Reportagens

Tragédia sulista é também ecológica

A enxurrada tragou imóveis, equipamentos e estradas em áreas protegidas e ampliou risco de animais e plantas serem extintos

Aldem Bourscheit ·
17 de maio de 2024 · 2 anos atrás

Parques e outras áreas protegidas foram igualmente atingidos pela enxurrada histórica no Rio Grande do Sul. Protegidas pelo poder público federal, estadual e municipal, elas mantêm ambientes traçados pela natureza, animais e plantas nativos, ajudam a controlar as cheias e outros serviços coletivos.

“Banhados e outras áreas naturais, dentro e fora de unidades de conservação, acumulam e filtram a água e a liberam lentamente aos rios. É um serviço ambiental de primeira ordem, sobretudo em catástrofes”, lembra Alexandre Krob, coordenador Técnico e de Políticas Públicas do Instituto Curicaca.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



As florestas nacionais de Canela e de São Francisco de Paula foram das unidades federais de conservação mais prejudicadas. Estradas, pontes e casas estão comprometidas. Os parques nacionais da Serra Geral e dos Aparados da Serra sofreram deslizamentos de terra e bloqueio de vias.

Unidades de conservação como a Área de Proteção Ambiental (APA) do Ibirapuitã, no oeste gaúcho, teriam sido menos impactadas, mas no sul a enxurrada afetou o Parque Nacional da Lagoa do Peixe e a Estação Ecológica do Taim, outros grandes abrigos de biodiversidade.

Nas reservas atingidas será necessário reformar telhados, paredes, fossas e outras estruturas de imóveis, remover árvores perto da rede elétrica, repor móveis e equipamentos como máquinas de lavar, microondas e roçadeiras. Os custos ainda não foram totalmente estimados.

“Temos monitorado e atuado nas unidades de conservação, enquanto especialmente prefeituras e Defesa Civil, no sentido da reconstrução e adequação de estradas”, conta Walter Steenbock, doutor em Ciências pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e gerente da Região do Sul no ICMBio.

Alagamento na Floresta Nacional de São Francisco de Paula (RS). Foto: ICMBio/Divulgação

A autarquia federal está de olho na situação desde o fim de abril, quando a enxurrada já dava sinais de sua força e alcance recordes. Servidores, barcos, carros e o navio de pesquisas Soloncy Moura foram acionados. As equipes ajudam a doar alimentos, roupas e remédios às vítimas.

Entre as 24 unidades de conservação gerenciadas pelo governo gaúcho, as mais atingidas estão na Região Metropolitana e municípios vizinhos de Porto Alegre, onde há quantidade colossal de água acumulada. A lista tem os parques de Itapuã e do Delta do Jacuí, além do Parque Municipal do Lami. “Áreas como essas alagaram muito mais do que o usual, com as cheias corriqueiras dos rios”, avalia Krob, do Instituto Curicaca.

Ao mesmo tempo, mais de 1.300 famílias de etnias indígenas como Guarani Mbyá, Kaingang, Xokleng e Charrua, além de quilombos como São Roque e Povo dos Peraus foram vitimados. Até agora, 67 aldeias em 35 municípios foram atendidas pela Articulação Indigenista no estado.

Um movimento formado por 17 entidades civis e servidores públicos alerta que faltam recursos para todos, seja durante ou na recuperação da calamidade.

“Quando as águas começarem a baixar e a solidariedade que move as ações de apoio não for suficiente para atender todas as demandas, é imprescindível que o poder público tenha ocupado seu devido lugar, assumindo suas obrigações”, alerta uma carta pública do movimento.

O aguaceiro turvo que cobriu cidades e áreas protegidas avança da Lagoa dos Patos ao Atlântico. Foto: Jorge Lansarin/Agência Enquadrar/Folhapress

Fauna submersa

Há 280 espécies animais e 600 de plantas sob risco de sumirem do mapa no Rio Grande do Sul, inúmeras em meio às áreas afogadas pela enxurrada. A situação de ambos os grupos poderá ser mais bem conhecida apenas quando as águas baixarem.

Um deles são os cervos-do-pantanal abrigados no entorno de Porto Alegre. Os animais buscam áreas mais altas quando as águas passam dos 40 cm. Com as cheias, parte dos animais pode ter deixado a APA do Banhado Grande rumo ao Refúgio de Vida Silvestre Banhado dos Pachecos e fazendas.

“Isso os deixa ainda mais suscetíveis a ataques de cães e caçadores, pois a cheia facilitou seu acesso às unidades estaduais de conservação”, ressalta Alexandre Krob, do Instituto Curicaca. A ong também avalia a situação de espécies como o sapinho-admirável-de-barriga-vermelha, que pode ter sido varrido pelo aguaceiro do Rio Forqueta, na Serra gaúcha.

Parte dos animais acolhidos pelo Cetas de Porto Alegre. Foto: Supes/Ibama-RS

Além do drama das espécies ameaçadas, até agora quase 13 mil cães, gatos, coelhos e aves, sobretudo domésticos, foram resgatados e tratados por entidades como Defesa Civil, ICMBio e voluntários do Grupo de Resposta a Animais em Desastres (GRAD).

A água subiu a quase 2 metros na superintendência do Ibama e seu Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) na capital gaúcha, mas o mesmo segue recebendo animais silvestres num espaço cedido no Jardim Botânico de Porto Alegre.

Cerca de 40 aves e mamíferos como gambás estão lá abrigados. Outros espécimes foram repassados ao Hospital Veterinário da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e à Toca dos Bichos, ambos em Porto Alegre, e à Quinta da Estância, em Viamão.

No vídeo abaixo, o analista ambiental, médico veterinário e chefe do Cetas do Ibama na capital gaúcha, Paulo Wagner, compartilha a realidade do trabalho para resgatar animais silvestres e domésticos e a população em meio às cheias que afligem o estado.

Vídeo: Assessoria de Imprensa do Ibama/Divulgação 
  • Aldem Bourscheit

    Jornalista cobrindo há mais de duas décadas temas como Conservação da Natureza, Crimes contra a Vida Selvagem, Ciência, Agron...

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
17 de maio de 2024

Rio Grande do Sul perdeu 22% de sua cobertura vegetal nas últimas décadas

Levantamento exclusivo de ((o))eco mostra que o passivo de Reserva Legal e APP no estado chega a quase 400 mil hectares. Vegetação ajuda a controlar enchentes

Colunas
16 de maio de 2024

O que as enchentes no RS e o desmatamento na Amazônia têm em comum?

O desmantelamento das políticas ambientais tem sido acompanhado por uma retórica que desvaloriza a conservação e coloca o desenvolvimento econômico imediato acima da preservação a longo prazo

Reportagens
13 de maio de 2024

Tragédia no RS “não será a pior”, alerta coordenador de frente de prefeitos

Participantes do último dia de seminários organizados pelo Instituto Democracia e Sustentabilidade, realizado na última sexta (10), falaram sobre financiamento à adaptação

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.