Eu estava no palco, depois da exibição de um curta-documentário que ajudei a construir desde a escrita e captação de recursos e imagens até a direção e o lançamento. Luzes acesas, microfone aberto, perguntas da plateia. Um influencer levantou a mão.
“Nossa, eu estou impressionado com o documentário. A Karla… toda carismática. Nem parece ativista. Nem parece que faz isso tudo”.
Sorri, como quem já entendeu que existem imagens pré-definidas para quase tudo. Mas a frase ficou. Dias, semanas depois, um ano se passou e ela ainda ecoava: afinal, como se parece uma ativista?
Não sei se existe uma resposta única. Mas comecei a pensar nos signos que moldam nosso imaginário. Muitas vezes, nosso contato com o mundo não vem da experiência direta, mas das representações em imagens, narrativas, estereótipos. Lembrei de Sobre Fotografia, de Susan Sontag, quando ela questiona o que vemos e como vemos, diante de imagens de dor e conflito.
A pergunta que atravessa sua obra “Diante da dor dos outros” continua atual: existe uma linguagem universal para o que vemos?
Provavelmente não. O olhar também é treinado pelas experiências (e pelos limites delas). Em uma sociedade que se acostumou a espetacularizar o sofrimento, talvez também tenha se acostumado a enquadrar quem luta contra ele.
Segundo o dicionário de Cambridge, ativista é “defensor de uma causa”. Alguém em movimento. Em luta. No meu caso, pela proteção de crianças, adolescentes e juventudes diante da crise climática. Porque um território seguro para crianças em situação de vulnerabilidade é, necessariamente, um território seguro para todos. Mas ainda assim, essa definição não dava conta da pergunta.
Então pensei nas minhas referências. Uma delas é Erika Hilton. Erika quebra expectativas. É uma mulher que ocupa a política com inteligência, firmeza e presença – mas também com beleza e alegria! No carnaval, ela dança. Nas redes, ela sorri. Na vida, ela vive. E talvez seja exatamente isso que incomode certos imaginários: a ideia de que quem luta também pode celebrar.
Porque existe uma expectativa silenciosa de que ativistas carregam sempre o peso do mundo nos ombros. Como se a legitimidade da luta estivesse na dor permanente, nas cicatrizes expostas sobre a pele, nos olhares amargurados desenhados pelo cansaço do fronte.
Mas a verdade é outra: não se luta apenas contra algo, luta-se por algo. E, muitas vezes, esse algo é a própria possibilidade de viver bem. E assim, eu rezo todos os dias para que eu não caia na desesperança. Esse sentimento que paralisa, que naturaliza o absurdo, que transforma a desigualdade em paisagem e nos impede de viver.
Há anos venho construindo, junto com outras pessoas, caminhos para que jovens amazônidas, como eu, possam acessar oportunidades, gerar renda e simplesmente viver com dignidade. Dormir com a certeza de que haverá comida no dia seguinte. Sair com amigos e tomar sua cervejinha sem medo de atrapalhar o pagamento da conta de luz. Voltar para casa em segurança, podendo voltar de transporte público ou aplicativo de mobilidade. Porque isso também é política.
E urgente: na Amazônia Legal, apenas 71% dos jovens entre 25 e 29 anos estão inseridos no mercado de trabalho, contra 82% no restante do país. Ou seja, na Amazônia Legal, quase 3 em cada 10 jovens entre 25 e 29 anos estão fora do mercado de trabalho, um índice significativamente maior do que no restante do Brasil, onde menos de 2 em cada 10 estão nessa situação. Isso significa que, para cada 100 jovens amazônidas nessa faixa etária, apenas 71 conseguem se inserir no mercado, contra 82 no restante do país. Uma diferença de 11 pontos percentuais que evidencia a desigualdade regional no acesso às oportunidades.
Os dados que produzimos no Instituto COJOVEM mostram ainda mais: 8 em cada 10 jovens amazônidas vivem em contextos de conflitos territoriais, muitas vezes ligados à mineração ilegal, disputas por terra e grandes obras. E há também o impacto invisível, ou pouco falado, da crise climática na saúde mental: 82% dos jovens expressam alta preocupação ambiental, e 37,78% relatam ansiedade frequente relacionada às mudanças climáticas. E esse cenário perpassa não apenas territórios, mas uma diversidade de corpos jovens que estão sem emprego e vivendo um cenário de degradação territorial onde sua voz parece nunca ser ouvida e sua vez parece nunca chegar já que quem decide o nosso futuro, geralmente, são homens mais velhos que não necessariamente estão preocupados com o cenário que crianças e jovens da Amazônia vão enfrentar quando esses senhores tiverem morrido.
Diante disso, talvez a pergunta precise ser invertida.
Não é “como se parece uma ativista?”
Mas por que ainda esperamos que ativistas tenham uma aparência específica?
Porque, no fundo, essa expectativa revela algo maior: uma tentativa de enquadrar e, portanto, limitar, quem pode ocupar o lugar de transformação. E cá pra nós: precisamos de todos os corpos, mentes e corações engajados na luta pela possibilidade de um amanhã mais justo para nós, seres humanos e não humanos vivendo os desafios do que talvez seja a maior crise planetária que a humanidade já viu.
Uma ativista pode estar no palco, na rua, na política, nas festas. Pode usar salto, tênis, roupa curtinha ou fantasia de carnaval. Pode rir, dançar, amar. Pode ter depressão e ansiedade também. Pode, inclusive, ser confundida com qualquer outra coisa – menos com aquilo que esperam que ela seja. Afinal, esse papo de ser a expectativa dos outros é tão papo de gente tóxica do século 20.
E talvez seja exatamente aí que mora a nossa potência: em escolher ser aquilo que o sistema não espera que a gente seja.
Ser ativista é uma escolha cotidiana de não aceitar o mundo como ele está e de agir para transformá-lo.
E do jeito que anda o mundo… Todos nós deveríamos ser ativistas.
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