Do alto do sambaqui Garopaba do Sul, em uma altura de quase 30 metros, é possível contemplar a imensidão do mar e as paisagens de Jaguaruna, no litoral sul de Santa Catarina. Mas é sob nossos pés que se concentra uma das maiores riquezas patrimoniais da região: um sítio arqueológico construído há 4.380 anos e que ajuda a contar a história dos nossos antepassados.
Presentes em quase todo o litoral brasileiro, os sambaquis são particularmente numerosos em Santa Catarina e impressionam pelo tamanho – alguns chegaram a atingir, originalmente, 70 metros de altura e 500 metros de comprimento. As maiores formações conhecidas no estado se situam em Jaguaruna e Laguna, cidades que abrigam ao menos 100 sambaquis, segundo pesquisas recentes.
O nome “sambaqui” se origina da língua Tupi e significa “monte de conchas”. De longe, parecem grandes amontoados de areia com vegetação rasteira formando uma faixa protetora; por dentro, são constituídos por camadas de conchas e ossos e outros materiais arranjados de forma intencional por sociedades pré-coloniais, um processo sucessivo que levava até mil anos.
Resistindo ao vento forte enquanto caminhamos pelo Garopabão (apelido dado ao Garopaba do Sul pelo seu tamanho – é o maior sambaqui do Brasil), o professor Geovan Martins Guimarães explica que os sambaquis são construções complexas, usadas pelos grupos que viveram na região como espaços ritualísticos. Ele faz uma comparação que ajuda a entender a importância desses monumentos.
“É muito próximo dos nossos cemitérios, onde reverenciamos os mortos que estão nesse local, fazemos oferendas… tem todo o mobiliário funerário depositado junto a esses indivíduos. Eles não estão ali de qualquer maneira, há uma intencionalidade. É isso que a gente percebe com a arqueologia, que são espaços intencionais”.

A atribuição dada por muito tempo aos sambaquis, de que seriam uma espécie de “lixão” de povos indígenas ou mesmo vestígios do dilúvio bíblico, denuncia o desconhecimento sobre esses sítios. Estudiosos como João Alfredo Rohr, Dione Bandeira, Paulo Deblasis, Deisi Scunderlick e Madu Gaspar contribuíram para situar corretamente o papel dos sambaquis na história do Brasil. Ainda assim, eles permanecem ignorados ou misteriosos para muita gente, incluindo suas comunidades vizinhas.
Coordenador do Grupo de Pesquisa em Educação Patrimonial e Arqueologia da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), Geovan defendeu, em sua tese de doutorado, o turismo arqueológico como ferramenta para a proteção e valorização dos sambaquis. Segundo ele, infelizmente esse patrimônio ainda não é reconhecido como deveria.
“Estamos falando de mais de 7 mil anos de história. Isso me deixa muito instigado, porque é a história do nosso território, uma história que começa muito antes de 1500 e que a gente precisa dar visibilidade”, ele argumenta.
Os povos sambaquieiros eram caçadores-coletores e desenvolveram ampla tecnologia para viver nesses ambientes. Contavam com uma indústria pesqueira organizada, criando, por exemplo, anzóis feitos com ossos. Pela ocupação em ilhas e pelo dimorfismo encontrado na parte superior dos esqueletos extraídos em escavações, sugere-se que eles nadavam ou remavam em embarcações que possivelmente fabricavam.
Potencial de turismo arqueológico desperdiçado

Do Garopaba Sul, avistamos outros sambaquis ao longe, como o Figueirinha I, em Jaguaruna, e os do Cabo de Santa Marta, em Laguna. No passado, os sambaquis atuavam também como marcadores de territórios entre os diferentes grupos sambaquieiros – como se houvesse uma comunicação espacial entre eles. Atualmente, a proximidade entre os sítios é uma oportunidade de desenvolver o turismo de forma integrada entre os municípios.
Em sua tese, Geovan aponta que Laguna, cidade que focou em sua pesquisa, não oferece um roteiro integrado de visitação aos sambaquis, apenas a divulgação de alguns sítios de forma isolada. Percorrendo as cidades vizinhas de Laguna, é fácil perceber o mesmo padrão, de que há um subaproveitamento dos monumentos como atrativo turístico.
Diante de tanto potencial, por que o litoral sul catarinense não se destaca pelo arqueoturismo, como acontece em outros lugares no mundo, a exemplo da América Central, Egito e Itália?
“Precisamos de mais recursos financeiros e humanos”, afirma Regina Helena Santiago, superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em Santa Catarina. “E precisamos ampliar a integração entre setores públicos, especialmente da área ambiental e do turismo”.


Ainda que as responsabilidades sejam compartilhadas entre as três esferas de poder, a equipe enxuta de apenas quatro arqueólogos na superintendência coloca pressão sobre os municípios catarinenses para que façam uma boa gestão dos sítios arqueológicos, desde a manutenção de equipamentos até a execução de projetos de educação patrimonial.
Sobre o turismo, Regina afirma que o Iphan dialoga com as prefeituras para que gestores locais entendam o potencial dos sítios, para além da obrigação legal que têm de preservá-los. Não é um trabalho simples, já que o primeiro desafio é fazer com que as pessoas reconheçam os sambaquis na paisagem. Campanhas de comunicação e educação, nesse sentido, são fundamentais.
Uma boa sinalização, por exemplo, ajudaria no engajamento de visitantes. No entanto, nossa reportagem registrou placas explicativas apagadas e até mesmo derrubadas, em péssimo estado de conservação. O cercamento em torno dos sambaquis também carece de manutenção. Quando visitamos o Garopaba do Sul, grande parte das cercas estava caída.
Entre 2020 e 2025, o Iphan em Santa Catarina destinou R$ 400 mil para cercamento e sinalização de sítios arqueológicos, incluindo contratações e destinação indireta de compensações em licenciamento ambiental. Segundo o órgão, ações de cercamento e sinalização no Garopaba do Sul estão em fase interna de preparação para licitação, ainda sem data para início.

As cercas derrubadas propositalmente evidenciam uma prática que configura, hoje, uma das maiores ameaças aos sambaquis da região: o motocross.
“Historicamente, os sítios foram depredados e destruídos por muito tempo por causa da indústria caieira, muito presente aqui. Mais recentemente, há tanto o avanço de ocupação sobre essas áreas, porque estão no litoral, quanto a utilização desses espaços como pista de motocross, que é uma coisa muito pesada”, explica Geovan.
Para ele, a educação patrimonial precisa andar junto ao desenvolvimento turístico. “É nesse ponto que temos que tocar: sensibilizar as pessoas para não vandalizar, respeitar o espaço de um grupo que estava ali sepultando seus mortos. Nós não vandalizaríamos um cemitério, então não deveríamos vandalizar um sambaqui”.
O desrespeito à legislação que protege os sítios arqueológicos é comum. Na cidade de Tubarão, o sambaqui Congonhas 1 chegou a ser usado como arquibancada para espectadores em dias de jogos de futebol no campo construído ao lado.

Mais antigos que as pirâmides do Egito
Para a arqueóloga e pesquisadora Deisi Scunderlick, um dos entraves para a valorização dos sambaquis é a ausência de identificação da população com os povos pré-coloniais.
“A gente perde muito em termos culturais, porque a sociedade não reconhece esses povos como povos ancestrais. Principalmente aqui em Santa Catarina, as pessoas se identificam com os povos europeus, e perdem a conexão com a ancestralidade, com os povos originários”, lamenta Deisi.
De fato, alguns dos sambaquis de Santa Catarina são mais antigos que as pirâmides do Egito, um dos marcos culturais mais famosos do mundo. A Grande Pirâmide de Gizé, por exemplo, foi construída por volta de 4500 anos atrás. Deisi enxerga os sambaquis catarinenses como as “nossas pirâmides”, relíquias de mais de 7 mil anos de história.
“Os sambaquis são a representação do Brasil muito antes da chegada dos europeus. Então tudo isso que a gente vê atualmente sendo destruído poderia ser aproveitado como é aproveitado lá fora, fazendo parte de um pacote turístico”.
No Brasil, ainda são poucos os patrimônios arqueológicos preparados para receber visitantes. O Parque Nacional da Serra da Capivara se destaca, com seus mais de 400 sítios que ganharam fama internacional, graças aos esforços de pessoas como a arqueóloga Niède Guidon.
Um dos ensinamentos que Niède deixou foi que o envolvimento da comunidade local é imprescindível. Em uma de suas últimas entrevistas, em 2022, para o projeto Mulheres da Conservação, a arqueóloga declarou: “Nós começamos a envolver as pessoas aqui, e elas entenderam a importância de tudo isso, porque criou trabalho. Aqui era uma região muito pobre. As pessoas viviam do que conseguiam plantar e caçar. Como caçavam bastante, depois entenderam que isso gerava trabalho e possibilidades de vida.”
Ainda que o contexto seja diferente, a expectativa de geração de emprego e renda é chave para o turismo arqueológico prosperar no litoral sul de Santa Catarina. Faltam estimativas da ordem de grandeza da receita que os sambaquis poderiam gerar para os municípios envolvidos, mas uma vantagem é certa: a visitação pode ser feita o ano inteiro, sem depender de temporada.
“Nós temos um modelo de turismo muito predatório na região, que causa sobrecarga durante as temporadas de verão, mas durante todo o inverno fica abandonado”, observa Geovan. Ele diz que nas áreas balneárias, justamente onde os sambaquis se concentram, a maior parte das casas está fechada e os empreendimentos hoteleiros nem sempre conseguem funcionar na baixa temporada.
Na avaliação de Deisi, quando a comunidade local começar a se beneficiar economicamente, a proteção vai aumentar. “Na hora em que as pessoas estiverem ganhando com os sambaquis do Farol de Santa Marta e no Garopaba do Sul, por exemplo, que são monumentais, elas não vão deixar o carinha de moto destruir o sítio, porque será fonte de renda delas”.

Referência para o Brasil e o mundo
Estruturar o turismo em torno dos sambaquis e outros sítios arqueológicos próximos, como as oficinas líticas na Ponta do Costão do Ilhote, em Laguna, exigirá esforço coletivo, envolvendo órgãos públicos, universidades e a população local. Será preciso ainda intensificar o trabalho junto às escolas da região, para que uma nova geração seja formada com outra perspectiva em relação a essas sociedades pré-coloniais.
Natural de Jaguaruna, Geovan não teve essa formação quando era estudante, na década de 1990. Tentando mudar essa realidade, atualmente o grupo de pesquisa que ele coordena desenha um plano de turismo arqueológico a ser construído de forma participativa com as comunidades locais, contemplando, entre outros aspectos, estudos de capacidade de carga para cada sítio.
Daqui a alguns anos, talvez seja possível que o modelo de turismo arqueológico em torno dos sambaquis do litoral sul catarinense, construído a muitas mãos, vire referência para o país e o mundo.
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