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Saúde na Amazônia precisa ser redesenhada diante da crise climática, defendem pesquisadores

SUS na Amazônia precisa se adaptar às mudanças climáticas, incorporando saberes tradicionais, indicadores locais e estratégias de cuidado ajustadas ao território, apoiam

Karina Pinheiro ·
15 de janeiro de 2026

Os sistemas de saúde que operam na Amazônia brasileira não estão preparados para enfrentar os impactos combinados das mudanças climáticas, da degradação ambiental e das desigualdades históricas que marcam a região. A constatação é de um grupo de pesquisadores brasileiros em artigo publicado no British Medical Journal (BMJ), que defende a necessidade de reconstruir o modelo de atenção à saúde a partir dos conhecimentos locais, das necessidades das comunidades e das especificidades territoriais amazônicas.

Segundo os autores, políticas públicas trataram historicamente a Amazônia como um espaço vazio e um reservatório de recursos naturais voltado à exploração econômica. Essa visão orientou projetos de desenvolvimento que provocaram profundas transformações socioambientais, romperam relações ancestrais entre povos e natureza e produziram impactos duradouros sobre a saúde física e mental de populações indígenas e tradicionais. O resultado foi a perda de biodiversidade, a erosão da sociodiversidade e o enfraquecimento de modos de vida baseados no chamado bem viver.

“Integrar os sistemas de conhecimento na Amazônia exige mais do que diálogo; exige uma mudança radical na governança, que desvincule a saúde de um foco antropocêntrico exclusivamente ocidental e promova um modelo de cuidado multiespécie, que vá além do humano, fundamentado na justiça ecológica e nas cosmovisões indígenas”, destacou trecho do estudo.

No artigo, os pesquisadores ressaltam que povos indígenas da Amazônia concebem saúde e doença de forma integrada, considerando dimensões sociais, ambientais e espirituais. Doenças infecciosas, como malária e covid-19, são compreendidas não apenas como fenômenos biológicos, mas como sinais de desequilíbrios provocados pela destruição ambiental e pela ruptura de territórios sagrados. Essa leitura dialoga com abordagens contemporâneas da saúde global que reconhecem a interdependência entre humanos, outros seres vivos e os ecossistemas.

A intensificação do desmatamento, a perda de biodiversidade e os efeitos das mudanças climáticas têm contribuído para o surgimento e a reemergência de doenças infecciosas na Amazônia, além de ampliar a insegurança alimentar. A redução da fauna, a instabilidade dos ciclos de cultivo e a destruição de áreas culturalmente relevantes afetam diretamente a qualidade de vida das comunidades e ampliam quadros de adoecimento físico e emocional. Para os autores, esses impactos locais também representam uma perda global de conhecimentos ancestrais fundamentais para enfrentar a crise climática.

Apesar desse cenário, o artigo aponta que o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda responde de forma insuficiente às transformações impostas pela emergência climática na região. Persistem altos índices de doenças evitáveis, ao mesmo tempo em que surgem novos problemas, como a ansiedade climática, intensificada por eventos extremos. As secas severas de 2023 e 2024, consideradas as mais intensas da história recente, aprofundaram o isolamento de comunidades, agravaram a insegurança alimentar e expuseram a fragilidade da infraestrutura de saúde.

Na Amazônia, o acesso à saúde é condicionado pela dinâmica dos rios, principais vias de deslocamento na região. Durante períodos de estiagem extrema, embarcações deixam de circular, interrompendo o transporte de equipes, medicamentos e alimentos. Para os pesquisadores, compreender a Amazônia como um “território fluido” é central para repensar políticas de saúde, já que o tempo de deslocamento, e não a distância, define o acesso aos serviços.

O artigo destaca que comunidades amazônicas desenvolveram estratégias próprias de adaptação às variações climáticas, baseadas em observação ecológica, uso de calendários sazonais e práticas produtivas flexíveis, como a alternância entre agricultura, pesca e coleta. Essas formas de organização expressam uma resiliência climática que poderia orientar políticas públicas mais sensíveis ao território.

Reestruturar os sistemas de saúde na Amazônia, defendem os autores, exige integrar saberes tradicionais, científicos e institucionais. Entre as propostas estão a vigilância em saúde baseada na comunidade, fundamentada em epistemologias indígenas, e a valorização dos conhecimentos tradicionais sobre alimentação como forma de enfrentar a expansão dos alimentos ultraprocessados. O texto cita o trabalho das parteiras tradicionais como exemplo de articulação entre práticas biomédicas e ancestrais já incorporadas, em alguns territórios, ao sistema público de saúde.

Com a realização da COP30 na Amazônia, em novembro de 2025, e a elaboração de um plano nacional de saúde e clima pelo Ministério da Saúde, o artigo aponta que o país vive um momento decisivo. Para os autores, adaptar o SUS às realidades amazônicas é condição essencial para enfrentar a crise climática, reduzir desigualdades e garantir o direito à saúde em um dos territórios mais afetados pelas transformações ambientais globais.

  • Karina Pinheiro

    Jornalista formada pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), possui interesse na área científica e ambiental, com experiência na área há mais de 2 anos.

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