Reportagens

Sua vida é serrar

Um motoserrista que trabalha para os construtores da Usina de Barra Grande diz que ama a natureza, mas em troca de 2 mil reais, ele desmata sem se incomodar.

Renan Antunes de Oliveira ·
3 de fevereiro de 2005 · 21 anos atrás

Todos os dias, desde o início de janeiro, o mineiro Ênio Otávio da Silva (foto) derruba mato nas barrancas do Rio Pelotas. Ele é apenas um soldado do batalhão de 200 desmatadores profissionais contratados pelo consórcio Baesa para limpar 92 km quadrados de floresta e formar ali o lago da Usina de Barra Grande, na divisa dos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina.

Aos 42 anos e 10 de profissão, Ênio não gosta do que faz: “Eu adoro a natureza mas não posso fazer nada, preciso ganhar o meu pão”. A ferramenta de trabalho dele é uma motosserra da marca Stihl, modelo MS 360. Sua jornada vai das 7 da manhã às 7 da noite. Ênio corta tudo que o vento agite. Por onde ele passa, só fica a grama.

Ênio e sua Stihl são capazes de destruir, em 45 minutos e com apenas um litro de gasolina, coisas que a natureza levou um tempão para fazer. Ele tem método: caminha 100 metros prum lado, depois 100 pro outro, de 100 em 100 até formar um quadrado, ceifando tudo que estiver dentro dele.

O homem tem a mesma cor e quase a altura do Romário. Só só é um pouco mais magro – e anda sempre com um cigarro no canto da boca. Maneja os sete quilos da sua Stihl com destreza e rapidez. Está num contrato por empreitada. Serão seis meses de corte, sem folgas ou feriados. Pela servidão voluntária vai ganhar dois mil mensais.

Pela importância e urgência de sua tarefa Ênio recebe hoje tratamento vip. Ele e seus companheiros vão e voltam do serviço em carros da Baesa. A bóia vem de Kombi, numa quentinha. Todos usam botas, luvas, capacete com visor e protetores de ouvido, necessários por causa do ronco das motosserras. A empresa tem ainda um cuidado extra: zoólogos acompanham as frentes de trabalho, levando soro antiofídico para as emergências – acidentes com cobras são comuns em áreas de desmate.

Ênio está alheio aos problemas da Baesa para inundar a área onde ele corta árvores e fazer sua usina funcionar. E prefere ignorar que as araucárias que vai cortar são protegidas por lei. ´´Nem quero saber, sou terceirizado´´, diz, jogando a responsabilidade para os de cima.´´Sou só um peão´´. Sorri, dá uma longa tragada num cigarro e limpa o suor com as costas da luva – está adorando o papo. Parece feliz em ser notado.

O repórter quer conhecer o homem. Ele conta que é pai solteiro, que deixou para trás na sua Minas Gerais um filho de 12 anos, que quando terminar o trabalho vai voltar para casa. Ele não gosta do Rio Grande. A conversa fica chata e não avança. Ele quer é sair bem nas fotos. Brande no ar sua motosserra, desligada. Sem o ronco da máquina, a paz reina por segundos na encosta, com o rio ao fundo, correndo devagar, sob um sol de rachar.

O baixinho se despede. Com um movimento rápido ele aciona o motor da motosserra e ela começa a roncar. Os dois atacam um enorme guarapuvu. Em segundos o gigante está no chão. São só 10 da manhã. O dia vai ser longo para Ênio e sua Stihl.

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