Reportagens

A força da sociobiodiversidade que mantém o Cerrado em pé

Central de cooperativas une distintos biomas para levar produtos da roça a mercados no Brasil e exterior

Aldem Bourscheit ·
23 de março de 2026

Uma rede de cooperativas populares constrói diariamente uma alternativa econômica ao agronegócio que une geração de renda e conservação do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia. A Central do Cerrado é hoje uma vitrine e braço comercial para milhares de famílias de agricultores agroextrativistas.

No noroeste mineiro, as 160 famílias ligadas à Cooperativa de Agricultura Familiar Sustentável com Base em Economia Solidária (Copabase) produzem itens como castanha de baru, polpas de mangaba, araticum e coquinho-azedo, além de goiaba, acerola, maracujá e outras frutas cultivadas em quintais e sistemas agroflorestais. 

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É algo bem distinto da paisagem regional dominada por gado e grãos. “Quando a cooperativa nasceu, há 18 anos, a gente mal conhecia o que era um pivô de irrigação. Hoje estamos cercados”, conta Dionete Barboza, coordenadora–executiva da Copabase, uma das cooperativas filiadas à Central do Cerrado.

“As famílias que não conseguem ter dignidade no campo vendem suas terras, e assim mais um pedaço de Cerrado vira monocultura”, desabafa a produtora. “O que resta de vegetação nativa são justamente as áreas onde estão as comunidades tradicionais e os assentamentos”. 

Dionete é de uma família rural da Bacia do Rio Urucuia, grande afluente do São Francisco. Seu pai foi pioneiro na apicultura organizada regional. Ela cresceu ajudando na atividade e acabou mergulhando no associativismo. Hoje, a cooperativa que ela ajuda a gerenciar vende toda a produção e paga associados à vista. 

“Teve época em que o produtor esperava quase um ano para receber. Agora, eles não precisam mais trabalhar para os outros. Atuam na própria terra, compram geladeira, televisão, alguns até carro”, destaca.

Produtores ligados à Copabase analisando e coletando frutas. Foto: Copabase/Divulgação

Do aprendizado coletivo aos negócios

Um marco na história da Central do Cerrado aconteceu em meados dos anos 2000, em Goiás Velho (GO), num Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica). 

Foi lá que organizações comunitárias, apoiadas pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), começaram a perceber que sozinhas não conseguiriam acessar novos mercados. Para isso, era preciso melhorar a organização e a escala, da produção ao comércio. 

“O ‘Seu Zé’, do norte de Minas, queria montar uma lojinha em Belo Horizonte, mas vimos que não pagava as contas”, lembra Luís Carrazza, secretário-executivo da Central. “Assim foi ‘caindo a ficha’: o mesmo que vende pequi podia vender baru, geleia, mel, mas faltava um ator entre a produção e o consumo”.

A Central se tornou essa ponte em 2004, mas tropeços ensinaram muito. O primeiro vendedor contratado nada vendeu. Os produtos esbarravam em exigências básicas, como falta de tabela nutricional, de notas fiscais e de registro sanitário. “As pessoas amavam os produtos, mas não conseguiam comprar”, resume Carrazza. 

A virada de chave veio em outubro daquele ano, no Terra Madre, um encontro na Itália do Slow Food – uma rede global que defende uma alimentação “boa, limpa e justa”. Lá, cinco mil pessoas do mundo inteiro já diziam aos extrativistas brasileiros que o que eles faziam era vanguarda. 

“Ouvimos do príncipe Charles [Reino Unido], do italiano Carlo Petrini e da indiana Vandana Shiva que o futuro estava na raiz, nas formas tradicionais de produzir”, recorda Carrazza. “Isso reafirmou nosso caminho”.

Diversidade econômica

A Central do Cerrado é hoje o principal elo entre a produção e o consumo para milhares de famílias. A cooperativa viabiliza o comércio de mais de 250 itens, atuando como um “guarda-chuva” que oferece estrutura, escala e acesso a mercados que seriam inalcançáveis para cada cooperativa agindo sozinha. 

Metade da receita da organização vem do serviço de lanches e coquetéis, uma vitrine que escoa a produção e promove os produtos para os mais variados públicos. A outra fatia vem das vendas para o varejo, indústria e outros canais. Essa diversidade de compradores traz segurança comercial. 

A Central vende em supermercados, restaurantes e feiras, em canais como o Mercado Livre e também para a Natura – que usa óleo de babaçu e buriti em cosméticos. O baru é um líder em vendas, chegando da merenda escolar a mercados europeus. 

Ano passado, na COP30 da Convenção do Clima, em Belém (PA), a Central uniu forças com a Rede Bragantina para servir mais de 90 mil refeições com itens da sociobiodiversidade a trabalhadores e participantes do evento internacional. “A gente faz de tudo, de feirinha à exportação”, resume Carrazza.

Dos quintais às certificações

Na Copabase, dentro do Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu (MSVP), as famílias combinam extrativismo com quintais produtivos e sistemas agroflorestais. Os quintais garantem também a subsistência de itens como feijão, abóbora, melancia, quiabo e jiló, reforçando a segurança alimentar e diminuindo gastos. 

“Quando a gente monta a estrutura com irrigação e manejo, eles aprendem que com menos esforço têm mais produção e mais qualidade de vida”, afirma Dionete. 

A cooperativa quer agora a certificação orgânica do baru e o selo Fair Trade, de comércio justo e solidário. “Um consultor visitou as famílias e voltou emocionado. São agricultores que nunca tiveram, antes da cooperativa, a oportunidade de ficar na terra e ter renda. Hoje eles têm”, destaca a gestora.

Financiamento público minguado

Apesar da inegável importância, trabalhos como o da Central ainda são pouco valorizados por políticas estatais. O Plano Safra, principal política de crédito para a produção de alimentos no país, ainda destina menos de 1% dos recursos para as cadeias da sociobiodiversidade. 

“O banco facilita para quem quer comprar gado ou plantar soja. Mas a complexidade de um produto da sociodiversidade não cabe na planilha financeira”, critica Rodrigo Noleto, coordenador do Programa Iniciativas Comunitárias do ISPN, que apoia coletivos como a Copabase. 

Ele lembra que, nos últimos anos, o ISPN emprestou capital de giro à Central, algo que os bancos não fariam. “É uma lógica perversa, pois quem produz conservando biodiversidade, água e clima não tem acesso a crédito. Quem desmata para plantar soja, tem”.

A política federal de garantia de preços mínimos para produtos da sociobiodiversidade (PGPM-Bio) estabelece um piso, mas sua aplicação é tímida. Já o programa nacional de alimentação escolar (PNAE) prevê 30% de compras da agricultura familiar, mas na prática tromba com burocracias. 

“A política existe, mas o recurso não chega”, reclama Dionete. “Também nunca acessamos um centavo da política de assistência técnica. Com projetos e parcerias formamos filhos de cooperados, que nos apoiam no campo. Com mais recursos, teríamos mais técnicos, mais produção e conservação”, diz a gerente da Copabase.

Além disso, o jeito próprio de gerenciar e tomar decisões das organizações de base comunitária costuma ser bem diferente da realidade de doadores e do mercado, lembra Bianca Nakamato, especialista em conservação do WWF-Brasil, outra organização apoiadora da Central.

“Isso pode impactar negativamente as relações entre as partes, muitas vezes não conseguindo concretizar e absorver demandas comerciais”, avalia.

Jovens ligados à Copabase ajudando na colheita da castanha-de-baru. Foto: Copabase / Divulgação

Resistir na última fronteira

Além do avanço do agronegócio, uma nova ameaça sobre povoados e ambientes naturais surgiu nos últimos anos: as usinas solares. “O governo de Minas abriu a porteira para grandes companhias de ‘energia limpa’ implantarem milhares de placas solares”, critica Dionete. 

“Deveria ser em áreas degradadas, mas não é. Muitos hectares de coquinhos, jatobá, baru, aroeira e pequi foram ao chão para instalar painéis”, denuncia ela. “Um dos resultados é o desequilíbrio da fauna, inclusive com araras desesperadas por alimento comprometendo a produção de frutas”, detalha.

O paradoxo é ainda mais cruel diante de acordos internacionais. O regulamento europeu para compra de produtos sem desmate, por exemplo, ignora as savanas. “O que está indo para o chão no Cerrado não é a parte florestal, é a savânica”, alerta Carrazza. “A Europa não reconhece isso, despreza o bioma”. 

Ainda assim, aquele mercado começa a se abrir para mais produtos do Cerrado. A Central participa de feiras na Alemanha e negocia com compradores da França, Suíça e Itália, onde a história por trás dos itens é mais valorizada. “A gente não pode colocar todos os ovos na mesma cesta”, lembra Dionete.

O crescimento vertiginoso da área coberta com placas para geração de energia solar ameaça comunidades tradicionais e ambientes naturais. Foto: CoyoteBR / Creative Commons

Decolagem econômica

Para os próximos anos, a Central aposta em mais diversificação e profissionalização, enquanto reivindica mais reconhecimento e valorização. “Poderíamos acessar Pagamentos por Serviços Ambientais”, defende Dionete. “Além de produzir, conservamos nascentes, recuperamos veredas, mantemos o Cerrado em pé”. 

Por sua vez, Bianca reforça que a geração de renda a partir da sociobiodiversidade é o caminho para conservar em escala e aumentar a resiliência climática e econômica de povos indígenas e de comunidades tradicionais. 

“A Central consegue absorver uma enorme diversidade de produtos e direcioná-los aos mercados. Na prática, isso mantém as pessoas em seus territórios, manejando de forma sustentável e sendo guardiãs dos biomas”, destaca.

Carrazza sonha com um dia em que a Central caminhe com as próprias pernas, sem depender de projetos. “Enquanto isso não vem, seguimos”, diz. “O que a gente faz em volume não faz cócegas no agronegócio. Mas em experiência, em mostrar caminhos, somos referência”. 

“Partimos do pressuposto de que, se não valorizar e gerar alternativas econômicas a partir da natureza, a paisagem será engolida por monocultura, mineração ou pasto. É também uma alternativa para os jovens, para que não saiam do campo encantados pelo que chega pelo WhatsApp”, projeta.

Diante do avanço de economias excludentes, a Central do Cerrado segue construindo alternativas que começam nos quintais, passam pelas feiras, chegam às prateleiras e desembarcam em mercados globais, tecendo um futuro onde comunidades, territórios e biodiversidade seguem de pé.

  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

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