Em tempos de Páscoa, os coelhos se multiplicam em vitrines e redes sociais. O que talvez muita gente não sabe é que o Brasil tem sua própria e exclusiva espécie do mamífero orelhudo, símbolo de fofura e chocolate, o tapiti.
A espécie é nativa da Mata Atlântica nordestina e é tão brazuca que leva o país no nome (o científico): Sylvilagus brasiliensis. Sua ocorrência está concentrada ao norte do rio São Francisco, nos estados de Alagoas, Pernambuco, Sergipe – região conhecida como Centro de Endemismo Pernambuco pela sua rica e única biodiversidade, e uma das regiões proporcionalmente mais desmatadas da Mata Atlântica. A espécie, também chamada de coelho-do-mato, ocorre ainda mais ao sul, numa porção limitada da Bahia.
Descrita pelo pai da taxonomia, Carolus Linnaeus, em 1758, a espécie foi designada como nativa da América do Sul. Décadas, séculos e muitos estudos científicos depois, os pesquisadores começaram a entender a verdadeira diversidade de coelhos sul-americanos. Apenas no Brasil há outras duas espécies, o Sylvilagus minensis, que ocorre amplamente no país e no continente; e o Sylvilagus tapetillus, esse também exclusivamente brasileiro, porém restrito ao estado do Rio de Janeiro. E até hoje há discussões sobre a possibilidade de existirem mais espécies de coelhos ainda não identificadas geneticamente.
Uma grande peculiaridade do nosso tapiti “original” (Sylvilagus brasiliensis) está nos três pares de mamas, diferente dos outros coelhos americanos.
Com 20 a 40 centímetros de comprimento, ele pesa até 1,2 kg e as fêmeas são maiores. Sua cauda é tão curta que é quase imperceptível. E seus pelos de tom marrom-amarelado ajudam o animal a se camuflar em meio à vegetação, em especial nas bordas de mata e de rios, onde se alimenta de folhas, talos, raízes, frutos e sementes.
Noturno e discreto, o tapiti possui hábitos solitários e é vítima comum de caçadores e cachorros domésticos. A captura ilegal é uma das maiores ameaças à espécie, agravada pelo desmatamento.
“A perda de habitat por desmatamento e assentamento humano representa uma ameaça para esta espécie, já que 94,4% da cobertura florestal na faixa geográfica dessa espécie foi perdida”, pontua o ICMBio em trecho da ficha de avaliação da espécie publicada na plataforma pública SALVE.
Ainda que pertença à carismática classe da “fofofauna” (vulgo animais fofos que atraem maior atenção das pessoas), o tapiti ainda é relativamente pouco estudado no país e muitas questões centrais como a real distribuição da espécie, seguem sem resposta. O próprio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) admite que não há informações suficientes sobre o coelho para avaliar seu risco de extinção, por exemplo, mas alerta que sua população está em declínio.
“A única tentativa recente de medir o tamanho da população do tapiti determinou que sua densidade era tão baixa que as taxas de avistamento caíram abaixo de um nível detectável, porém as chances de serem detectados aumenta à medida que o tamanho dos fragmentos são maiores”, informa a ficha de avaliação do ICMBio.
Na Lista Vermelha da União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), porém, o coelho brasileiro já é considerado como Em Perigo de extinção devido à grande perda de cobertura florestal e fragmentação do habitat, com a maioria dos remanescentes menores que 10 hectares.
Tapiti vs. Lebrão
Importante não confundir o tapiti, nosso coelho brasileiro, com o lebrão (Lepus europaeus), espécie europeia que foi introduzida no país há 140 anos. Diferente do tapiti, que vive em ambientes florestais, a lebre-europeia evoluiu em ecossistemas campestres, o que fez com que ela se adaptasse rapidamente aos campos do Pampa, no sul do Brasil e no Uruguai, onde virou o terror de agricultores com seu apetite pelas mais variadas lavouras. O avanço do lebrão no país representa ainda uma potencial ameaça aos coelhos nativos do país, mais vulneráveis ao desmatamento.
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