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Comer e plantar na cidade

Na maior metrópole brasileira, cultivo de alimentos enfrenta disputas territoriais em áreas ambientalmente sensíveis enquanto hortas se consolidam como tecnologias sociais nas periferias

Débora Pinto ·
18 de março de 2026

Comer e plantar na cidade

Na maior metrópole brasileira, cultivo de alimentos enfrenta disputas territoriais em áreas ambientalmente sensíveis enquanto hortas se consolidam como tecnologias sociais nas periferias

Reportagem de Débora Pinto

Clima à Mesa _ Ilustração Matéria 2

A neblina desce cedo sobre Parelheiros. Antes das seis da manhã, quando a maior parte dos aproximadamente 12 milhões de habitantes da capital paulista ainda dorme sobre o concreto que impermeabiliza e aquece a metrópole, o extremo sul guarda um segredo que resiste à expansão urbana predatória: o silêncio úmido da Mata Atlântica entremeado por fileiras geométricas de alface, couve, escarola, rúcula, cheiro-verde e outros vegetais. O aroma de terra molhada, cada vez mais raro na paisagem urbana, antecipa o barulho dos primeiros caminhões que seguirão para abastecer feiras livres em dezenas de distritos distantes.

É aqui, nesta faixa de transição entre o asfalto e a floresta, que nascem os córregos que alimentam as represas Billings e Guarapiranga, mananciais responsáveis por parcela significativa da água que abastece a cidade. Esta zona rural revela que a agricultura urbana e periurbana está longe de ser um relicário folclórico do passado. Ao contrário, se estabelece como infraestrutura ambiental e social em pleno funcionamento.

Segundo estudo do Instituto Escolhas em parceria com a iniciativa TEEBAgriFood do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) conta com cerca de 3.080 estabelecimentos agrícolas ativos. Essas propriedades ocupam aproximadamente 26 mil hectares e são responsáveis pela geração de 27 mil empregos diretos, um contingente superior ao de muitos setores da indústria tradicional. 

A produção de hortaliças é estimada em 450 mil toneladas por ano, um número expressivo que, no entanto, representa apenas uma fração do potencial máximo. As mesmas pesquisas indicam que a produção poderia ser ampliada em pelo menos 40% com a implementação consistente de políticas públicas de fomento, assistência técnica rural, acesso ao crédito e, crucialmente, a regularização fundiária. 

No segmento de fruticultura, o hiato é ainda maior: o potencial produtivo se aproxima de 200 mil toneladas anuais, mas a produção atual alcança pouco mais de 60 mil, sinalizando que a maior metrópole do país opera com uma fração limitada de sua capacidade de produzir alimentos frescos.

A análise econômica aprofunda essa percepção. Cada real investido na agricultura local retorna cerca de R$ 2,70 à economia do município quando considerada a cadeia integrada de comércio, serviços e indústria de transformação associada. 

A presença desses produtores no território, no entanto, não é trivial nem recente – sobretudo se lembrarmos da presença dos indígenas Guarani, responsáveis pela restauração de técnicas milenares de plantio em seu território. Desde a década de 1990, quando foram criadas unidades de conservação na zona sul, como as Áreas de Proteção Ambiental Capivari-Monos e Bororé-Colônia, construiu-se um entendimento técnico e político de que os agricultores são sujeitos fundamentais para a preservação ambiental. 

Vista de drone da aldeia indígena Krukutu da etnia Guarani na região de Parelheiros Foto: Rubens Chaves / Folhapress
Vista de drone da aldeia indígena Krukutu da etnia Guarani na região de Parelheiros Foto: Rubens Chaves / Folhapress

“Essas unidades de conservação tinham câmaras técnicas que trabalhavam a questão da agricultura e foi se criando um entendimento de que esses agricultores e agricultoras eram importantes sujeitos na proteção ambiental desses territórios”, detalha André Biazoti, gestor ambiental do Instituto Pólis. 

Ele lembra que existiram iniciativas concretas nessa direção, como o protocolo de boas práticas agroambientais do projeto Guarapiranga Sustentável, desenvolvido pelo governo do estado à época, que destacava a importância de os agricultores fazerem processos de redução de uso de agrotóxicos no território, além da valorização de práticas agroecológicas e orgânicas. O cuidado com o solo e a adoção de técnicas sustentáveis são estratégicos para a recarga de mananciais. 

A Prefeitura estrutura atualmente um programa de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) para remunerar agricultores e comunidades que preservam áreas verdes, protegem nascentes e mantêm a produção agroecológica em regiões estratégicas da cidade. 

A iniciativa está alinhada à Política Municipal de Mudança do Clima de São Paulo e às metas do Plano de Ação Climática do Município (PlanClima SP), reconhece oficialmente o valor econômico da conservação ambiental, especialmente em territórios de mananciais e sinaliza uma mudança de lógica na qual proteger água, solo e floresta passa a ser tratado como serviço de interesse público, com previsão de compensação financeira.

Os agricultores urbanos detêm um conhecimento profundo e ancestral sobre o manejo da terra, construído a partir da relação direta com as plantas, os animais e o território. Esse saber prático, transmitido e aprimorado entre gerações, é a base para a criação de sistemas verdes resilientes nas cidades. 

Ao cultivar sob princípios agroecológicos, eles empregam técnicas de conservação do solo e da água, compostagem e reciclagem, criando um sistema produtivo capaz de resistir a variações climáticas. Diferente da monocultura, a diversidade de cultivos garante que a perda de uma safra específica não comprometa toda a produção, assegurando a segurança alimentar e a resiliência do ecossistema local.

Tão longe, tão perto

Simulações técnicas indicam que a substituição de 20% dos alimentos atualmente trazidos de outras regiões por produção local reduziria cerca de 120 mil toneladas de CO₂ equivalente por ano – o mesmo que retirar uma frota de 25 mil carros de circulação das congestionadas vias da cidade. 

Esse encurtamento das cadeias logísticas também diminuiria drasticamente as perdas pós-colheita, que atualmente alcançam cerca de 30% para hortaliças folhosas, sensíveis ao transporte por longas distâncias e à interrupção da cadeia de frio.

Enquanto a produção local subutiliza seu potencial, a logística que abastece a maior parte da cidade ainda depende de cadeias excessivamente longas, centralizadas em grandes entrepostos como a CEAGESP [Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo]. Maior complexo logístico de alimentos da América Latina, por suas plataformas passam toneladas de frutas, verduras e legumes vindos de todas as regiões do país, percorrendo milhares de quilômetros em rodovias.

Essa dependência estrutural de cadeias rodoviárias extensas torna o abastecimento metropolitano perigosamente vulnerável a eventos climáticos extremos, cada vez mais frequentes. Enchentes que interditam marginais e rodovias, deslizamentos que bloqueiam trechos críticos ou interrupções no tráfego reverberam imediatamente na oferta de alimentos e nos preços ao consumidor, penalizando sobretudo as famílias de menor renda, que comprometem parcela maior do orçamento com alimentação. 

Ceagesp tem acúmulo de lixo e alimentos descartados. É possível ver muita coisa descartada perto dos boxes e onde os caminhões descarregam produtos, no estacionamento e entre os carros. Foto: José Lazarete Júnior / Fotoarena / Folhapress
Ceagesp tem acúmulo de lixo e alimentos descartados. É possível ver muita coisa descartada perto dos boxes e onde os caminhões descarregam produtos, no estacionamento e entre os carros. Foto: José Lazarete Júnior / Fotoarena / Folhapress.

A pandemia de Covid-19 e os episódios recentes de eventos climáticos extremos, como as ondas de calor e as tempestades que causaram alagamentos históricos em 2025, expuseram de maneira contundente as fragilidades dessa infraestrutura alimentar excessivamente dependente do modal rodoviário e distanciada do consumidor final.

O modelo logístico contrastante com a produção local tem impactos que ultrapassam a mera oferta de alimento; ele está diretamente relacionado à perpetuação da desigualdade nutricional. 

Enquanto feiras livres e hortifrutis em bairros centrais e de maior renda oferecem ampla variedade de produtos frescos, as periferias distantes convivem com o predomínio de ultraprocessados. 

Um estudo conduzido pelo Observatório Ibira30 no Jardim Ibirapuera, na área periférica da zona sul , entre janeiro e junho de 2025, revelou a gravidade do quadro: 86% dos entrevistados disseram já ter precisado trocar alimentos saudáveis por opções mais baratas e menos nutritivas. A pesquisa etnográfica aponta que 13 mil dos 41 mil moradores do bairro (31%) vivem em situação de insegurança alimentar grave, um índice 2,5 vezes superior à média da capital paulista, que é de 12% . 

Esse fenômeno cria o que especialistas denominam “novo mapa da fome”, onde a má nutrição causada pelo excesso de ultraprocessados – itens de baixo valor nutricional, alto teor de açúcares, sódio e gorduras, baratos e com longa validade – atinge especialmente crianças e adolescentes bombardeados por propaganda digital e que têm nos pequenos mercadinhos de bairro sua única fonte de abastecimento.

Pesquisas do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (NUPENS/USP) correlacionam esse consumo crescente em periferias ao aumento da obesidade, à prevalência precoce de diabetes tipo 2 e de doenças cardiovasculares entre jovens, condições agravadas por ondas de calor e poluição que sobrecarregam o sistema de saúde.

Produtores ouvidos por ((o))eco relatam dificuldades logísticas para levar seus produtos a centrais de compra, escassez de galpões de armazenamento que poderiam servir como centrais regionais para o escoamento dos produtos, exigências burocráticas que restringem a participação em chamadas públicas e, principalmente, a insegurança fundiária, que impede a expansão da produção e o acesso a crédito e seguro agrícola.

Considerada política pública crucial de fomento à agricultura familiar no país, em 2025–2026 a execução do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) em São Paulo começou a refletir a nova obrigatoriedade legal: a partir de 1º de janeiro de 2026, 45% dos recursos federais destinados à merenda escolar devem ser aplicados na compra direta de gêneros alimentícios da agricultura familiar e do empreendedor familiar rural, percentual elevado pela Lei nº 15.226/2025 em relação ao mínimo anterior de 30%. 

Essa mudança visa ampliar o impacto econômico do programa sobre pequenos agricultores e comunidades tradicionais, e grandes redes como a municipal paulistana têm declarado a ampliação de compras de alimentos desse segmento – ainda que dados públicos recentes mostrem que, historicamente, a implementação do PNAE nas metrópoles enfrenta dificuldades de execução que resultam em cumprimento irregular das metas legais.

Capitais e municípios metropolitanos como São Paulo frequentemente apresentam dificuldades maiores para aplicar o percentual mínimo de compras da agricultura familiar em comparação com municípios menores, seja por questões de estrutura administrativa, trâmites institucionais complexos ou pela necessidade de chamadas públicas bem planejadas – fatores que resultaram, no passado, em que muitas cidades não conseguissem atingir nem os 30% anteriormente exigidos, com desigualdade no cumprimento da lei e aplicação sub-legal dos recursos. 

Na prática, mesmo com declarações de aumento de investimentos em alimentos de agricultura familiar pela Secretaria de Educação municipal, organizações de controle social e pesquisadores alertam que persistem entraves logísticos, baixa participação de produtores de menor escala e riscos de que o cumprimento formal do novo percentual de 45% não se traduza em ganhos reais de renda e acesso ao mercado para a base mais frágil da agricultura familiar – um desafio crítico para a política pública no contexto urbano. 

Territórios ameaçados

Já a fragilidade territorial, especialmente em áreas de proteção aos mananciais, é um entrave crônico. A regularização fundiária permanece incompleta para muitos agricultores que vivem e produzem há décadas no mesmo local, limitando sua capacidade de acessar linhas de financiamento do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), contratar seguro agrícola ou mesmo realizar melhorias estruturantes como sistemas de irrigação mais eficientes. 

Conflitos históricos na disputa pela terra e a ausência de políticas municipais integradas de longo prazo fragilizam a continuidade produtiva e desestimulam práticas sustentáveis de conservação do solo e da água. 

Enquanto isso o crime organizado avança sobre os territórios rurais, especialmente na zona sul, mas também nas zonas norte e leste da cidade, num fenômeno que tem se intensificado e assumido contornos dramáticos. “Acho que um dos grandes problemas que a gente tem hoje na cidade de São Paulo é o avanço da moradia irregular, muitas vezes estimulado pelo tráfico, por milícias, que têm avançado em áreas de agricultores”, denuncia André Biazoti.

Segundo ele, os relatos são recorrentes e preocupantes: O isolamento dessas comunidades e a fragilidade da presença do Estado agravam o quadro, tornando as zonas rurais alvos suscetíveis à expansão de grupos criminosos. Para Biazoti, essa dinâmica criminosa representa, hoje, um impacto mais direto e agressivo sobre as áreas rurais do que o adensamento urbano previsto em instrumentos como o Plano Diretor, promovido por grandes incorporadoras. 

Na zona norte do município, onde agricultores cultivam a terra nas proximidades do parque da Serra da Cantareira, é possível observar com clareza, ainda segundo o especialista, a expansão de moradias ilegais subindo os morros em direção ao parque. Por lá, assim como em outras regiões, os espaços de produção acabam funcionando como freios explícitos dessa ocupação irregular. 

Vista aérea da serra da Cantareira, no bairro Jardim Peri Novo, zona norte de São Paulo. Mata nativa é devastada por invasões sem controle devido ao  crescimento populacional na região. Foto: Eduardo Knapp / Folhapress
Vista aérea da serra da Cantareira, no bairro Jardim Peri Novo, zona norte de São Paulo. Mata nativa é devastada por invasões sem controle devido ao crescimento populacional na região. Foto: Eduardo Knapp / Folhapress

Esse cenário é especialmente complexo para as mulheres que decidem viver da produção de alimentos. Em Parelheiros, o Sítio Adalgiza & Manoel pertence à família Souza da Silva desde 1991 e, desde 2017, é conduzido pela agricultora Luzia Souza da Silva – filha dos proprietários. No local, ela consolidou a produção agroecológica com foco na roça, hortaliças, PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), frutas orgânicas e criação de galinhas para ovos caipiras, além de manter no espaço atividades de educação ambiental.

A mudança para o campo foi, segundo afirmou Luzia em visita de ((o))eco a sua propriedade, “um despertar de consciência e sobrevivência”. Mãe solo e vivendo de aluguel, ela experimentou dificuldades para manter condições de vida estruturadas e saudáveis na área urbana da cidade. Construiu então a própria casa no terreno do extremo sul e passou a plantar de forma agroecológica, aproveitando as condições naturais da região e desenvolvendo, dentre outras práticas, o plantio agroflorestal. Hoje o sítio, que é acessado por uma estrada de terra de aproximadamente sete quilômetros desde o último ponto com transporte público municipal, é uma referência na região. 

Quando questionada sobre os principais entraves para permanecer e ampliar suas atividades, a agricultora cita a falta de recursos, de mão de obra e a desigualdade de gênero. 

“Para uma mulher sozinha conseguir produzir alimentos é muito mais difícil do que imaginamos”, afirma, o que se dá pelo preconceito e, também, pela maior ameaça de agentes territoriais interessados em pressionar para invadir terras de forma ilegal. Ela relata ameaças, roubos e o avanço da grilagem na região. 

“O medo é o que faz muitas mulheres e até famílias tradicionais desistirem do trabalho no campo”, lamenta, indicando ainda que a autonomia financeira é central para garantir permanência na zona rural. “É muito importante o fortalecimento e valorização dos sujeitos que produzem vida através do cultivo alimentar ecológico e cuidado com a biodiversidade do nosso território”, finaliza.

Luzia Souza orienta atividades de mutirão no sítio Adalgisa e Manoel, no extremo sul de São Paulo. Para ela, produzir alimentos na cidade é mais desafiador para as mulheres, que precisam lidar com ameaças, roubos e invasões. Foto: Lucas Pan/Rede Permaperifa

Hortas urbanas: tecnologia social e resiliência

Nos contextos urbanos, as hortas comunitárias e os quintais produtivos surgem como tecnologias sociais de resiliência, e seguem se multiplicando em diferentes formatos, atingindo públicos diversos. ((o)) eco visitou três hortas urbanas em 2024 para conhecer algumas dessas iniciativas: a Nossa Horta, sob um linhão de energia na divisa entre São Paulo e Osasco que atende de forma comunitária a aproximadamente 30 famílias, a Horta da Faculdade de Medicina da USP – que, dentre outras atividades, fornece temperos para o Hospital das Clínicas e a Horta das Corujas, primeira em praça pública da cidade de São Paulo e referência na conscientização sobre a possibilidade de uso de espaços públicos para o plantio de alimentos. Todas elas estão na Zona Oeste da cidade e refletem um microcosmo da variedade encontrada em todas as regiões da capital paulista.

Espalhadas pela cidade, as hortas urbanas cumprem funções variadas, que vão desde o incremento da segurança alimentar, principalmente nas áreas periféricas, até servirem como base para a congregação comunitária e a educação ambiental, o que inclui as hortas escolares. 

Do ponto de vista ambiental, esses espaços de cultivo atuam como  infraestruturas verdes que promovem a infiltração de água da chuva, melhoram a drenagem do solo, reduzem enchentes locais e mitigam ilhas de calor. Ao adotar técnicas como captação de água da chuva, compostagem de resíduos orgânicos, rotação de culturas e princípios de agrofloresta, geram ainda produção de alimentos frescos e, simultaneamente, reconstroem ecossistemas locais fragmentados pela urbanização predatória.

Esse conhecimento, enraizado na comunidade e no cuidado com a terra, é fundamental para o planejamento urbano e a adaptação climática, mas frequentemente é ignorado por governos e especialistas. Ignorar essa sabedoria territorial, de acordo com os especialistas e agricultores ouvidos para essa reportagem, significa desperdiçar a capacidade das próprias comunidades de estruturar bairros mais equilibrados e resilientes. A verdadeira chave para cidades adaptadas às mudanças climáticas reside, portanto, em ouvir e integrar o saber dos agricultores e da comunidade no desenho das políticas públicas. 

Foi a partir dos saberes locais que o Mulheres do GAU (Grupo de Agricultura Urbana), em São Miguel Paulista, transformou cerca de 650 m² de solo antes degradado em área produtiva agroecológica, utilizando captação de água da chuva, valas de infiltração, compostagem e sistemas integrados de cultivo de hortaliças, raízes e ervas medicinais. 

A diversidade de cultivos abastece famílias da vizinhança, escolas públicas e organizações sociais, enquanto oficinas de agroecologia e troca de saberes fortalecem a coesão comunitária, tendo se transformado em referência entre as hortas da cidade. 

Mulheres do Gau. Foto: Divulgação
O movimento Mulheres do GAU já transformou 650 m² de solo degradado em área agroecológica produtiva.. Foto: Divulgação.

Vilma Martins, coordenadora do projeto, afirma em entrevista ao ((o))eco que sua principal motivação para se transformar em agricultura urbana foi a necessidade de voltar a trabalhar com a terra, atividade que fazia parte de sua cultura na infância. 

“Esse projeto é resultado do esforço coletivo de moradores e moradoras de um território periférico que estava completamente abandonado pelo poder público. Nós nos envolvemos no projeto de urbanização do nosso entorno e construímos, coletivamente, o plantio de alimentos como estratégia”, conta Vilma.  

“O que nós percebemos lá atrás e continua fazendo sentido é que cultivar a terra reforça o acesso a outros direitos que têm a ver com o território, como o direito a uma moradia digna e a uma ambiente saudável para todos”, conta – enfatizando ainda o aspecto ligado à saúde física e mental promovidos pelas atividades realizadas na horta.

As simulações do Instituto Escolhas indicam que os terrenos ociosos e subutilizados da zona leste poderiam, se cultivados com técnicas adequadas, abastecer dezenas de milhares de pessoas com hortaliças frescas. Ampliando a análise para toda a região metropolitana, seria possível alimentar mais de 20 milhões de pessoas e gerar cerca de 180 mil empregos diretos e indiretos, sem necessidade de invadir áreas de proteção ambiental ou desmatar remanescentes florestais.

Thais Mauad é médica patologista, professora titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e pesquisadora em saúde ambiental, atuando na interface entre mudanças climáticas, poluição do ar e sistemas alimentares urbanos. Defensora da  agricultura urbana como estratégia de saúde pública e resiliência climática nas cidades, ela é responsável também pela Horta da Faculdade de Medicina, visitada por ((o))eco.

A especialista deixa claro como as hortas urbanas fazem o elo entre a promoção da saúde ambiental e a saúde das pessoas na urbe. “Integrar áreas verdes produtivas ao tecido urbano reduz incidências de doenças crônicas, melhora indicadores de saúde pública e fortalece a resiliência das populações mais vulneráveis frente às ondas de calor, poluição atmosférica e eventos climáticos extremos”, detalha.

Já ambientalista Cláudia Visoni, que é co-fundadora e líder da Horta das Corujas, aponta para o fato de que essas tecnologias sociais de produção, além de terem um papel real de restauração dos espaços urbanos, desenham possibilidades bastante tangíveis que podem associar resiliência climática e combate à fome – com a integração com cozinhas solidárias, por exemplo –, com aspectos de transformação da mentalidade sobre alimentação saudável. 

O relatório AR6 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) é taxativo ao afirmar que cidades que pretendem adaptar-se aos impactos da crise climática precisam incorporar a produção de alimentos ao planejamento urbano como elemento estruturante de políticas de adaptação e mitigação, e não apenas como adereço paisagístico ou lazer. Solos permeáveis, cobertura vegetal permanente e diversidade de cultivos reduzem o risco de enchentes, regulam o microclima, reduzem a temperatura média e atuam como sumidouros de carbono, contribuindo para as metas de neutralidade climática .

Urbe agroecológica

Em meio a esse contexto, a prática da agroecologia [entenda mais na reportagem sobre transição agroecológica do especial Clima à mesa] –  com princípios que vão desde a diminuição radical do uso de agrotóxicos à construção de redes de colaboração e uso de sementes não transgênicas – pontua um aspecto de transição fundamental tanto para a ampliação do acesso de consumidores a alimentos mais saudáveis quanto a melhores condições de trabalho para agricultores em diferentes escalas. 

André Biazoti ressalta que, assim como ocorre no campo – só que com ainda menos incentivos, por conta da invisibilização e da menor escala – para um agricultor seguir para a transição agroecológica na cidade solicita um conjunto de conhecimentos técnicos e uma janela de tempo para adaptação que podem dificultar esse processo.     

Clara Ribacaná, articuladora agroecológica do Instituto Regenera, sintetiza em entrevista a ((o))eco o potencial transformador desta abordagem: “A agroecologia urbana reconecta os ciclos que a urbanização predatória rompeu – dos alimentos, da água, dos nutrientes e das relações comunitárias”, explica. 

Desta forma, estabelece na cidade um aspecto de resiliência que é ambiental em conexão com a complexidade social atrelada aos incipientes métodos de adaptação urbana aos extremos climáticos. “A agroecologia na cidade não apenas produz comida saudável, mas reconstitui tecidos sociais esgarçados, devolvendo às populações periféricas a capacidade de agir sobre seus próprios territórios”, aponta a especialista.

A agroecologia deixou de ser experiência pontual na cidade para se consolidar como política pública. Em vigor desde 2015, a Lei Municipal nº 16.140 determinou que a rede pública de São Paulo incluísse alimentos orgânicos ou de base agroecológica na merenda escolar e estabeleceu um Plano de Introdução Progressiva de Orgânicos, com metas escalonadas até atingir 100% de oferta até 2026 – criando uma estratégia formal para orientar as compras no âmbito do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). 

Na prática, porém, a execução tem ficado aquém do previsto: relatórios recentes indicam, conforme noticiado pelo site O Joio e o Trigo, que a participação de orgânicos nas aquisições da rede municipal permanece muito abaixo das metas legais, oscilando em torno de 1% a 4% do total em alguns anos, distante dos percentuais progressivos estabelecidos pela legislação.

Em comparação a modelos convencionais baseados em monocultura, alto uso de insumos químicos e cadeias longas de distribuição, a agroecologia oferece vantagens específicas para uma metrópole como São Paulo. Ao priorizar diversidade de cultivos, manejo sem agrotóxicos e conservação do solo, a prática reduz a contaminação de mananciais que abastecem a cidade, protege remanescentes da Mata Atlântica e contribui para a regulação térmica e hídrica em áreas vulneráveis à crise climática. 

Além disso, encurta o caminho entre produtor e consumidor, diminuindo emissões no transporte e ampliando o acesso a alimentos frescos nas periferias. Em uma cidade marcada por desigualdades territoriais e pressão imobiliária, a agroecologia se afirma não apenas como técnica agrícola, mas como estratégia urbana de adaptação climática, saúde pública e desenvolvimento local.

De acordo com André Biazoti, os principais desafios para o agricultor urbano realizar a transição agroecológica envolvem questões de mercado, renda e falta de políticas públicas. Embora a resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) que proíbe a capina química e o alto custo dos agrotóxicos já desestimulem seu uso em áreas urbanas, o problema central reside na escala de produção reduzida e na baixa renda, o que dificulta a criação de uma reserva financeira para atravessar o período de transição, que pode levar até cinco anos. Durante esse tempo, o agricultor enfrenta produtividade menor e fica impedido de acessar mercados diferenciados para produtos orgânicos, agravando sua situação econômica.

Biazoti destaca que a invisibilidade da agricultura urbana nas políticas públicas é um obstáculo estrutural. A ausência de linhas de crédito, escassez de mercados institucionais e, sobretudo, de assistência técnica qualificada em agroecologia torna o processo ainda mais complexo. Segundo o especialista, a falta de apoio técnico especializado é especialmente crítica, pois a agroecologia exige conhecimentos específicos sobre práticas de cultivo e manejo do solo. “O principal desafio é realmente essa invisibilidade e essa falta de apoio que a agricultura urbana tem para a estruturação da prática como um todo”, conclui.

Para Juliana Tângari, diretora do Instituto Comida do Amanhã, os conflitos internacionais recentes podem impactar diretamente o preço dos alimentos em escala mundial, tornando ainda mais evidente a necessidade de fomento de redes locais de produção, da soberania alimentar e das práticas agroecológicas nas cidades. 

“Quanto maior for o consumo de alimentos dos biomas locais, melhor a gente vai estar no que se refere à resiliência dos sistemas alimentares”, explica, lembrando que em outubro de 2026 serão divulgadas  orientações pelo Comitê de Segurança Alimentar Mundial (CSA/CFS), para a resiliência dos sistemas alimentares.

Educadora Shayne Rodrigues Vieira em aula sobre agroecologia na Associação Pequeno Príncipe, em Parelheiros. Atividades de formação têm por objetivo reforçar a prática agroecológica em todas as regiões da cidade Foto: Divulgação Coletivo Eparreh

Oportunidade

À medida que a cidade enfrenta enchentes históricas, estiagens prolongadas e picos recorrentes de temperatura, a integração entre produção local, políticas públicas e adaptação climática mostra-se não apenas necessária, mas estrategicamente vital. A COP30, realizada em Belém em novembro de 2025, embora tenha frustrado expectativas ao não incluir metas vinculantes para a transformação dos sistemas alimentares no acordo final, colocou o tema definitivamente na agenda global. 

A presidência brasileira da cúpula, por meio da “4ª Carta“, reconheceu explicitamente que “transformar a agricultura e os sistemas alimentares” é um dos seis eixos estratégicos para a ação climática, mencionando a necessidade de “restauração de terras e agricultura sustentável” e “construção de sistemas alimentares mais resilientes e adaptativos”. 

Para a maior cidade da América Latina, essa centralidade representa uma oportunidade histórica de consolidar as experiências singulares que já existem no território – de Parelheiros a São Miguel – e transformá-las em políticas públicas robustas, de longo prazo e articuladas com as prioridades ambientais e sociais da metrópole.

Feira Estadual da Reforma Agrária. Foto: Daniela Fonseca Moura
Feira Estadual da Reforma Agrária. Foto: Daniela Fonseca Moura

O que diz a Prefeitura

((o))eco questionou a Prefeitura de São Paulo sobre as políticas e investimentos na agricultura praticada na cidade. 

A Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Trabalho, por meio do programa Sampa+Rural, afirmou que vem transformando a agricultura na cidade de São Paulo com investimentos em práticas agroecológicas e orgânicas, especialmente na zona sul, onde a atividade rural convive com áreas de mananciais. O programa oferece assistência técnica e extensão rural para aprimorar técnicas de cultivo, distribui gratuitamente insumos como adubos verdes, remineralizadores de solo e bioinsumos, além de implantar Planos Regenerativos nas propriedades e conceder bolsas do Programa Operação Trabalho Agricultura (POT) para agricultores em vulnerabilidade. As ações também incluem adaptação climática com hortas urbanas, compostagem e campanhas de cultivo protegido para enfrentar o calor excessivo e as chuvas do verão. Embora não resolva questões fundiárias, o programa firmou parceria com a ENEL para regularizar, por meio de contratos de comodato, o uso de áreas sob linhas de transmissão ocupadas por produtores, garantindo segurança jurídica e estimulando uma economia sustentável que preserva a biodiversidade e evita a contaminação dos mananciais. Leia a resposta completa aqui.

  • Débora Pinto

    Jornalista pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, atua há vinte anos na produção e pesquisa de conteúdo colaborando e coordenando projetos digitais, em mídias impressas e na pesquisa audiovisual

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