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Lei que proíbe pesca em Mato Grosso não tem base científica, diz WWF-Brasil

Em nota técnica, ong afirma que estudos que sustentam criação da lei não demonstram que há sobrepesca e que principais impactos são barragens e expansão hidroviária

Redação ((o))eco ·
7 de abril de 2026
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O WWF-Brasil revisou os estudos que sustentaram a criação da lei que proíbe a pesca nos rios matogrossenses e aponta inconsistências científicas e impactos socioeconômicos relevantes na Bacia do Alto Paraguai. Segundo a nota técnica publicada nesta terça-feira (07), a pesca movimenta  R$ 889 milhões por ano no estado. 

A lei, de autoria do governador Mauro Mendes (União Brasil-MT), entrou em vigor em 2023 e proíbe, por um período de cinco anos, o transporte, o armazenamento e a venda de peixes de rios do estado. Segundo justificativa, a proposta busca mitigar a pesca predatória, porém, de acordo com a nota técnica do WWF-Brasil, os estudos não conseguiram demonstrar que há sobrepesca na Bacia do Alto Paraguai (BAP). A lei é alvo de uma ação direta de inconstitucionalidade que está tramitando no Supremo Tribunal Federal.

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“Nenhum dos dez trabalhos apresentados traz evidências de redução dos estoques

pesqueiros por sobrepesca, embora diversos citem a atividade como uma das estressoras – ao lado de outras como o desmatamento e o barramento de áreas de desova por hidrelétricas –, seja com base em indícios de alterações ambientais ou com base em análise de risco”, afirma o documento. 

“Na verdade, os trabalhos científicos usados para justificar a lei apontam como principais causas do declínio dos estoque, a fragmentação de habitats por barragens hidrelétricas, o turismo de pesca desregulado, a pesca ilegal no período da piracema, o desmatamento de matas ciliares e a poluição por agrotóxicos e esgoto doméstico. Ou seja, a lei promoveu uma inversão de causalidade”, conclui.

A nota técnica também destaca que os legisladores ignoraram a recomendação do relatório que embasou a lei, que previa a regulamentação do uso de cevas – disponibilizar animais mortos para atrair animais, muito usado no turismo de observação de onças – e tablados – uma espécie de palafita que pode ser fixa ou temporária e facilita o trabalho na pesca –, práticas utilizadas no turismo de pesca, com impactos já reconhecidos sobre os estoques.

Impacto financeiro

O documento reúne dados inéditos sobre o valor econômico da pesca na região: juntos, os diferentes segmentos da atividade movimentam cerca de R$ 889 milhões por ano, o equivalente a 44% do PIB médio anual dos municípios da Bacia do Alto Paraguai, em Mato Grosso.

Dentro desse total, a pesca profissional artesanal responde por R$ 102,7 milhões anuais, considerando a renda direta com a venda do pescado (R$ 59 milhões), além do autoconsumo, da cadeia produtiva associada e do valor cultural do modo de vida ribeirinho. Já o turismo de pesca movimenta R$ 54,9 milhões por ano.

“Ao restringir uma atividade que movimenta centenas de milhões de reais por ano e que sustenta diretamente milhares de famílias ribeirinhas, a lei impõe perdas econômicas significativas sem enfrentar os principais fatores que pressionam os estoques pesqueiros. Proibir não é proteger. Proteger é conhecer, monitorar, ordenar com justiça e dialogar com quem vive do rio”, afirma Silvia Zanatta, especialista em conservação do WWF-Brasil.

A nota técnica também chama atenção para a atuação dos pescadores artesanais do Pantanal, que nos últimos anos têm desempenhado papel ativo nos debates sobre projetos de infraestrutura na região, como empreendimentos hidrelétricos e iniciativas de expansão hidroviária. A restrição prolongada da atividade pesqueira, segundo o documento, tende a fragilizar esses modos de vida tradicionais e reduzir a capacidade dessas populações de se organizar e se posicionar frente às transformações estruturais em curso na região.

Com base nas evidências reunidas, a nota técnica recomenda que uma política pública eficaz para o ordenamento pesqueiro em Mato Grosso seja orientada por dados científicos atualizados e alinhados à realidade local, priorize o enfrentamento dos principais estressores ambientais, como barramentos, desmatamento e poluição, reconheça e proteja a pesca artesanal como patrimônio socioambiental e assegure tanto o monitoramento contínuo dos estoques quanto a participação ativa das comunidades ribeirinhas na gestão dos recursos.

*Com informações do WWF-Brasil

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