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“Quem para a lama da morte?”

Rejeitos dos transbordamentos de minas da Vale contaminam rio Paraobeba e afluentes. Comunidades ribeirinhas, já impactadas por Brumadinho, revivem drama

Cristiane Prizibisczki ·
30 de janeiro de 2026

Eram cerca de 11h30 da manhã do dia 28 de janeiro quando uma lama avermelhada ocupou o leito do rio Paraopeba, em Esmeraldas, na região central de Minas Gerais. Trabalhadores de areais às margens do rio registraram, com preocupação, a chegada dos rejeitos provenientes do transbordamento das minas de Fábrica e Viga, da mineradora Vale, ocorrido entre domingo e segunda-feira (25 e 26). O episódio reacende o temor de comunidades ribeirinhas que ainda lidam com os impactos do rompimento da barragem de Brumadinho e expõe novos danos ambientais e sociais ao longo da bacia.

Na quinta-feira (29), o governo de Minas Gerais autuou a Vale em R$ 1,7 milhão pelos danos ambientais causados e por não ter comunicado o ocorrido em até duas horas após o início do fato. Antes, na segunda-feira (26), o governo mineiro já havia suspendido os alvarás de funcionamento das atividades associadas. 

As comunidades atingidas acham que as punições são brandas demais, considerando o impacto que esta nova contaminação trará ao meio ambiente e aos seus modos de vida e subsistência.

“Isso é troco de bala para a Vale. Com esse novo rompimento, a esperança que a gente tinha de um dia voltar a ter a nossa vida de volta acabou. Acabou!”, diz Patrícia Passarela, moradora da comunidade Taquaras/Riacho, no município de Esmeraldas. 

Extravasamento de água registrado em mina da Vale, no domingo (25). Foto: Prefeitura de Congonhas/Defesa Civil

Membro de uma comunidade ribeirinha – que até 2019 tinha a pesca e o turismo associado como modo de subsistência – Patrícia luta por reparação desde o crime de Brumadinho e vê esta nova contaminação como um novo golpe.

“Se com o primeiro rompimento [de 2019] o rio ia demorar 700 anos para ser limpo, agora vai ser mais 700 anos? Qual das minhas gerações viverá para poder ver esse rio limpo de novo? Isso é atropelar nossas memórias, nossa cultura, é atropelar tudo o que a gente um dia planejou viver”, diz. 

A previsão do tempo necessário para a limpeza do Paraopeba vem de um estudo feito no início de 2025 pelo Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (NACAB) que projetou diferentes cenários de recuperação ambiental: no mais otimista, seriam necessários 44 anos de dragagem para a retirada total dos resíduos. O cenário mais pessimista coloca esse prazo em 741 anos.

De fato, o processo de limpeza do Paraopeba acontece de forma muito lenta. Na prática, a dragagem do rio para retirada dos sedimentos do crime de Brumadinho ainda está restrita a apenas três quilômetros do curso do rio, em um primeiro trecho.

Pelo acordo judicial feito com a Vale, a previsão era de limpeza de 54 quilômetros até 2024, meta que não foi cumprida. Para o segundo trecho (entre três e seis quilômetros), os trabalhos de dragagem ainda estão em processo de licenciamento. Nos trechos 3 (6 a 38 km) e 4 (39 a 46 km) os trabalhos estão em fase de definição de estratégias e metodologias. Para o trecho 5 previsto no acordo judicial (a jusante da Usina Hidrelétrica de Igarapé, próxima a Juatuba), ainda não há nada definido.

“Até dezembro de 2025, a retirada de rejeitos da calha havia alcançado apenas 17% do volume estimado de rejeitos depositados no Rio Paraopeba”, estima o Instituto Guacuy, que faz assessoria técnica independente de comunidades atingidas pela mineração em Minas Gerais.

Essa demora na limpeza faz com que, a cada novo episódio de cheia do rio, os sedimentos se movimentem e espalhem. Estudo publicado na última segunda-feira (26) pela NACAB, a primeira assessoria citada, mostrou que após as grandes cheias de 2020 e 2022, uma área de cerca de 24 milhões de m² apresentou aumento da concentração de material ferroso, intensa perda de vegetação e aumento da concentração de argila.

“Os índices são equivalentes aos da região diretamente atingida pelo rompimento, em Brumadinho, o que evidencia que o rejeito foi redistribuído no território, anos após o desastre-crime”, diz o estudo publicado esta semana.

Entenda o que aconteceu

Entre domingo e segunda-feira (25 e 26) foram registrados rompimentos de estruturas vinculadas a sumps – reservatórios pequenos no fundo da cava de uma mina – nas Minas Fábrica e Mina Viga, entre as cidades mineiras de Ouro Preto e Congonhas. 

Segundo a prefeitura de Congonhas, somente o extravasamento da Mina Fábrica despejou cerca de 300 mil metros cúbicos de sedimentos nos rios da região. O volume do segundo transbordamento ainda não foi divulgado. Os rios Goiabeiras, Maranhão e Paraopeba já foram atingidos. 

Em ambas as minas, foram constatadas falhas no sistema de drenagem, agravadas pelo elevado índice de chuvas em Minas Gerais. “Foi um dano ambiental incrível, nunca antes registrado aqui no município de Congonhas”, disse o prefeito de Congonhas Anderson Cabido, após o ocorrido.

Além da multa de R$ 1,7 milhão – que pode ser ampliada, conforme novos danos forem registrados – e da suspensão cautelar das atividades da Mina de Viga e Mina de Fábrica, a Vale foi obrigada a apresentar um Plano de Recuperação de Área Degradada (Prad) em até 10 dias e medidas emergenciais em até 48 horas.

Contaminação 

O município de Esmeraldas fica a 150 km do foco do vazamento nas minas da Vale ocorridos nesta semana. A líder ribeirinha Patrícia Passarela sabe, no entanto, que uma vez que os rejeitos caem nos rios e córregos, os impactos ambientais e sociais se espalham com a força das águas. 

“Você acha que esse lamaçal não chegou no [rio] São Francisco? Quem para o barro? Quem para o rejeito de minério? Quem para a lama da morte?”, questiona Patrícia, ao lembrar que o Paraopeba é um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco. 

Desde 2019 sua comunidade e dezenas de outras ao longo do rio Paraopeba estão proibidas de pescar ou consumir a água do rio, mesmo para dessedentação de animais. Segundo a líder ribeirinha, as atividades de turismo acabaram, pessoas foram deslocadas, famílias destituídas de seus lares e do convívio com a terra e o rio que ocupavam. 

Agora, o ocorrido nas Minas de Fábrica e Viga este final de semana fez com que Patrícia e outros tantos afetados revivessem o trauma. “Estamos diante de mais um crime da Vale, e não é o crime de Brumadinho, é o crime de Congonhas”, diz a ribeirinha.

Vídeo mostra lama no rio. Imagem: Comunidade ribeirinha Melo Franco/Brumadinho
  • Cristiane Prizibisczki

    Jornalista com quase 20 anos de experiência na cobertura de temas como conservação, biodiversidade, política ambiental e mudanças climáticas. Já escreveu para UOL, Editora Abril, Editora Globo e Ecosystem Marketplace e desde 2006 colabora com ((o))eco. Adora ser a voz dos bichos e das plantas.

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