Alguns especialistas acreditam que possa haver o dobro de espécies de peixes na bacia Amazônica do que em todo o Oceano Atlântico. No entanto, mesmo com tamanha abundância de vida em baixo d’água é muito complicado encontrar um bom lugar na Amazônia para mergulhar. Como a maioria dos rios tem águas muito turvas, visibilidade decente é um desafio.
Quando uma colega de Manaus e eu iniciamos as pesquisas que dariam origem ao roteiro do documentário “Return to the Amazon” de Jean Michel Cousteau, ficou evidente que encontrar águas transparentes seria uma missão no mínimo complicada. Conversamos com vários pesquisadores que trabalham com peixes e mamíferos aquáticos, consultamos a literatura e mesmo assim esse lugar parecia não existir. Uma das esperanças eram os afluentes do rio Tapajós, no Pará, onde até encontramos visibilidade, mas pouquíssima vida animal. Outra tentativa foi no rio Javari, Amazonas fronteira com o Peru, onde nos deparamos com alguma vida, mas pouca visibilidade.
A primeira vez que ouvi falar das transparentes águas do rio Xixuaú foi numa conversa com Vera da Silva, uma das mais importantes pesquisadoras de mamíferos aquáticos da Amazônia. Com seu jeito calmo e quase transcendental, ela nos disse que o rio Xixuaú era um afluente do rio Jauaperi, que por sua vez é afluente do rio Negro. O melhor lugar para mergulhar se encontra ao sul do estado de Roraima.
Já durante as filmagens, havíamos dividido a equipe para que pudéssemos cobrir uma área maior antes do início da estação das chuvas. A maior parte da nossa equipe havia partido de Manaus havia duas semanas. O plano era encontrá-los na foz do rio Jauaperi, onde ele se encontra com o rio Negro. Éramos quatro, além de Raimundo, o piloteiro, e seu ajudante.
Encontrei Raimundo no porto de Manaus na tarde anterior à nossa viagem. Ele tinha uma voadeira grande, que permitia levar todos nossos equipamentos. Com um motor de 85hp fiquei confiante que faríamos o percurso Manaus-Moura (vila próxima à foz do rio Jauaperi no rio Negro) em mais ou menos 13 horas.

Matt, o cameraman, se esquentava no sol da manhã depois de horas de mergulhos ininterruptos. Foi difícil convence-lo a voltar para a água, mas um bicho daquele tamanho sem dúvida valeria a pena. Identifiquei o local do jacaré por uma árvore no barranco próximo. Ele que já mergulhou com tubarões branco e há anos mergulha mundo à fora com os Cousteaus quase não acreditou no que viu. Ficou tão chocado que na primeira tentativa sequer conseguiu apontar a câmera. Voltou para a superfície e com os olhos arregalados soltou um genuíno “Oh my God!”. Na segunda vez captou algumas imagens, mas que por falta de escala não dão conta do tamanho daquele réptil. Para mim foi uma experiência traumatizante e naquele dia não consegui voltar pra debaixo dágua.
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