Uma rede de cooperativas populares constrói diariamente uma alternativa econômica ao agronegócio que une geração de renda e conservação do Cerrado, da Caatinga e da Amazônia. A Central do Cerrado é hoje uma vitrine e braço comercial para milhares de famílias de agricultores agroextrativistas.
No noroeste mineiro, as 160 famílias ligadas à Cooperativa de Agricultura Familiar Sustentável com Base em Economia Solidária (Copabase) produzem itens como castanha de baru, polpas de mangaba, araticum e coquinho-azedo, além de goiaba, acerola, maracujá e outras frutas cultivadas em quintais e sistemas agroflorestais.
É algo bem distinto da paisagem regional dominada por gado e grãos. “Quando a cooperativa nasceu, há 18 anos, a gente mal conhecia o que era um pivô de irrigação. Hoje estamos cercados”, conta Dionete Barboza, coordenadora–executiva da Copabase, uma das cooperativas filiadas à Central do Cerrado.
“As famílias que não conseguem ter dignidade no campo vendem suas terras, e assim mais um pedaço de Cerrado vira monocultura”, desabafa a produtora. “O que resta de vegetação nativa são justamente as áreas onde estão as comunidades tradicionais e os assentamentos”.
Dionete é de uma família rural da Bacia do Rio Urucuia, grande afluente do São Francisco. Seu pai foi pioneiro na apicultura organizada regional. Ela cresceu ajudando na atividade e acabou mergulhando no associativismo. Hoje, a cooperativa que ela ajuda a gerenciar vende toda a produção e paga associados à vista.
“Teve época em que o produtor esperava quase um ano para receber. Agora, eles não precisam mais trabalhar para os outros. Atuam na própria terra, compram geladeira, televisão, alguns até carro”, destaca.


Do aprendizado coletivo aos negócios
Um marco na história da Central do Cerrado aconteceu em meados dos anos 2000, em Goiás Velho (GO), num Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (Fica).
Foi lá que organizações comunitárias, apoiadas pelo Instituto Sociedade, População e Natureza (ISPN), começaram a perceber que sozinhas não conseguiriam acessar novos mercados. Para isso, era preciso melhorar a organização e a escala, da produção ao comércio.
“O ‘Seu Zé’, do norte de Minas, queria montar uma lojinha em Belo Horizonte, mas vimos que não pagava as contas”, lembra Luís Carrazza, secretário-executivo da Central. “Assim foi ‘caindo a ficha’: o mesmo que vende pequi podia vender baru, geleia, mel, mas faltava um ator entre a produção e o consumo”.
A Central se tornou essa ponte em 2004, mas tropeços ensinaram muito. O primeiro vendedor contratado nada vendeu. Os produtos esbarravam em exigências básicas, como falta de tabela nutricional, de notas fiscais e de registro sanitário. “As pessoas amavam os produtos, mas não conseguiam comprar”, resume Carrazza.
A virada de chave veio em outubro daquele ano, no Terra Madre, um encontro na Itália do Slow Food – uma rede global que defende uma alimentação “boa, limpa e justa”. Lá, cinco mil pessoas do mundo inteiro já diziam aos extrativistas brasileiros que o que eles faziam era vanguarda.
“Ouvimos do príncipe Charles [Reino Unido], do italiano Carlo Petrini e da indiana Vandana Shiva que o futuro estava na raiz, nas formas tradicionais de produzir”, recorda Carrazza. “Isso reafirmou nosso caminho”.


Diversidade econômica
A Central do Cerrado é hoje o principal elo entre a produção e o consumo para milhares de famílias. A cooperativa viabiliza o comércio de mais de 250 itens, atuando como um “guarda-chuva” que oferece estrutura, escala e acesso a mercados que seriam inalcançáveis para cada cooperativa agindo sozinha.
Metade da receita da organização vem do serviço de lanches e coquetéis, uma vitrine que escoa a produção e promove os produtos para os mais variados públicos. A outra fatia vem das vendas para o varejo, indústria e outros canais. Essa diversidade de compradores traz segurança comercial.
A Central vende em supermercados, restaurantes e feiras, em canais como o Mercado Livre e também para a Natura – que usa óleo de babaçu e buriti em cosméticos. O baru é um líder em vendas, chegando da merenda escolar a mercados europeus.
Ano passado, na COP30 da Convenção do Clima, em Belém (PA), a Central uniu forças com a Rede Bragantina para servir mais de 90 mil refeições com itens da sociobiodiversidade a trabalhadores e participantes do evento internacional. “A gente faz de tudo, de feirinha à exportação”, resume Carrazza.


Dos quintais às certificações
Na Copabase, dentro do Mosaico Sertão Veredas–Peruaçu (MSVP), as famílias combinam extrativismo com quintais produtivos e sistemas agroflorestais. Os quintais garantem também a subsistência de itens como feijão, abóbora, melancia, quiabo e jiló, reforçando a segurança alimentar e diminuindo gastos.
“Quando a gente monta a estrutura com irrigação e manejo, eles aprendem que com menos esforço têm mais produção e mais qualidade de vida”, afirma Dionete.
A cooperativa quer agora a certificação orgânica do baru e o selo Fair Trade, de comércio justo e solidário. “Um consultor visitou as famílias e voltou emocionado. São agricultores que nunca tiveram, antes da cooperativa, a oportunidade de ficar na terra e ter renda. Hoje eles têm”, destaca a gestora.
Financiamento público minguado
Apesar da inegável importância, trabalhos como o da Central ainda são pouco valorizados por políticas estatais. O Plano Safra, principal política de crédito para a produção de alimentos no país, ainda destina menos de 1% dos recursos para as cadeias da sociobiodiversidade.
“O banco facilita para quem quer comprar gado ou plantar soja. Mas a complexidade de um produto da sociodiversidade não cabe na planilha financeira”, critica Rodrigo Noleto, coordenador do Programa Iniciativas Comunitárias do ISPN, que apoia coletivos como a Copabase.
Ele lembra que, nos últimos anos, o ISPN emprestou capital de giro à Central, algo que os bancos não fariam. “É uma lógica perversa, pois quem produz conservando biodiversidade, água e clima não tem acesso a crédito. Quem desmata para plantar soja, tem”.
A política federal de garantia de preços mínimos para produtos da sociobiodiversidade (PGPM-Bio) estabelece um piso, mas sua aplicação é tímida. Já o programa nacional de alimentação escolar (PNAE) prevê 30% de compras da agricultura familiar, mas na prática tromba com burocracias.
“A política existe, mas o recurso não chega”, reclama Dionete. “Também nunca acessamos um centavo da política de assistência técnica. Com projetos e parcerias formamos filhos de cooperados, que nos apoiam no campo. Com mais recursos, teríamos mais técnicos, mais produção e conservação”, diz a gerente da Copabase.
Além disso, o jeito próprio de gerenciar e tomar decisões das organizações de base comunitária costuma ser bem diferente da realidade de doadores e do mercado, lembra Bianca Nakamato, especialista em conservação do WWF-Brasil, outra organização apoiadora da Central.
“Isso pode impactar negativamente as relações entre as partes, muitas vezes não conseguindo concretizar e absorver demandas comerciais”, avalia.

Resistir na última fronteira
Além do avanço do agronegócio, uma nova ameaça sobre povoados e ambientes naturais surgiu nos últimos anos: as usinas solares. “O governo de Minas abriu a porteira para grandes companhias de ‘energia limpa’ implantarem milhares de placas solares”, critica Dionete.
“Deveria ser em áreas degradadas, mas não é. Muitos hectares de coquinhos, jatobá, baru, aroeira e pequi foram ao chão para instalar painéis”, denuncia ela. “Um dos resultados é o desequilíbrio da fauna, inclusive com araras desesperadas por alimento comprometendo a produção de frutas”, detalha.
O paradoxo é ainda mais cruel diante de acordos internacionais. O regulamento europeu para compra de produtos sem desmate, por exemplo, ignora as savanas. “O que está indo para o chão no Cerrado não é a parte florestal, é a savânica”, alerta Carrazza. “A Europa não reconhece isso, despreza o bioma”.
Ainda assim, aquele mercado começa a se abrir para mais produtos do Cerrado. A Central participa de feiras na Alemanha e negocia com compradores da França, Suíça e Itália, onde a história por trás dos itens é mais valorizada. “A gente não pode colocar todos os ovos na mesma cesta”, lembra Dionete.

Decolagem econômica
Para os próximos anos, a Central aposta em mais diversificação e profissionalização, enquanto reivindica mais reconhecimento e valorização. “Poderíamos acessar Pagamentos por Serviços Ambientais”, defende Dionete. “Além de produzir, conservamos nascentes, recuperamos veredas, mantemos o Cerrado em pé”.
Por sua vez, Bianca reforça que a geração de renda a partir da sociobiodiversidade é o caminho para conservar em escala e aumentar a resiliência climática e econômica de povos indígenas e de comunidades tradicionais.
“A Central consegue absorver uma enorme diversidade de produtos e direcioná-los aos mercados. Na prática, isso mantém as pessoas em seus territórios, manejando de forma sustentável e sendo guardiãs dos biomas”, destaca.
Carrazza sonha com um dia em que a Central caminhe com as próprias pernas, sem depender de projetos. “Enquanto isso não vem, seguimos”, diz. “O que a gente faz em volume não faz cócegas no agronegócio. Mas em experiência, em mostrar caminhos, somos referência”.
“Partimos do pressuposto de que, se não valorizar e gerar alternativas econômicas a partir da natureza, a paisagem será engolida por monocultura, mineração ou pasto. É também uma alternativa para os jovens, para que não saiam do campo encantados pelo que chega pelo WhatsApp”, projeta.
Diante do avanço de economias excludentes, a Central do Cerrado segue construindo alternativas que começam nos quintais, passam pelas feiras, chegam às prateleiras e desembarcam em mercados globais, tecendo um futuro onde comunidades, territórios e biodiversidade seguem de pé.
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