Notícias

Jabuti das termelétricas na MP da Eletrobras aumentará em 32% emissões do setor

Nota técnica aponta que estímulo às termelétricas prevista na MP transformada em lei representará um aumento de 32,7% nas emissões de todo setor elétrico no Brasil, em relação a 2019

Duda Menegassi ·
14 de julho de 2021 · 5 anos atrás

Sancionada pelo presidente Jair Bolsonaro nesta terça-feira (13), a Medida Provisória nº 1.031/2021, mais conhecida como MP da privatização da Eletrobras, traz mais em seu texto do que a transferência para a iniciativa privada do controle sobre a empresa de energia elétrica. Um dos principais “jabutis”, como são chamados os trechos sem relação com a proposta original inseridos durante a tramitação no Congresso, diz respeito à contratação de usinas termelétricas movidas a gás natural. Além de potencialmente encarecer o preço nas contas de luz dos consumidores, a medida também representará um aumento de mais de 32,7% em relação às emissões anuais de gases de efeito estufa de todo o setor elétrico registradas em 2019, conforme revela nota técnica elaborada pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente (Iema).

O texto da MP convertida em lei prevê a inserção de 8 GW em termelétricas a gás no Sistema Interligado Nacional (SIN) entre os anos de 2026 e 2030, através de usinas que irão operar em tempo integral com capacidade mínima de 70% por pelo menos quinze anos (até 2040), o que representará um acréscimo de 17,5 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (MtCO₂e) por ano, um aumento de 32,7% em relação às emissões totais do setor elétrico em 2019, e um crescimento de 60% em relação às emissões do parque de termelétricas a gás natural no mesmo ano.

Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Quer receber nossa newsletter?

Fique por dentro do que está acontecendo!



Já as emissões acumuladas referentes aos 15 anos de operação dessa capacidade instalada (2026 a 2040) totalizariam 260,3 MtCO₂e, valor maior do que todas as emissões do setor de transportes em 2019.

A nota publicada pelo Iema ressalta que a exigência de contratação de termelétricas a gás natural pela modalidade de reserva de capacidade, como consta na MP, privilegia a matriz térmica em detrimento das fontes renováveis como eólica e solar e “se mostra conflitante com o cenário global de transição energética”.

“A instalação das térmicas está dividida nas regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste e prevê que parte dessa capacidade instalada seja alocada em estados que não contam com infraestrutura de abastecimento, como gasodutos. Além de representar custos adicionais em relação a outras opções energéticas menos custosas para o atendimento dos maiores centros de carga do país, o investimento em gasodutos está comprometido em uma fonte energética que tornará mais distante a necessária descarbonização da matriz elétrica brasileira. O mesmo pode se dizer das emissões diretas decorrentes da operação dessas usinas”, explica o texto do Iema.

Apesar da geração a gás natural ser considerada uma opção energética de descarbonização em substituição a óleo combustível, diesel e carvão, “a transição energética baseada no gás natural é prejudicial por ocupar recursos de infraestrutura e de demanda energética que poderiam ser direcionados para fontes renováveis”, alerta a nota, que questiona o caráter de obrigatoriedade da contratação de usinas termelétricas inflexíveis, ou seja, com produção em tempo integral.

Ainda de acordo com o texto, a contratação de térmicas inflexíveis não é o caminho mais adequado para reduzir o risco futuro de racionamento e “a receita para compensar períodos hidrológicos diversos, que tendem a ser mais frequentes por conta das mudanças climáticas, passa necessariamente pela diversificação da matriz elétrica aumentando a participação de energias renováveis flexíveis”.

“Os impactos referentes às emissões e à potencial restrição de operação de fontes renováveis foram intensificados, apontando um caminho ainda mais prejudicial ao meio ambiente e às contas de luz de todos os consumidores”, analisa Ricardo Baitelo, coordenador de projetos do Iema.

  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação, montanhismo e divulgação científica.

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Reportagens
29 de junho de 2021

Como a privatização da Eletrobras irá afetar o meio ambiente?

((o))eco consultou especialistas sobre os principais problemas decorrentes da aprovação da Medida Provisória 1.031/2021, que trata da privatização da Eletrobras

Reportagens
9 de julho de 2021

MP da gestão hidroenergética sem gestão hídrica

((o))eco consultou duas especialistas em políticas públicas sobre as consequências da aprovação da MP 1.055/21, que trata das medidas emergenciais para o enfrentamento da crise hídrica no país

Colunas
14 de dezembro de 2015

Paraíba do Sul: mais água para consumo humano, porém nada de tratar o esgoto

Disputa entre estados termina com manutenção de vazão defendida pelo Rio, menos água para hidroelétricas e nenhuma preocupação com tratamento.

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Comentários 1

  1. Girlene diz:

    Então a desculpa de sádicos ricos, que caçam animais inocentes que depois servirão de trofeus em suas casa, é que amam a natureza? Que tolice! E ainda receber destaque em um ” Jornal Ambiental”. O que o dinheiro não faz heim?