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Azul profundo

Brasil é o segundo país que mais constrói piscinas no mundo. Em Brasília, 86% das casas do Lago Sul têm seu quadrado particular. O consumo de água é uma preocupação.

Aldem Bourscheit ·
2 de janeiro de 2008 · 14 anos atrás

O Brasil dos próximos anos deve seguir firme no segundo posto mundial em número de piscinas, e chegou ao fim de 2007 com 1,61 milhão delas instaladas pelo país. A quantidade cresce por volta de 5% ao ano. Na nossa frente, apenas os Estados Unidos, que têm mais de 11 milhões. Atrás, as áridas Austrália e Espanha.

A ampliação do comércio de piscinas, acessórios e produtos químicos como cloro e algicida é mais notável desde 1995, e deverá seguir em expansão nos anos seguintes, conta o diretor-superintendente da Associação Nacional dos Fabricantes e Construtores de Piscinas e Produtos Afins (Anapp), Kaumer Rodrigues. “Novas possibilidades de financiamentos e preços em queda favorecem mais vendas”, diz. Há cerca de uma década, uma piscina simples tinha preço semelhante ao de um carro popular. Hoje, os preços caíram pela metade. Tudo graças a melhores técnicas de fabricação, novos produtos e procura cada vez maior.

No Brasil, três materiais são usados na construção desse artigo cada vez mais popular – fibra, concreto e vinil. A manutenção gira em torno de R$ 110,00 para o tamanho médio de 38 mil litros (4 x 8 x 1,3 metros), conforme a Anapp. Uma piscina olímpica padrão, com 50 metros de comprimento, 23 metros de largura e 2,2 metros de profundidade, precisa de 2,75 milhões de litros de água.

Capital das piscinas

Se as piscinas tornaram-se uma mania nacional, isso é especialmente notável em Brasília. Avaliações do Governo do Distrito Federal e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a concentração de piscinas em regiões de Brasília é a maior do País e das maiores do mundo. As piscinas são normalmente encontradas em casas com alto padrão, nas bordas do Lago Paranoá, onde também estão as maiores rendas per capita do País.

A primeira e única Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios, realizada em 2004 pela Companhia de Desenvolvimento do Planalto Central (Codeplan), revelou que o Lago Sul tem a maior concentração de renda familiar do Distrito Federal e uma das maiores do País. O estudo também mostrou, à época, que 86,5% das casas no Lago Sul tinham pelo menos uma piscina. Em outros locais, o índice decrescia – Lago Norte (78,3%), Park Way (35,9%) e Sudoeste/Octogonal (9,9%).

De lá para cá, a procura só cresce. “Hoje a piscina não é mais um símbolo de status, é uma forma de lazer caseira. As classes média e média-alta são as que mais constroem piscinas”, comenta Rodrigues, da Anapp. O consumo de água depende de como as piscinas são usadas e também da inevitável evaporação. “Água de piscina não deve ser trocada, só tratada. A não ser por motivo extremamente grave, que exija um trabalho específico”.

Além da acumulação de renda, os terrenos maiores nos lagos Sul e Norte facilitam o uso de piscinas, explica o primeiro-secretário do Conselho Regional de Corretores de Imóveis do Distrito Federal, Luiz Cláudio Nasser Silva. Elas também ajudam a valorizar e vender imóveis mais rapidamente. “Casas com piscinas vendem mais rápido. Os proprietários não querem enfrentar transtornos com obras. Bons projetos arquitetônicos, que integrem as piscinas às residências, elevam os preços de venda”, diz.

Há cerca de uma década, muitos proprietários de terrenos no Distrito Federal não incluíam piscinas nos projetos residenciais. Queriam evitar mais impostos. No entanto, a integração tornou-se obrigatória, elevando a importância delas e melhorando projetos, com área de apoio, churrasqueira. “Isso agrega valor, não um buraco na grama”, revela Nasser Silva.

Poços de umidade?

Nasser Silva, que atua desde 1968 no ramo imobiliário, comenta que as piscinas também auxiliam a enfrentar a seca por vezes insuportável no Planalto Central. Dias extremamente secos ocorrem a todo inverno. No fim de agosto, o forte calor e dias com até 11% de umidade do ar atordoaram muitos habitantes. Para os padrões da Organização Mundial da Saúde, seria estado de emergência. “As piscinas têm um componente saudável. Elas geram umidade, pois a água vai evaporando. Sem isso, a região seria mais árida”, comenta.

O Lago Paranoá foi construído nos anos 50 justamente para tentar aliviar a seca no Distrito Federal. No entanto, seus 40 quilômetros quadrados de área e 560 milhões de metros cúbicos de água aparentemente não têm sido suficientes para elevar a umidade regional. “O lago só melhorou a situação da umidade em seu entorno imediato”, diz o presidente da Agência Brasileira de Meio Ambiente e Tecnologia da Informação (EcoData), Donizete Torkaski.

Segundo ele, isoladamente a quantidade de piscinas do Distrito Federal não é problemática, mas ele alerta que a região já está no limite do aproveitamento de suas águas. O consumo e a produção estariam empatados em 11 milhões de litros por segundo. O fantasma da escassez, de energia e de água, levou à construção da barragem de Corumbá 4 (GO), que alagou 173 quilômetros quadrados, cinco vezes mais que o Paranoá. Moradores do Lago Sul usam 650 litros de água por dia, enquanto a média mundial é de 150 para cada pessoa diariamente.

Para Torkaski, as secas e a ameaça de falta d´água no Distrito Federal cresceram com desmatamento, urbanização desordenada e impermeabilização do solo com asfalto e cimento. Isso amplia alagamentos, engarrafamentos e prejudica a recarga de nascentes no Cerrado. “Há milhares de hectares isolados e falta conservar melhor o solo e a água”, diz o ambientalista.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo histórias sobre Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Comunidades Indígenas e ...

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