O Cerrado acaba de ganhar um aliado para sua conservação. A Fundação O Boticário, conhecida por suas iniciativas na Mata Atlântica e Pantanal, está fincando de vez a sua bandeira no segundo maior bioma brasileiro. Depois de dois anos de pesquisa em mapas e trâmites burocráticos, a organização efetuou a compra de um terreno de 8,9 mil hectares que se transformará em uma reserva natural. Localizada no norte do estado de Goiás, no município de Cavalcante, a área será uma peça importante no mosaico de unidades de conservação que existe na região.
Batizada de Serra do Tombador, a reserva está localizada a 21 quilômetros do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Trata-se de um dos locais onde o Cerrado está mais bem preservado no país. Dentro da Tombador é possível encontrar as mais variadas fisionomias vegetais do bioma, como cerrado de altitude, campos sujos, veredas, matas de galeria e cerrado típico. Não surpreende, portanto, que ali exista também uma rica fauna, com espécies de grande porte, que estão no topo da cadeia alimentar, como a onça pintada e as antas.
Malu Nunes, diretora-executiva da Fundação O Boticário, explica que a estratégia da organização no Cerrado tem como objetivo contribuir para a proteção de áreas prioritárias para a conservação já identificadas pelo governo brasileiro. Ela lembra que apesar de sua importância, o bioma possui apenas 3% de sua extensão protegidas por unidades de conservação. O ideal é que houvesse 10%, explica Malu. “Estamos fazendo um esforço não para substituir a ação do governo, mas para complementar”, disse. A coordenadora do Programa de Áreas Naturais Protegidas da Boticário, Verônica Theulen, conta que não foi tão fácil encontrar propriedades preservadas para transformá-las em reserva. Segundo ela, mesmo seguindo o mapa de áreas prioritárias do governo, a busca foi uma verdadeira corrida contra o tempo. “Nos últimos três anos houve um processo de destruição muito rápido do Cerrado, o gado e a soja entrando com muito dinheiro”, diz.
Outro problema era a titularidade das terras, algo difícil de se comprovar. Ao fim de dois anos de busca, a Boticário conseguiu enfim efetuar a compra de seis fazendas por 2,3 milhões de reais. Uma das jóias da reserva é o rio da Conceição. Toda a bacia está protegida dentro dos 8,9 mil hectares.
Malu Nunes explica que tão logo a Tombador se torne oficialmente uma reserva particular do patrimônio natural (RPPN) e o plano de manejo estiver pronto, as portas serão abertas a visitantes e pesquisadores. O ecoturismo, ela cita, é uma vocação natural da região e bastante desenvolvida nos municípios do entorno da Chapada dos Veadeiros. Aproximar-se das universidades também é essencial: em Brasília e Goiânia existem importantes grupos de pesquisa sobre o Cerrado. “A estratégia é focar na conservação com apoio dos parceiros locais”, afirma Malu.
Leia também
Três anos após tragédia, 203 hectares de encostas em São Sebastião seguem em recuperação
Deslizamentos ocorridos em fevereiro de 2023 deixaram 853 cicatrizes de desmatamento na cidade. Cerca de 70% da área já está recoberta de vegetação →
Disputas e contradições continuam após a COP30
Plano Clima indica desafios de implementação; evitar mudanças profundas continua sendo uma linha de ação que envolve greenwashing, lobby e circulação de desinformação →
Como transformar a meta 30×30 de um slogan político para uma realidade ecológica
O recém-aprovado Tratado do Alto-Mar oferece uma oportunidade de proteger o oceano como nunca antes →



