório de surucucus em Itacaré , no sul da Bahia.

Foi aos dez anos, dentro de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) de um hospital, que Rodrigo de Souza se apaixonou pelas serpentes. Ele estava visitando o avô, que colocara marca-passo no coração, quando conheceu na cama ao lado um garoto que havia sido picado por uma cascavel. “O gosto veio desde muito pequeno. O resultado é isso que temos hoje. Cerca de 46 surucucus no criatório”, ressalta. Ele desenvolve o trabalho desde 2001, quando criou o Núcleo Serra Grande.

Um resgate aqui, outra captura ali, e o projeto do médico ganhou tamanha dimensão que adquiriu reconhecimento internacional. O herpetólogo americano Dean Ripa destinará, em seu próximo livro, um capítulo todo ao trabalho que considera “o mais importante esforço mundial para a preservação da espécie”. Alemães e argentinos de conceituados centros de pesquisa também trocam experiências com Souza, que diz ter aprendido tudo na prática do dia-a-dia. “Estou no meu ‘Everest’ pessoal. Tudo que aprendi e fiz foi para chegar neste momento”, descreve.

O sucesso do método implantado por ele pode ser explicado pela forma como cria os animais. “Tento imitar ao máximo a natureza. O criatório tem túneis artificiais no chão que parecem com aqueles feitos por tatus e pacas. É lá que a surucucu gosta de colocar os ovos. A temperatura e umidade são ideais para o bicho. Eles se sentem tão bem que nem percebem que estão presos”, diz. Prova disso é a ausência de marcas de arranhões nos focinhos das serpentes que vivem ali. O contrário indicaria a busca por caminhos de fuga.

Além da estrutura para manter os animais, o núcleo dispõe de um biotério, onde é realizada a reprodução de camundongos utilizados na alimentação das surucucus. “Elas só comem filhotes de, no máximo, 200 gramas. As mais gulosas se alimentam umas três vezes por semana.” A demanda é grande. Por mês, nascem mais de 800 ratinhos no biotério.

Começou ilegal

Atualmente, Souza (foto abaixo) não pode tirar benefícios comerciais do serpentário porque ainda não conseguiu uma autorização do Ibama. Não pode sequer vender o veneno retirado das cobras, substância muito procurada por seus possíveis agentes de combate a tumores. A intenção dele é de, no futuro, criar um criatório comercial de surucucu, para, no mínimo, tornar o núcleo auto-sustentável. “Gasto mais de 800 reais com ração, fora os outros custos. Não tenho condições financeiras para bancar tudo. Faço isso porque gosto mesmo.”

Desde dezembro de 2003, o documento necessário para transformar o serpentário num criatório comercial foi protocolado no Ibama, mas até hoje Souza diz não ter recebido retorno. “Eles vieram até aqui e pediram para eu construir um muro, além de um galpão para abrigar enfermaria das surucucus, novo biotério, almoxarifado e quarentena. Estamos fazendo mas, até agora, nada da licença de operação.” Os recursos para a reforma do local foram doados pela ong Yonic.

De acordo com Ligia Ilg, analista ambiental da Gerência Executiva do Ibama em Eunápolis, o processo de Souza é demorado porque começou de maneira equivocada. “Ele iniciou um trabalho de captura desses animais, mas não tinha licença para mantê-los. Na época, foi autuado por manutenção ilegal e criação em cativeiro.” O processo ainda necessita de uma análise técnica do núcleo de fauna, parecer da procuradoria jurídica e, em seguida, análise do gerente do instituto para ser finalizado. Enquanto não for concluído, os animais continuam sob a guarda de Souza, responsável técnico do criatório e considerado pela Justiça Federal e pelo Ibama fiel depositário das 46 serpentes.

Penúria

Em contraste ao criatório particular na Bahia, o Butatan em São Paulo, referência no assunto e maior produtor de soros e vacinas da América Latina, tem apenas um exemplar de surucucu. “Falta estrutura de pessoal e financeira”, justifica Wilson Fernandes, diretor do Laboratório de Herpetologia do instituto. No Instituto Vital Brazil, no Rio de Janeiro, existem seis serpentes vivas. Mas a estrutura física do local não é boa. “Se recebêssemos mais animais, não teríamos instalações suficientes para criá-los”, diz Aníbal Melgarejo, chefe da Divisão de Zoologia Médica do Vital Brazil.

Dos centros brasileiros autorizados pelo Ministério da Saúde a ter plantéis do animal para a fabricação do soro, restaria apenas a Fundação Ezequiel Dias (Funed), em Belo Horizonte, para salvar os bichos. Mas, assim como os outros, a instituição possui um número reduzido surucucus: duas. O número médio de outras cobras peçonhentas na Funed, como cascavel, jararaca e jararacuçu, é de 27 cada uma. O Vital Brazil chega a ter aproximadamente 115 cascavéis, 136 jararacas e 58 jararacuçus.

Nada simples

Considerada uma espécie vulnerável pela The World Conservation Union (IUCN), a surucucu tem características que dificultam o seu manejo. Ela pode chegar a 3,5 metros de comprimento e é bastante exigente no que se refere à alimentação e ao clima do ambiente em que vive. De hábitos noturnos e difícil localização, é tida como um animal perigoso, principalmente quando se encontra ameaçada. “Quando está em risco, vem pra cima da pessoa. Por isso, quem a vê no mato prefere matá-la”, comenta Giusepe Puorto, diretor do Museu Biológico do Butantan. “O tamanho também amedronta”, reforça Wilson Fernandes.

Além disso, como a espécie só ocorre do Rio de Janeiro ao norte do país, quando alguém encontra surucucus na natureza dificilmente as encaminham para São Paulo. “A burocracia para enviar o animal de um lugar a outro é muito grande. Às vezes, demora de uma a duas semanas, dependendo da região em que é localizada, para o Ibama [Instituto Brasileiro do meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis] liberar a licença de transporte”, completa Aníbal Melgarejo.

A captura também não é simples. Um exemplo seria a tentativa frustrada de salvar espécimes em 1985, durante o enchimento da Barragem do Tucuruí, no Pará. Devido ao alagamento do terreno em volta da obra, houve um trabalho de resgate de surucucus, com a captura de mais de 130 espécimes. O processo durou mais de um ano e foi coordenado por Giusepe Puorto, diretor do Museu Biológico do Butantan. “Nenhuma serpente sobreviveu. Isso mostra como esses especialistas não sabem lidar com o animal”, acusa Rodrigo Souza. Puorto nega a acusação, diz que apenas uma serpente morreu durante a operação, sendo que o restante teria sido destinado ao próprio Butantan e à Fundação Ezequiel Dias. Representantes dos centros de pesquisa dizem não ter informações sobre a doação.

Já o biólogo e consultor ambiental Marcus Buononato, que foi funcionário do Instituto Butantan durante 13 anos e participou da operação, diz que não sabe precisar quantas cobras morreram, mas tem certeza de que foram muitas. “O pessoal não tinha treinamento específico. A surucucu tem a região cervical muito frágil, é praticamente só um ponto de fixação entre o crânio e a coluna. Não se pode pegá-la com laço, como é feito com outras cobras. Eu mesmo vi vários esqueletos quebrados por erros durante a captura”, lembra.

A reprodução em cativeiro é um outro desafio. Aníbal Melgarejo, do Instituo Vital Brazil, tenta desde 1990 e foi a primeira experiência de sucesso no país. Já conseguiu quatro cruzamentos, com o nascimento de mais de 20 filhotes. Nem todos sobreviveram, mas as tentativas continuam.

Polêmica

Até pouco tempo, existiam duas subespécies da surucucu: a Lachesis muta rhombeata, a que vive na Mata Atlântica; e a Lachesis muta muta, que tem a Amazônia como habitat natural. Considerando que a Mata Atlântica está sendo consumida em ritmo acelerado, supõe-se que o número de exemplares da muta rhombeata desapareça rapidamente. Na Amazônia, a degradação é menos crítica e a quantidade de muta muta é bem maior. Recentemente, a decisão de pesquisadores de unir as duas espécies em apenas uma – por acreditarem que possuem diferenças mínimas – causou polêmica. Com a reclassificação acadêmica, o Ibama, que incluía a surucucu na lista de espécies ameaçadas de extinção, retirou-a da lista. Na ocasião, o órgão avaliou que a cobra encontra-se abundante na natureza, se somados os exemplares da Mata Atlântica com os da Amazônia. A medida ocorreu em 2003, quando a relação do órgão foi atualizada.

Para os especialistas que lutam contra a extinção do animal, a ação do Ibama é inconseqüente. “Eles não têm embasamento. As surucucus da Mata Atlântica estão em risco porque têm pouca área para sobreviver. O fato de ficarem em pequenas picadas de mata compromete a diversidade genética. A consangüinidade pode acabar com as populações”, ressalta Melgarejo.

Quem anda no mato, cruza pouco com surucucus. Segundo dados do Ministério da Saúde, a serpente é responsável por apenas 1,5% das 23 mil picadas que ocorrem todo ano no Brasil. “Ela só ataca quando se vê em risco, nunca sem motivos. Além disso, o encontro dessa espécie com pessoas é mais raro, porque ela ocorre em locais com densidade populacional baixa”, explica Souza, lembrando que a surucucu está presente em maior número na Amazônia. Os dados do ministério mostram ainda que em primeiro lugar está a jararaca, responsável por 90% dos acidentes, seguida da cascavel, com 8%. A menos comum é a coral, última do ranking, com a fatia de 0,5%.

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