Reportagens

A taça da certificação é nossa

Pará amplia sua área de florestas certificadas e eleva o Brasil à condição de campeão latino americano de madeira produzida de forma ecologicamente correta.

Ronaldo Brasiliense ·
22 de setembro de 2004 · 18 anos atrás

Estado líder em extração clandestina de madeira em áreas indígenas e unidades de conservação, o Pará também era, paradoxalmente, o campeão nacional de florestas certificadas – aquelas que recebem um selo indicando que seu manejo acontece de forma ambientalmente correta . Há um mês, graças as novas certificações obtidas junto ao FSC (Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestal) por empresas como a Orsa Florestal Limitada, Ecolog e IBL Madeiras e a expansão de áreas de empresas que já tinham o selo, como a Cikel, o estado elevou o Brasil à condição de campeão latino-americano em madeira certificada, ultrapassando a Bolívia.

Dono da maior parte Amazônia, a maior floresta tropical úmida do planeta, com cinco milhões de quilômetros quadrados, o Brasil conta atualmente com pouco mais de 2,3 milhões de hectares de florestas certificadas, sendo 1,3 milhão em hectares de florestas naturais na Amazônia e outro um milhão de hectares de plantações em outras partes do país, principalmente de pinus e eucalipto. O selo verde concedido pelo FSC é a garantia de que se trata de madeira produzida de forma legal, ambientalmente adequada e economicamente viável. É um sistema reconhecido em todo o mundo.

O aumento de áreas certificadas na região amazônica foi bem expressivo este ano, passando de pouco mais de 400 mil hectares no final de 2003 para 1,3 milhão de hectares atualmente. O gol de ouro brasileiro na certificação florestal, que fez o país ultrapassar a Bolívia, veio com a certificação de um projeto de manejo sustentável de florestas nativas de 545.535 hectares no Pará. “A certificação atesta que a empresa faz um manejo florestal adequado, com técnicas modernas e rígido controle de suas atividades, além de ser ecologicamente correto, socialmente justo e economicamente viável”, diz a Orsa, em nota oficial.

As áreas da Orsa estão localizadas nos municípios de Almeirim e Monte Dourado, no noroeste do estado, numa região marcada pela presença de florestas ombrófilas densas. Trata-se de um tipo de vegetação bastante representativo do norte-noroeste do Pará e do Amazonas. Para o pesquisador Adalberto Veríssimo, do Instituto do Homem e do Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), a certificação florestal é a saída para as empresas que querem demonstrar preocupação com boas práticas de manejo. “Os empresários vêem na certificação um caminho para serem distinguidos da exploração ilegal”, diz Veríssimo. Segundo ele, mercados mais seletivos, como a Europa e os Estados Unidos, têm demandado cada vez mais madeira certificada.

Outra área expressiva com certificação no Pará é a da Cikel Brasil Verde. Em 2001 ela havia obtido o selo verde para uma área de 140 mil hectares na Fazenda Rio Capim, município de Paragominas. Era então a maior área de floresta nativa certificada pelo FSC, onde a empresa realiza manejo florestal com a chamada extração de madeira de baixo impacto. Este ano a área certificada da Cikel foi ampliada para 248.899 hectares.

Para o coordenador do Programa Amazônia do WWF-Brasil, Luís Meneses, o fato de o Brasil possuir hoje a maior área de floresta certificada da América Latina é um marco a ser celebrado. Ele acredita que isso reflete a liderança do WWF na promoção e apoio à certificação FSC no Brasil, um trabalho que começou em 1996, com a formação do primeiro Grupo de Trabalho do FSC no país, presidido do WWF-Brasil.

Luís Meneses destaca que o país tem hoje três grupos autônomos que são membros da Rede de Comércio Global Certificado: o Grupo de Compradores de Madeira Certificada, o grupo de Produtores Florestais Certificados da Amazônia e o Grupo de Produtores Florestais Comunitários do Acre. As organizações com florestas certificadas são 42, além de 193 empresas com a certificação da cadeia de custódia, o que permite colocar o selo FSC no produto final.

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Comentários 1

  1. Fernando Tatagiba diz:

    Muito bacana a matéria! Alguns destaques que considero bem relevantes nas conclusões dos pesquisadores, à luz da gestão das unidades de conservação:
    “… a maioria das espécies não foi afetada negativamente pelo turismo e mesmo que tenhamos observado algumas alterações, elas são restritas apenas a área do parque que está aberta à visitação”. De fato, a área destinada ao fluxo de visitantes representa a esmagadora minoria na área total das UC. Assim, como ressaltam os pesquisadores, “quaisquer impactos negativos sobre a biodiversidade causados ​​pelos visitantes devem ser ponderados em relação aos ganhos de conservação e gestão proporcionados pelo turismo.” Além de visitantes e condutores autorizados contribuírem para a redução de ilícitos, como a caça, o turismo com base na conservação da natureza é importante indutor de economia. Estudo mostra que cada R$1 investido no ICMBio em 2018 produziu R$ 15 em benefícios econômicos para o Brasil!
    O Brasil só tem a ganhar com a criação e o investimento na gestão das Unidades de Conservação da Natureza!