O rio é estrada, mercado, farmácia e ponte para quem vive em Silves, no Amazonas. É por ele que chegam os alimentos, os remédios, as mercadorias e quase tudo o que sustenta o dia a dia da cidade. Mas o que acontece quando essa estrada de água começa a desaparecer?
Todos os anos, a chegada do mês de junho anuncia a vazante. O fenômeno é conhecido pelos moradores, que já esperam um período de dificuldades para a cidade e para as comunidades do entorno. O que não se imaginava, no entanto, é que em 2023 e 2024 o município enfrentaria algumas das secas mais severas já registradas na região.
Segundo o Censo Demográfico de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Silves tem 11.559 habitantes. Além da sede urbana, grande parte dessa população vive em comunidades ribeirinhas espalhadas ao longo do rio Urubu e de seus afluentes. Lugares onde o rio não é apenas paisagem, mas caminho.

A estiagem, por si só, não é novidade na Amazônia. Faz parte do próprio ritmo da região, um ciclo antigo que os rios e as comunidades aprenderam a reconhecer ao longo das gerações.
Só que, em 2023, o rio desceu além do que a memória recente lembrava. Cerca de 628 mil pessoas foram afetadas pela estiagem extrema, e os 62 municípios do Amazonas decretaram situação de emergência.
O ano entrou para a história como um dos mais críticos já registrados, marcado por um colapso ambiental que comprometeu rios, florestas e o cotidiano de populações inteiras.
Tecnicamente, estiagem é um período prolongado de pouca ou nenhuma chuva, capaz de reduzir drasticamente a disponibilidade de água em uma região. Quando isso acontece, os impactos se espalham em cadeia: o abastecimento é comprometido, a agricultura sofre perdas, a geração de energia se torna mais difícil e os ecossistemas passam a operar no limite.
A natureza não é boa nem má. Ela apenas segue seu curso. O problema começa quando cidades e políticas públicas não acompanham esse ritmo. Quando o previsível encontra o improviso.
A poucos quilômetros da sede de Silves, separados apenas pelo canal principal do rio Urubu, vive há 35 anos Milarneide Muniz da Silva, moradora da comunidade Idemanda.
Quando fala sobre o período da seca, ela não busca palavras complexas. Escolhe apenas uma: “Difícil.”
Difícil era atravessar o rio. Difícil era confiar na embarcação. Difícil era saber se conseguiria voltar para casa. Mesmo com uma ponte improvisada às pressas, o acesso continuava precário e inseguro.
Para comprar alimentos, a família passou a concentrar tudo em um único dia da semana. Esperavam quinta ou sexta-feira para resolver o que fosse possível de uma vez só. Quanto menos atravessar, melhor.
“Cada um dava seu jeito”, lembra. Ao recordar o período mais crítico, ela afirma que o apoio recebido foi insuficiente.

A seca também afetou a educação dentro de casa. Sem conseguir se deslocar regularmente, a filha recebeu apostilas como alternativa para continuar os estudos. O material, porém, não foi suficiente. Sem alcançar as notas necessárias, repetiu o quarto ano em 2023.
“Se acontecer aquela mesma seca, a gente já sabe. Já está ciente das dificuldades que vamos enfrentar tudo de novo. Se para nós é difícil, as comunidades mais distantes sofrem ainda mais.”
O relato de Milarneide reflete uma realidade que marcou o município em 2023. Diante da gravidade da estiagem, a prefeitura de Silves decretou Situação de Emergência. O Decreto Municipal nº 546, publicado em 4 de outubro de 2023, reconheceu oficialmente os impactos da seca extrema no município.
A medida foi posteriormente homologada pelo Governo do Estado por meio do Decreto Estadual nº 48.503, de 10 de novembro de 2023, que confirmou a insuficiência de chuvas na região da Calha do Médio Amazonas. A situação teve vigência de 180 dias, período em que a cidade enfrentou dificuldades que afetaram desde o transporte fluvial até o acesso a serviços básicos.
Apesar das ações emergenciais adotadas durante esse período, a seca de 2023 também revelou limites na resposta institucional. A expectativa era de que, depois de um ano considerado trágico, Silves estivesse mais preparado para enfrentar uma nova estiagem em 2024.
Isso, no entanto, não ocorreu.

Todo mundo sabe. E agora?
Se para muitas famílias a seca dificultou a compra de alimentos ou o deslocamento até a cidade, na educação os impactos também se fizeram sentir.
Além do rio Urubu, o município é cortado por afluentes como os rios Itapani, Sanabani e Anebá, que estruturam diferentes regiões, como a área do Canaçari, a várzea e a região do Rio Amazonas. Nessas rotas de água, o caminho até a escola também depende do nível do rio.
Quem conhece essa realidade de perto é Zeunis Batista de Oliveira. Professor do Ensino Fundamental desde 1999 nas redes municipal e estadual, ele trabalhou por 13 anos em comunidades da zona rural ao longo do rio Urubu. Para ele, a rotina escolar sempre acompanhou o movimento das águas.
“Todos os anos, a baixada tinha efeito direto na vida das famílias. Mudava a rotina de trabalho, mudava a alimentação. E, na escola, o primeiro impacto era o transporte.”
Antes feito por pequenas embarcações, o deslocamento dos estudantes hoje ocorre em lanchas motorizadas, mais potentes. Ainda assim, quando o rio se torna raso demais, o problema persiste. As embarcações quebram, encalham ou atrasam. Em alguns períodos, o transporte escolar chega a ser suspenso.
Há estudantes que caminham por horas até alcançar um ponto onde seja possível embarcar em uma lancha. Em dias assim, chegar no horário deixa de ser prioridade. Chegar à escola já se torna, por si só, o objetivo.
Maxwell Martins Correa, diretor da Escola Municipal Professora Alda Amazonas Martins há oito anos e com 28 anos de atuação na educação, detalha o cenário atual. Na rede municipal, são 1.332 alunos matriculados. A taxa de evasão registrada é de 9,09%; o abandono corresponde a 7,07%, somando 19 desistências em todos os níveis de ensino. O município possui oito escolas na zona rural – todas dependentes de transporte fluvial.

Para evitar que as aulas sejam completamente interrompidas durante os períodos de estiagem, a Secretaria Municipal de Educação de Silves adota medidas de contingência. Professores organizam apostilas e atividades impressas, que seguem até as comunidades com o apoio de barqueiros. Quando há sinal de internet, as orientações também são enviadas por aplicativos de mensagens. O material respondido pelos alunos é recolhido semanalmente e substituído por novas tarefas, numa tentativa de manter o vínculo dos estudantes com a escola mesmo quando o deslocamento se torna impossível.
Mesmo assim, as dificuldades persistem.
Segundo os educadores, a estiagem intensifica um problema que já existe. A evasão escolar aumenta e a frequência dos estudantes se torna irregular. Não se trata de uma dificuldade exclusiva do período da seca, mas é quando ela se torna mais evidente.
Para os jovens da zona rural que precisam cursar o ensino médio na área urbana, o desafio é ainda maior. Muitos tentam conciliar trabalho e estudo. Outros acabam desistindo no caminho. Há também famílias que mudam de comunidade conforme as atividades econômicas ou a criação de animais, rompendo, no meio do percurso, o vínculo com a escola.
O deslocamento cobra ainda um preço físico. Depois de longos trechos caminhando e horas em embarcações, muitos estudantes chegam exaustos. Em dias mais críticos, há relatos de alunos que passam mal durante as aulas.
O retorno para casa tampouco é simples. Como o transporte atende simultaneamente alunos das redes municipal e estadual, os horários nem sempre coincidem. Quando uma turma é liberada mais cedo, precisa aguardar a outra. A espera acontece à margem do rio, muitas vezes sob sol intenso.
Para o professor Zeunis, as políticas educacionais ainda não conseguem atender plenamente os alunos ribeirinhos em momentos mais críticos. “Esses alunos muitas vezes são deixados de lado”, diz.

Ele reconhece que existem iniciativas e medidas emergenciais. Funcionam como contenção, mas ainda estão longe de representar uma solução estrutural. “Não existe algo que se diga: daqui a alguns anos vamos colher o fruto deste planejamento.”
Questionado sobre a possibilidade de uma nova estiagem severa, o diretor Maxwell responde sem rodeios:
“Nunca estamos preparados. A natureza tem seus fenômenos e precisam ser respeitados. Pode-se ter planejamento, planos, ideias, mas preparados o município nunca está e nunca esteve”.
Apesar das dificuldades, Maxwell afirma que o desejo permanece o mesmo: ver a educação do interior alcançar o mesmo nível da sede do município – com as mesmas condições estruturais e oportunidades para os estudantes.
Para quem o rio faz mais falta?
Márcia Andreia da Silva Grana Fernandes, feirante, vive na comunidade Divino Espírito Santo do Paranã Pai Tomás. Durante o período mais crítico da estiagem, a escola da localidade precisou suspender as atividades. O poço que abastecia o prédio enferrujou com a seca e, sem água, tornou-se impossível manter o funcionamento regular.
As crianças foram diretamente afetadas. Meses de aula foram perdidos, conteúdos ficaram incompletos e houve alunos que terminaram o ano sem concluir a série.
Enquanto os filhos lidavam com a escola interrompida, os adultos enfrentavam outra batalha: manter o sustento da família.
Márcia trabalha desde os 15 anos com produção agrícola e venda de alimentos na feira da cidade. Ela tem uma banca própria, conhecida pelos clientes e também por produtores que lhe fornecem mercadorias para revenda. Durante a semana, quem cuida do ponto é a irmã e o filho. A feirante atravessa o rio todas as semanas para garantir o abastecimento da banca. Sai da comunidade na quarta-feira e só retorna no sábado.
Com a seca, a rotina ficou ainda mais pesada.
A macaxeira que ela cultivava praticamente desapareceu da banca. Pesada demais para ser transportada nas condições impostas, acabou sendo substituída por produtos mais leves ou trocada dentro da própria comunidade. Era uma forma de reduzir perdas e continuar trabalhando sem comprometer totalmente a produção.
Na seca de 2024, com o rio cada vez mais raso, os prejuízos se tornaram inevitáveis.
“As bananas amadureciam antes mesmo de chegar à feira”, conta Márcia. O trajeto, que em condições normais levava cerca de uma hora, passou a durar até seis. “Nem sempre era possível manter o mesmo ritmo de vendas”, completa. A mercadoria comprada em parceria com produtores de Itacoatiara ficou mais cara, e o frete dos carros de transporte também aumentou, já que os motoristas enfrentavam dificuldades para atravessar na balsa.
“Pra não deixar a banca vazia, tive que pagar carro pra trazer mercadoria. Senão não tinha como manter, porque o povo já espera encontrar as coisas lá.”
Histórias como a de Márcia ajudam a dimensionar os efeitos da estiagem no cotidiano das comunidades. Ficar “ilhado” deixou de ser apenas uma expressão comum na região – passou a descrever, de forma literal, a realidade de muitas famílias.

Sem água, sem ponte e sem planejamento
Embora a estiagem faça parte do ciclo natural da região, o que preocupa moradores e especialistas é a intensidade que ela tem alcançado nos últimos anos. Os efeitos da seca na Amazônia foram visíveis em grandes rios da região, como o Negro, o Solimões, o Purus, o Juruá, o Madeira e também o Urubu.
Especialistas apontam que as mudanças climáticas têm intensificado esse cenário, elevando as temperaturas e reduzindo a disponibilidade de água que sustenta os ecossistemas da floresta. Para Rodolfo Guedes Libório, professor aposentado e atual coordenador de Educação Ambiental da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Silves, o fenômeno segue um calendário conhecido pelas comunidades ribeirinhas.
“A estiagem começa em junho e se estende até novembro. A cheia costuma retornar em dezembro”, explica.
O que mudou, comenta ele, é o comportamento recente do rio.
“Tivemos que nos adaptar a essa nova realidade. Em 2023 e 2024 dava para andar de moto onde antes só passava embarcação. Isso nunca tinha acontecido”.
Quando o assunto é planejamento ambiental para enfrentar períodos extremos de seca, Libório é enfático: ele não existe.
Um dos exemplos citados é o antigo debate sobre a construção de uma ponte para facilitar o acesso à cidade. Na avaliação do coordenador, o município ainda opera sob a lógica de “esperar a água baixar e depois subir”, estratégia que já não se sustenta diante da frequência e da intensidade das crises climáticas.
Outro reflexo da estiagem aparece na mobilidade urbana e regional. A travessia da balsa, que normalmente dura entre 10 e 15 minutos, passou a levar até duas horas nos períodos mais críticos. Em alguns casos, veículos precisam interromper o trajeto no meio do caminho devido ao baixo nível do rio.
“Antes se discutia se precisava ou não de uma ponte. Hoje, é necessário. Contar com a sorte não é a melhor forma de lidar com isso”.

À medida que a navegabilidade dos rios diminui, os preços das mercadorias aumentam, e comerciantes passam a recorrer a alternativas improvisadas para garantir o abastecimento, como o descarregamento manual de produtos em trechos onde caminhões não conseguem chegar.
De acordo com o coordenador, a estiagem também compromete a fiscalização ambiental. A limitação no deslocamento das equipes favorece o aumento da pesca predatória de espécies ameaçadas, como o pirarucu e o peixe-boi amazônico, além da intensificação das queimadas.
Durante a vazante, a dinâmica social entre as comunidades também se altera. O intercâmbio entre moradores – como campeonatos esportivos e atividades coletivas – acaba sendo interrompido, aprofundando o isolamento.
Até erguer uma casa se torna um desafio. Sem navegação regular, materiais básicos demoram a chegar ou simplesmente não chegam. E, quando chegam, custam mais caro.
Com o rio baixo e grandes segmentos de terra expostos, algumas áreas que antes só eram acessíveis por embarcação passaram a permitir a circulação de motos. Para os moradores da comunidade São José do Pampolha, isso trouxe um tipo diferente de incômodo.
Uma moradora da comunidade, que preferiu não ter o nome divulgado, conta que a tranquilidade do lugar foi quebrada durante o período mais crítico da seca.
“Parecia que a comunidade tinha virado um zoológico”, relata.

Naquele período, pessoas da cidade passaram a atravessar a região de moto apenas em busca de passeio e do cenário revelado pela vazante. Como a lama dificultava a passagem, logo apareceram pequenas pontes improvisadas de madeira. A iniciativa, curiosamente, não envolveu quem vive ali.
Algumas dessas pontes foram construídas praticamente coladas às janelas e portas das casas. Quem passava por elas acabava transitando a poucos passos das famílias, com visão direta do interior das residências.
“Meu Deus, a gente sofrendo com a falta de água, morrendo de calor, e tinha gente da cidade querendo parar pra tirar foto”, disse, indignada.
A conta da água baixa
Seu Everaldo Batista Lira recorda as grandes vazantes de 2009 e 2012. Ele ri quando o assunto é seca. “Os únicos que realmente gostam da seca são os bois, que encontram pasto farto quando a água baixa.”
Trabalhando com uma variedade de produtos, Everaldo conta que a farinha foi uma das mais afetadas. As manivas da mandioca – pedaços do caule usados no plantio – não resistiram ao solo seco e acabaram morrendo.
Sem matéria-prima, ele precisou mudar de estratégia. Passou a vender apenas polpas de frutas na feira. Para isso, saía da comunidade e chegava a caminhar cerca de cinco quilômetros até o estreito, de onde seguia viagem para a cidade.
Os impactos não ficaram apenas na roça. Amigos pescadores contaram que os peixes não chegaram a morrer, mas se afastaram, buscando canais mais fundos e distantes. Pescar passou a exigir mais tempo, mais combustível e mais risco.
Longe da sede do município, na comunidade da Eva, onde seu Everaldo é morador, o jeito foi abrir poços para não ficar sem água. O alívio de encontrar uma nascente, porém, nem sempre vinha rápido. Muitas vezes a água que surgia era barrenta ou imprópria para consumo, e o que restava era continuar procurando até que brotasse uma nascente de água limpa. Uma busca que podia levar horas, dias ou até semanas.
“A gente é brasileiro, não pode desistir”, diz seu Everaldo, rindo.
O riso não esconde as dificuldades. Nos períodos mais severos, aumentam os casos de doenças de veiculação hídrica. Com rios e lagos reduzidos, a água disponível para consumo torna- se mais concentrada, barrenta e propensa à contaminação por microrganismos.
Como nem todas as famílias têm acesso a poços artesianos, crescem os registros de diarreia, gastroenterites, hepatite A e verminoses – especialmente entre crianças.

Não é apenas o corpo que sente.
O medo de faltar água potável, alimento ou de não conseguir chegar ao hospital em uma emergência provoca ansiedade, estresse e sofrimento psicológico, sobretudo nas comunidades mais isoladas. A insegurança passa a fazer parte do cotidiano.
É isso que a enfermeira Taís Viana, da rede municipal de saúde de Silves, detalha. Nas áreas mais afastadas, os agentes comunitários de saúde assumem papel fundamental. Quando o paciente não consegue chegar à unidade, a equipe vai até ele. Em algumas situações, moradores se mobilizam para carregar pacientes em macas por longos trechos de terra.
As crises de 2023 e 2024, segundo Taís Viana, marcaram uma mudança na organização da Secretaria Municipal de Saúde. A gestão passou a antecipar o envio de medicamentos de uso contínuo, soro fisiológico e hipoclorito de sódio às unidades ribeirinhas antes do período mais crítico, numa tentativa de reduzir riscos e evitar desassistência.
“O município de Silves demonstrou uma alta capacidade de resiliência e adaptação. A equipe de saúde já possui habilidades adquiridas pela experiência e conhecimentos para mobilizar comunidades e improvisar remoções. No entanto, o preparo para secas ainda mais severas não pode depender apenas da improvisação; ele precisa de infraestrutura logística e tecnológica”, declara.
Não se trata de uma percepção isolada. Em diferentes setores da administração, o entendimento é semelhante: a cidade reage, mas ainda não se antecipa.
A resposta institucional à estiagem passa principalmente pela atuação da Defesa Civil municipal. A distribuição de cestas básicas, água potável e outros itens de ajuda humanitária depende do mapeamento das regiões mais afetadas e das necessidades específicas de cada comunidade.
Esse processo, que já exige coordenação logística, torna-se ainda mais desafiador diante das dificuldades de acesso às áreas ribeirinhas.
Jucie Neves, integrante da Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (COMDEC) de Silves, explica que o monitoramento do nível do rio é uma das ferramentas utilizadas para orientar as ações.
Em 5 de agosto de 2024 foram instaladas réguas linimétricas no município, além de uma unidade do Projeto Água Boa, iniciativa voltada ao acompanhamento das variações do nível do rio. A estação de monitoramento no Rio Urubu passou a integrar a rede de observação da Defesa Civil do Amazonas e segue em funcionamento até hoje, em 2026, permitindo a formação de uma série histórica das medições no município.
Jucie explica que Silves também possui um Plano de Contingência que prevê ações de prevenção, mapeamento de áreas de risco e organização da resposta emergencial. Ao todo, 38 comunidades fazem parte desse monitoramento.

Ainda assim, no cotidiano das comunidades ribeirinhas, cada viagem pelo rio exige cálculo.
O apoio da prefeitura vinha, por vezes, na forma de combustível. Um alívio bem-vindo, mas insuficiente para cobrir todas as despesas.
Para não sair no prejuízo, a solução foi reduzir as idas à cidade. As viagens passaram a acontecer a cada quinze dias, levando de uma só vez tudo o que a produção permitia carregar.
Cristiane Monteiro Viana, da comunidade Santa Maria, explica que a família vive da plantação – banana e mamão são o carro-chefe. Com os caixotes pesados e muitos trechos do rio rasos demais para a embarcação, não havia espaço para arriscar.
O jeito era seguir por um caminho mais demorado: o canal conhecido como “Boca de Silves”, que passa por Itapiranga antes de chegar ao município. A viagem podia levar cerca de duas horas. Era o único percurso com água suficiente para garantir que a carga chegasse inteira.
Nas comunidades, a estiagem se sente no tempo da viagem, no peso dos caixotes e na incerteza da água limpa. Nos órgãos públicos, ela aparece em tabelas, relatórios e listas de comunidades afetadas – tentativas de organizar, em números e documentos, uma realidade que no território se impõe de forma muito mais complexa.
Ir à feira não é só ir à feira
Há ribeirinhos que não atravessam o rio por opção, mas por necessidade. Nas 38 comunidades rurais de Silves, muitos produtores dependem dessa travessia semanal para transformar o que plantam em sustento.
Às sextas-feiras, antes mesmo de o sol aquecer o centro da cidade, as embarcações começam a surgir pelo estreito. De dentro delas descem sacas de farinha, cachos de banana, paneiros de tucumã e caixas de isopor com peixe fresco.
Entre os feirantes está Aldemira Porfírio Maia, mais conhecida como dona “Nini”, da comunidade Eva. Famosa pelo pé-de-moleque tradicional, pela tapioca, pela farinha e pelo beiju, ela conta que, no período mais crítico, quem passou a fazer o trajeto foi o marido. Em alguns trechos, era preciso caminhar quase uma hora carregando a produção em busca de canais onde a embarcação pudesse seguir.

A produção não diminuiu. Ela já tinha compradores certos, muitos por encomenda. Não podia reduzir a demanda. E, como alguns vendedores deixaram de vir por causa das dificuldades, acabou vendendo ainda mais.
“Só com esforço mesmo pra aguentar”, comenta, sorrindo e indicando os caixotes ao lado.
Sobre a ponte de madeira improvisada, dona Nini lembra que apenas quatro pessoas podiam atravessar por vez. “Atrapalhava mais do que ajudava”, diz.
E quando o esforço e o custo passam a ser maiores que o lucro?
Sônia Maria dos Santos, da comunidade Ituã, trabalha com polpas de frutas. Ao lembrar da estiagem, fala com certa distância: “já tem tempo”. Naqueles meses, ela deixou de vir à cidade. Diferente de outros produtores, não recebeu apoio com combustível. Mesmo morando em uma das comunidades mais próximas da sede do município, diz que a travessia simplesmente não compensava.
A cerca de 18 quilômetros de Silves, na afluente do rio Anebá, fica a comunidade Santana, onde vive Benedito dos Santos Dultra Filho. No auge da seca, ele conta que a viagem até a feira chegou a durar oito horas. Nos trechos baixos do rio, a canoa já não seguia sozinha: era hora de “rasgar a lama” – empurrar a embarcação na força dos braços e abrir passagem. Uma tarefa que exige atenção redobrada: em água parada e turva, jacarés podem estar à espreita.
Se as 15 sacas de farinha diminuem, o ganho também mingua. Por isso, mesmo quando o rio afina, quando a canoa raspa no banco de areia e o braço arde de tanto remar, eles não deixam de trazer a farinha que garante o sustento da casa.
As embarcações, na maioria compradas pelos próprios moradores, são canoas de alumínio soldado; as de madeira já são raras. Quebrar a canoa significa arcar com o custo de uma nova, então cada remada exige cuidado e destreza para atravessar os trechos rasos.

Na chegada à cidade, já no estreito do porto, há os carregadores cedidos pela prefeitura. Eles ajudam no transporte até a feira, dão apoio no desembarque e aliviam um pouco o peso. Mas o grosso do trajeto – as horas no remo, o empurra-empurra na lama, o risco no igarapé – esse fica mesmo nos ombros de quem saiu de casa ainda de madrugada para garantir cada saca.
Questionado sobre o que poderia melhorar, Benedito menciona um projeto antigo com uma empresa chamada Mil Madeira Preciosas. A proposta seria criar um acesso mais curto até a cidade. Faltaria, segundo ele, uma licença ambiental – que teria apoio do prefeito para ser viabilizada. Mas, até este ano de 2026, o plano não saiu do papel.
Outro aspecto citado pelos produtores foi a doação de triciclos durante o período mais crítico da estiagem. As entregas ocorreram em diferentes momentos, embora não exista um calendário oficial amplamente divulgado com as datas dessas distribuições.
Relatos de feirantes indicam que a distribuição não contemplou todos que necessitavam do equipamento. Alguns beneficiados não estariam na linha de frente da produção, enquanto outros, cuja renda depende da venda na feira, afirmam ter ficado de fora. Parte dos entrevistados acredita que a entrega simultânea de cestas básicas pode ter contribuído para desencontros e falhas no processo de organização.
Foram sete ribeirinhos silvenses ouvidos nesta reportagem. Sete vozes entre tantas outras que atravessaram a estiagem com silêncio, improviso e esforço. Histórias que ajudam a entender uma pergunta que nunca foi apenas retórica: se Silves depende do rio para funcionar, o que acontece quando ele desaparece?
Programa de Bolsistas da Amazônia Legal, formados pelo curso Introdução ao Jornalismo Ambiental, uma parceria entre ((o))eco e Imazon.
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