A tragédia provocada pelas chuvas na Zona da Mata mineira não ocorre em um território desconhecido pelos mapas de risco. Em Minas Gerais, 218 municípios já tiveram áreas vulneráveis mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), que identificou cerca de 3,5 mil setores classificados como de risco alto ou muito alto, onde vivem mais de 583 mil pessoas. Em meio a alertas técnicos e histórico de ocupação em encostas e margens de rios, os temporais que começaram na segunda-feira (23) revelam a sobreposição entre fragilidade geológica, expansão urbana desordenada e políticas de prevenção que não acompanharam a dimensão da ameaça climática.
Nas últimas 72 horas, as fortes chuvas deixaram pelo menos 55 mortos e 13 desaparecidos, segundo atualização do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais divulgada nesta quinta-feira (26). A maior parte das vítimas está em Juiz de Fora, principal cidade afetada, onde a tempestade bateu os registros históricos de precipitação para um mês de fevereiro e desencadeou inundações e deslizamentos de terra. As equipes de resgate continuam as buscas em meio a um cenário de destruição e centenas de desabrigados.
Dados técnicos e mapeamentos de risco indicam que a tragédia era previsível. Juiz de Fora aparece como a 9ª cidade brasileira com maior número absoluto de moradores vivendo em áreas de risco, com cerca de 128 mil pessoas expostas a riscos geo-hidrológicos, como deslizamentos, enchentes e movimentos de massa, segundo levantamento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
Esse montante representa quase um quarto da população municipal, um indicador crítico de vulnerabilidade urbana e de ocupação informal em encostas e leitos de drenagem natural. Mapas de setorização de risco disponíveis em repositórios técnicos (como o RIGEO do Serviço Geológico do Brasil) reforçam que grandes áreas da cidade historicamente estão sujeitas a processos de instabilidade do solo e inundações, sobretudo durante eventos extremos de chuva.

Além da vulnerabilidade já conhecida em cidades como Juiz de Fora, o próprio Serviço Geológico do Brasil (SGB) aponta que o risco se espalha por grande parte do território mineiro. Segundo o órgão, 218 municípios de Minas Gerais já tiveram áreas de risco mapeadas, em um esforço voltado a subsidiar prefeituras e defesas civis na prevenção de desastres associados a chuvas intensas, deslizamentos e inundações. No recorte nacional, esse trabalho alcança mais de 1,8 mil cidades, revelando a dimensão estrutural do problema.
De acordo com o SGB, os episódios recentes na Zona da Mata estão ligados à saturação do solo provocada por chuvas torrenciais, condição que favorece processos como deslizamentos, corridas de detritos e transbordamentos de rios. “Muitas das áreas afetadas recentemente já foram mapeadas pelo SGB”, afirma o geólogo Diogo Rodrigues, chefe do Departamento de Gestão Territorial do órgão. Ele destaca que os estudos estão disponíveis ao poder público e à população e recomenda que gestores municipais utilizem esses produtos para identificar setores críticos antes que novas tragédias ocorram.
Os dados consolidados pelo SGB mostram que, nos municípios já analisados em Minas Gerais, foram identificadas cerca de 3,5 mil áreas de risco, sendo 767 classificadas como de risco muito alto e aproximadamente 2,7 mil como risco alto. A maior parte está associada a deslizamentos de encostas, um tipo de evento recorrente em áreas urbanizadas de relevo acidentado. Segundo o levantamento, mais de 583 mil pessoas vivem atualmente em áreas de risco no estado.
Juiz de Fora aparece entre os municípios com maior número de setores críticos mapeados, ao lado de cidades como Ouro Preto, Betim, Ibirité e Ipatinga. Em 2024, o SGB realizou novos estudos no município, incluindo a elaboração de uma Carta Geotécnica de Aptidão à Urbanização, instrumento que orienta onde e como a cidade pode crescer com menor risco.

Cortes e descuidos em um ponto crítico
Um dado fiscal chamou a atenção durante esta tragédia. Segundo levantamento realizado pelo jornal O Globo, entre 2023 e 2025, a verba do governo de Minas Gerais para ações de prevenção e resposta aos impactos de chuvas caiu cerca de 96%. O orçamento passou de aproximadamente R$135 milhões para apenas cerca de R$6 milhões nesse período. Os dados foram obtidos através de dados do Portal de Transparência do estado.
Os valores pagos caíram de aproximadamente R$134,8 milhões em 2023 para R$41,1 milhões em 2024 e chegaram a apenas R$5,8 milhões em 2025.
A análise revela ainda que, em 2025, quase todo o valor executado foi direcionado à recuperação de estradas, restando recursos praticamente residuais para ações estruturais de prevenção urbana, contenção de encostas, drenagem ou reassentamento de famílias em áreas críticas. Ou seja, o pouco que foi gasto teve caráter majoritariamente reativo, não preventivo.
A redução ocorreu justamente em um período em que alertas meteorológicos e científicos destacavam a necessidade de reforço em sistemas de monitoramento, drenagem urbana e infraestrutura de contenção, especialmente em regiões já identificadas como vulneráveis. Com menos recursos, municípios ficam com menor margem para investir em obras preventivas, sistemas de drenagem e compra de equipamentos para a Defesa Civil.

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