Em Manaus, enquanto a chuva transforma ruas em “cachoeiras” nos bairros periféricos da Zona Norte, governos e empresas defendem a chamada “transição energética” como resposta à crise climática. Do outro lado desse debate, movimentos sociais, pesquisadores e organizações da sociedade civil alertam para uma pergunta que continua sem resposta: quem realmente participa das tomadas de decisões e quem segue sendo deixado de fora delas.
Para especialistas que atuam na pauta climática e de direitos humanos, a crise ambiental não pode ser discutida separadamente das desigualdades históricas do Brasil. Em territórios periféricos, indígenas, quilombolas e tradicionais, os impactos das mudanças climáticas se somam à falta de saneamento básico, moradia, transporte, saúde e infraestrutura urbana.
A jornalista, pesquisadora e mestranda em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais na Universidade de Brasília (UnB), Mariana Belmont, que atua na agenda de direitos socioambientais, raça e clima, afirma que o conceito de racismo ambiental ajuda a entender como essas desigualdades se aprofundam. Segundo ela, determinados territórios passam a ser tratados como “zonas de sacrifício”, locais onde a população convive com poluição, ausência de direitos e remoções forçadas sem participação efetiva nas decisões.
“Esses territórios negros, indígenas e periféricos não têm os mesmos direitos que territórios embranquecidos têm nas cidades”, afirma.
Para a pesquisadora, embora o conceito de justiça climática tenha ganhado força nos debates internacionais, ele ainda precisa ser aprofundado no Brasil para incorporar de forma mais clara as discussões sobre raça, território e desigualdade social. A pauta climática, de acordo com ela, deve ser entendida também como uma pauta de direitos humanos.
“Não existe justiça climática sem justiça racial, social e econômica”, defende.
Essa desigualdade também aparece na forma como o Estado produz, ou deixa de produzir, informações sobre os grupos mais afetados pela crise climática. A ausência de dados oficiais sobre raça, gênero e território dentro da agenda ambiental é apontada por ela como um dos principais obstáculos para a construção de políticas públicas mais justas e eficientes.
Segundo Mariana, organizações da sociedade civil vêm pressionando órgãos como o Instituto de Pesquisas Ecológicas (Ipea) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para que a produção de políticas públicas inclua dados desagregados capazes de mostrar quem está mais exposto aos riscos ambientais e quem tem menos acesso à proteção e adaptação climática.
A avaliação é de que a população negra, indígena e periférica sofre impactos mais severos justamente por ter sido historicamente excluída do acesso a direitos básicos.
“Raça, classe, território e gênero definem quem está mais exposto aos riscos ambientais e quem possui mais acesso à proteção”, explica.
Ela também questiona a forma como projetos considerados “verdes” são implementados em diferentes regiões do país. Para movimentos sociais, empreendimentos ligados à energia renovável, como parques eólicos e hidrelétricas, ainda reproduzem violações em territórios vulnerabilizados.
“A gente não pode achar normal populações adoecendo com impactos de eólicas ou sendo removidas por hidrelétricas enquanto isso é chamado de energia limpa”, afirma.
Um dos exemplos citados por movimentos socioambientais e que trava uma batalha judicial por sua operação é a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, que completa dez anos em 2026. Inaugurada apesar de protestos e alertas sobre impactos ambientais e sociais, a história do empreendimento localizado no meio das águas do rio Xingu é marcada por denúncias de deslocamento forçado de comunidades tradicionais, perda de territórios indígenas, mudanças no curso do rio e impactos ambientais que seguem sendo denunciados até hoje.
A coordenadora da FASE Amazônia, Sara Pereira, avalia que a discussão sobre transição energética ainda acontece de maneira distante das populações diretamente afetadas pelos impactos ambientais e econômicos desses projetos.
“Quando a gente fala de transição energética, parece uma discussão muito técnica, muito distante da vida real. Mas ela impacta diretamente quem mora nas periferias, nos territórios indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, afirma.
Segundo ela, existe uma dificuldade histórica de incluir as populações amazônicas nos espaços de decisão sobre clima e desenvolvimento.
“As decisões continuam sendo tomadas sem ouvir quem vive no território. Muitas vezes as pessoas só descobrem os impactos quando o projeto já chegou”, diz.

A Amazônia periférica que não aparece
Em Manaus, a juventude periférica também tenta construir seus próprios espaços de discussão sobre clima, território e direitos sociais. Criado em 2023 por jovens da Zona Norte da capital, o Movimento Nepal Vive surgiu a partir da fotografia, da cultura hip hop e de ações comunitárias realizadas no bairro Nova Cidade.
Mais do que promover eventos culturais, o coletivo passou a atuar como espaço de pertencimento e formação política para crianças e adolescentes da periferia amazônica.
“Toda esquina tem um artista, mas esses artistas já nascem mortos quando a gente cresce achando que não pertence a esses espaços”, afirma Dighetto, fotógrafo e um dos fundadores do movimento.
Através de batalhas de rima, cinema comunitário, grafite, oficinas e ações solidárias, o Nepal Vive se consolidou como um espaço de mobilização cultural e social no Nova Cidade. Segundo Dighetto, o objetivo do coletivo vai além da arte.
“A gente quer que eles aprendam senso de comunidade, pertencimento e cuidado com o próximo. Isso também é transformação social”, diz.
Ao falar sobre crise climática e desigualdade, Dighetto destaca que a juventude periférica da Amazônia também sofre os impactos da chamada transição energética, mesmo sendo pouco incluída nos debates.
“A Amazônia sempre aparece como floresta, como natureza, mas quase nunca mostram quem mora aqui. Existe uma Amazônia urbana, periférica, com problemas sociais, enchentes, falta de arborização e falta de oportunidade”, afirma.

Durante as fortes chuvas na Zona Norte de Manaus, a água desce pelas ruas “como cachoeira”, conta Dighetto. Sem drenagem adequada, moradores convivem com alagamentos, goteiras e lixo acumulado nos igarapés, problemas que, para ele, também fazem parte da crise climática.
“As pessoas não falam em mudança climática. Elas falam que vai chover muito, que vai estar muito quente”, diz. Para Dighetto, educação ambiental deveria ser prioridade nas escolas e nos bairros periféricos da capital amazonense. “Pelo menos uma vez por semana, educação climática e educação ambiental já seria ótimo dentro das escolas”, defende.
Sara Pereira afirma que tornar o debate climático acessível é um dos maiores desafios atuais da pauta ambiental no Brasil. A linguagem técnica e robusta, segundo ela, exclui e, muitas das vezes, as pessoas já vivem os efeitos da crise climática, mas o debate chega cheio de termos técnicos que afastam quem deveria participar.
Para Dighetto, discutir o futuro climático sem ouvir as periferias amazônicas reforça desigualdades históricas. “Tem gente falando sobre salvar a Amazônia sem conhecer a realidade de quem vive nela. A juventude daqui quer participar dessas discussões, mas muitas vezes não tem acesso, nem oportunidade de ocupar esses espaços”, afirma.
Enquanto debates sobre transição energética ocorrem em salas climatizadas de conferências internacionais e documentos técnicos, em Manaus muitos jovens entram cedo no chão das fábricas do Distrito Industrial sem nunca terem discutido sustentabilidade, saúde ocupacional ou crise climática dentro da escola ou mesmo no local de trabalho.
Juventude periférica e trabalho de risco
A discussão sobre transição energética também esbarra na realidade de milhares de trabalhadores da Amazônia inseridos em empregos precarizados e expostos a riscos ambientais e industriais.
Aos 21 anos, o fotógrafo e também fundador do Movimento Nepal Vive, Laranjinha, trabalha no Distrito Industrial de Manaus e participa de ações sociais em sua comunidade. Ele afirma que muitos jovens começam a trabalhar cedo no Distrito Industrial, local onde se concentra a maior parte das indústrias no Amazonas, convivendo diariamente com riscos físicos, poluição e jornadas desgastantes, mas sem acesso a debates sobre direitos trabalhistas, meio ambiente ou qualidade de vida.
“A galera quer saber de produzir. São poucas as empresas que trabalham de maneira sustentável hoje em dia”, afirma.
Laranjinha afirma que a juventude periférica acaba naturalizando condições de trabalho desgastantes e perigosas por falta de alternativas econômicas e acesso à informação. “A gente só vai ter consciência disso depois de velho, quando começa a buscar entender essas coisas”, diz.
Para Laranjinha, a ausência de debates acessíveis sobre clima e trabalho sustentável dificulta que jovens imaginem outros caminhos profissionais. No entanto, mesmo diante das dificuldades, ele vê nos coletivos culturais e sociais um espaço de transformação. Ao lado de outros moradores, ele participa de atividades comunitárias que incentivam leitura, debates ambientais, oficinas culturais e ações educativas voltadas às crianças e adolescentes do bairro.

“Acho que tudo começa pela conscientização. Se tu não entende o problema, tu nem começa a mudar”, afirma.
Para Sara Pereira, esse cenário revela como a discussão climática precisa considerar também o modelo econômico e as condições de trabalho impostas à juventude amazônica.
“Não dá para discutir futuro sustentável sem discutir emprego, renda e saúde dos trabalhadores. A juventude periférica muitas vezes entra em trabalhos de risco porque não teve acesso a outras oportunidades”, afirma.
Não existe conservar sem as comunidades tradicionais
O envolvimento da pesquisadora Mariana Belmont com o tema começou a partir do trabalho com comunidades indígenas, quilombolas e tradicionais. Segundo ela, ainda existe uma separação “violenta” entre a agenda ambiental e a vida das populações que historicamente preservam os territórios.
Ela cita dados que mostram que áreas mais preservadas do país coincidem com territórios ocupados por povos indígenas e comunidades tradicionais. Ainda assim, essas populações seguem pressionadas por remoções e pela expansão urbana.
Nascida em Parelheiros, no extremo sul de São Paulo, Mariana relata ter acompanhado de perto disputas territoriais em uma região marcada pela presença de Mata Atlântica, agricultura orgânica, territórios indígenas e comunidades periféricas.
“Não dá para falar de clima sem falar de pessoas”, diz. Para ela, a responsabilização pelos impactos ambientais muitas vezes recai sobre populações vulneráveis, enquanto os principais agentes de devastação seguem ligados a grandes interesses econômicos e ao uso de combustíveis fósseis.
Entre os avanços recentes apontados pela pesquisadora está a inclusão do termo “afrodescendentes” em documentos ligados às negociações climáticas internacionais. A menção ocorreu durante a COP30 e foi considerada histórica por organizações que acompanham o tema.
Segundo ela, a inclusão aconteceu em documentos relacionados à adaptação climática, ao plano de gênero e também à transição justa, ponto considerado estratégico por abrir espaço para discussões sobre direitos humanos dentro do sistema climático internacional.
Outro destaque foi a declaração sobre racismo ambiental lançada pelo governo brasileiro, considerada importante para dar visibilidade internacional ao tema.
Apesar disso, Mariana avalia que as negociações globais ainda avançam lentamente quando o assunto é combustíveis fósseis e participação social.
Sara Pereira também avalia que eventos internacionais ainda possuem limites quando o assunto é participação popular efetiva. “Muitas vezes a sociedade civil participa da discussão, mas não da tomada de decisão. Existe uma diferença muito grande entre ser ouvido e realmente influenciar as políticas”, afirma.
O que falta para o Brasil avançar
Apesar da maior mobilização social em torno da pauta, Mariana acredita que o Brasil ainda possui poucos avanços concretos em políticas públicas e legislações voltadas para uma transição energética justa.
Ela cita como exemplo projetos que flexibilizam licenciamentos ambientais e ameaçam populações indígenas e quilombolas, como a Lei nº 2.159/2021, batizada de Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Para a pesquisadora, muitas decisões seguem sendo tomadas sem consulta efetiva às comunidades impactadas.
“O ideal é que as políticas públicas sejam construídas junto com os territórios”, afirma.
Na avaliação dela, não existe uma solução única capaz de atender todas as regiões do país, especialmente na Amazônia, onde as realidades sociais e ambientais são diversas.
“A gente não pode criar estratégias da cabeça de governos que muitas vezes não sabem o que essas populações vivem nos territórios”, conclui.
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