Nas corredeiras do Rio Xingu, na altura da Cachoeira do Espelho, existem micro-habitats especialmente únicos. Entre as rochas empilhadas pelo contínuo movimento do rio, moldam-se cenários com pequenas reentrâncias, cuidadosamente encaixadas na força contínua das corredeiras.
A correnteza arrasta, leva e entulha sedimentos, esculpe rochas milenares, oxigena violentamente a coluna d’água, ora rasa, ora profunda, criando ambientes onde a vida não é apenas difícil, mas torna-se altamente seletiva. Sobreviver ali exige morfologia especializada, fisiologia adaptada e comportamento preciso. É nesse cenário extremo que vivem os “Acaris”, como são chamados os cascudos por povos indígenas da região, peixes que conhecemos em aquários que pertencem à família Loricariidae. Entre eles está o Cascudo Pepita-de-Ouro, cientificamente identificado como Baryancistrus xanthellus, espécie endêmica do Xingu e exemplo notável de especialização reofílica construída ao longo de dezenas de milhões de anos de evolução. E, podemos dizer, portanto, que os cascudos são testemunhas do tempo.
O Rio e os Acaris formam uma paisagem única que, mesmo diante da imensidão do planeta, só podem ser vistas ali nas corredeiras do majestoso Xingu. Nosso Acari tem corpo revestido por placas ósseas dérmicas que funcionam como armadura natural. A forma achatada dorsoventralmente reduz o arrasto hidrodinâmico, permitindo que permaneça aderido ao substrato sob forte correnteza. A boca em ventosa, equipada com dentes raspadores, possibilita a alimentação a partir do perifíton – a fina camada de algas, bactérias e matéria orgânica incrustada nas rochas. As pintas amarelas intensas que salpicam o fundo escuro do corpo, lembrando pequenas pepitas de ouro, não são mero acaso estético: constituem uma sofisticada camuflagem disruptiva, que fragmenta a silhueta do animal diante do mosaico de luz e sombra produzido pelas águas claras e turbulentas.
Nesse ambiente de águas quentes e oxigenadas, onde a sobrevivência é desafiadora, cada detalhe anatômico representa uma solução evolutiva refinada esculpida no fluxo das águas como as rochas que formam sofisticadissimas esculturas cobrindo esse fino equilíbrio biológico e ecológico da vida que sustenta a própria vida em sua eterna autopoiese.
Entretanto, o destino do Pepita-de-Ouro foi selado como a marca da letra escarlate. Seu nome denuncia a trágica coincidência de seu destino. A ironia de ter ganho o nome de algo extremamente valioso nas engrenagens do nosso modo de vida, quando pode não valer nada justamente para quem procura a fonte da inspiração de seu nome, o ouro. O Acari Pepita-de-Ouro enfrenta hoje o maior desafio de toda a sua história evolutiva, com dezenas de milhões de anos. Desafio este causado pela direta intervenção humana, em expressão gráfica da ganância prevalente em nossa sociedade.

Nos últimos anos tem emergido o debate em torno da validade da ideia de que a ação humana interfere nos ciclos do sistema-terra. Nomeado como antropoceno, conceito cujas origens podem ser localizadas nos estudos da Geologia[1],[2], mas que em um mundo em crise climática extravasa para outros campos disciplinares, inclusive aqueles das ciências humanas e sociais.
A ideia do antropoceno foi apresentada pela primeira vez no ano 2000, pelos cientistas do clima, Paul Crutzen e Eugene Stormer[3] Segundo o historiador Helmut Trischler, a primeira aparição do termo se deu em um boletim de circulação interna, do Programa Internacional Geoesfera-biosfera, no entanto, dada a repercussão do “novo” conceito, dois anos depois, Crutzen publica um artigo na revista Nature, para ratificar o uso do termo junto à comunidade científica internacional[4].
Apesar dos primeiros registros do termo terem surgido nas formulações da Geologia, e de sua meteórica repercussão e espalhamento tanto para outros campos disciplinares, quanto para o espaço público, é importante assinalar, conforme demonstra Luiz Marques, que a ideia de que a ação humana impacta o sistema Terra remonta a era moderna, no interior das reflexões sobre as relações entre o homem e a natureza, refletida nas obras de filósofos e cientistas como Leibniz (1697), Buffon (1780), Lamarck (1820) e José Bonifácio de Andrada e Silva( 1763-1838), dentre outros[5]. E, evocando as teses de Enrique Dussel[6], a invasão e a conquista do continente americano teve como modus operandi o encobrimento do outro, incluindo tudo e todos, natureza e cultura, no geno-epistemicidio colonial.
Cerca de 300 séculos depois, a comunidade científica internacional vem divulgando diversos alertas sobre o consenso científico em torno dos efeitos deletérios das ações humanas no planeta, pelo menos desde o ano de 1972, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre meio ambiente, em Estocolmo. Contudo, mesmo diante das evidências materiais concretas e do consenso científico em torno do colapso ambiental, a afirmação de que as ações e atividades humanas, pautadas pelo modo de vida no capitalismo impactam em proporções geológicas e aceleram as alterações nos regimes climáticos do planeta, tem sido um dos alvos principais do negacionismo científico e das práticas de desinformação socioambiental. E, no século XXI, o Rio Xingu foi colocado em evidência pelos negacionistas.
Nas primeiras décadas do século XXI, o Rio foi capturado pelas controvérsias em torno da construção da Usina de Belo Monte e de suas barragens. Conforme apontado por Fearnside[7], a geração de energia através das usinas hidrelétricas no Brasil, em particular na Região Amazônica, tem sido um dos cenários do espalhamento da desinformação socioambiental, quer seja em relação a emissão dos Gases de Efeito Estufa, ao impacto da construção das barragens nos territórios, nas bacias hidrográficas ou junto às populações indígenas e ribeirinhas, ou ainda, a afirmação da construção das hidrelétricas como uma opção única e necessária para garantia de um “desenvolvimento sustentável” da região. Parte dessas controvérsias ganhou o espaço público, com a publicação de um artigo na Folha de São Paulo, no ano de 2010[8] explicitando as estratégias desinformativas defendidas pelas elites político-econômicas do país, a favor da construção da usina, desconsiderando o Rio Xingu e seu ecossistema.

A construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte alterou profundamente o regime hidrológico da Volta Grande do Xingu e agora a proposta da Belo Sun avança nesta mesma direção. A redução de vazão em trechos críticos comprometeu corredeiras, submergiu áreas rochosas e modificou micro-habitats essenciais para espécies altamente especializadas. Estudos ambientais e reportagens investigativas apontam que a alteração do pulso natural das cheias impactou diretamente peixes reofílicos endêmicos, cuja distribuição geográfica já era naturalmente restrita. O Xingu, que manteve por milhões de anos um mosaico ecológico singular, passou a operar sob lógica artificial de controle de fluxo, deslocando o equilíbrio fino que sustentava sua biodiversidade.
Poucos anos depois, o Xingu retorna às manchetes dos noticiários do país, mas não por sua exuberância ou pela sua importância para a manutenção da vida na região. Novamente, o Rio é capturado pelas redes da desinformação e do ilusionismo que alude a uma suposta “beleza”, em continuidade às narrativas que opunham “civilização” e “natureza”, intrínsecas ao processo de colonização e a sua continuidade nas teias da colonialidade. Se anos atrás o “Monte”, que com o passar dos anos não se mostrou tão belo, foi o vetor das mentiras, hoje o “Sol” é o mestre de cerimônias do espetáculo da desinformação. Belo Sun, que acaba de conseguir autorização para dar início à implementação de um projeto de mineração de ouro, na volta grande do Xingu. Projeto autorizado pelo governo do estado do Pará, mesmo diante das evidências dos saberes dos povos indígenas da região e dos achados científicos sobre o impacto da mineração nos biomas e na vida das populações que vivem às margens e com o Rio. O governador do estado, tal qual os invasores de outrora, anuncia as benesses do projeto, que é “a maior mina de ouro do Brasil”[9]. Vale perguntar, benesses para quem?
Sessenta toneladas de ouro, o que significa algo em torno de quase 50 bilhões de reais estão justamente entre as pedras que habitam as pepitas de ouro dos Acaris. Belo Sun já recebeu o nada consta do governo do Pará e se prepara para apagar a história de milhões de anos e afogar o cascudo, destinando-lhe seu último mergulho em nome do progresso e da ordem de quem sempre fincou bandeiras para chamar terras e águas de suas.

Somam-se a isso os impactos crescentes do garimpo ilegal, a elevação da cotação internacional do ouro – frequentemente acima de dois mil dólares por onça troy em períodos recentes de instabilidade global – funciona como incentivo econômico direto para a expansão da mineração clandestina na Amazônia. Turbidez excessiva, revolvimento de sedimentos, contaminação por mercúrio e destruição de margens comprometem a integridade das corredeiras. O brilho financeiro do ouro converte-se em opacidade ecológica nas águas do Xingu.
O cenário geopolítico recente amplia essa engrenagem. Tensões militares envolvendo o Irã e toda a região do Oriente Médio, dando prosseguimento ao genocídio do povo palestino, iniciado anos atrás por Israel e suportado pelas “grandes potências mundiais”, em particular pelos Estados Unidos da América, prosseguem durante os primeiros meses de 2026. Ataques estadunidenses e israelenses contra Irã e Líbano, com bombas caindo sobre crianças. Bombas e mais bombas que cruzam o céu, produzem devastação humana e aceleram os efeitos do colapso ambiental, repercutindo nos mercados globais[10].
O Irã, com intuito de se defender, fechou o Estreito de Ormuz, corredor estratégico para o escoamento de cerca de 20% do petróleo mundial transportado por via marítima[11]. Certamente, isso elevará o preço do barril e alimentará expectativas inflacionárias. Em contextos de incerteza, investidores buscam ativos de refúgio, impulsionando ainda mais o ouro. Assim, conflitos distantes reverberam economicamente na Amazônia: a valorização do metal precioso fortalece a corrida extrativista, intensifica invasões e pressiona territórios já fragilizados por grandes empreendimentos.
Uma nova corrida do ouro está em curso com este e outros metais em cotações recordes e máximas históricas e no centro dessa corrida. O Baryancistrus xanthellus, cuja linhagem sobreviveu a transformações geológicas profundas e variações climáticas ao longo de eras, pode não resistir à velocidade da economia global contemporânea e sua geopolítica de guerras e morte.
A combinação de necropolítica com o crime organizado em garimpos ilegais na Amazônia, em consonância com o desmonte e sucateamento dos órgãos ambientais, tais como o Ibama e ICMBio, e com os retrocessos na legislação ambiental do país, particularmente e estrategicamente acelerado no período do ex-presidente, hoje preso por tentativa de golpe, em consonância com o cenário geopolítico, criam uma tempestade perfeita. Uma corredeira que nenhum cascudo consegue suportar. A espécie que desenvolveu adaptações precisas para permanecer agarrada às pedras enfrenta agora um cenário em que as próprias pedras desaparecem, soterradas, submersas ou estilhaçadas pelas bombas de sucção.
No calor do Centro-Oeste e da Amazônia oriental, o Cascudo Pepita-de-Ouro aproxima-se de seu último mergulho silencioso. Desaparece quase sem testemunhas, vítima de uma lógica que transforma vida em commodity e rios em infraestrutura. O crime não é apenas ambiental; é civilizatório. É a incapacidade de reconhecer que somos parte – e não proprietários – da grande teia da vida. A supremacia, o raciocínio monocultural e o desejo de domínio, a ganância, rebaixam a complexidade do mundo a cifras e barris. No fundo do Rio Xingu, entre pedras que ainda resistem à correnteza, o Pepita-de-Ouro carrega não apenas sua tragédia, mas o reflexo das escolhas de nossa espécie. O último mergulho do Pepita-de-Ouro é também o afogamento de nossa própria humanidade e de sua incapacidade de se entender como parte da teia da vida.
Entretanto, é também no centro da luta pelo Rio, pelos Rios, que emerge a nossa humanidade. Vozes dos territórios, vozes ancestrais, movimentos sociais, cientistas e o Pepita-de-Ouro, dentre tantos outros seres que vivem com o Xingu, insistem em navegar contra as correntezas da colonialidade, nos auxiliando a imaginar outros mundos possíveis, para além do capital.
- Texto dedicado aos povos ribeirinhos e comunidades indígenas do Xingu e inspirado no biólogo Leandro Sousa, professor e pesquisador da UFPA responsável pelo IctioXingu – Núcleo de Estudos em Sistemática, Ecologia e Conservação da Ictiofauna do Xingu @ictioxingu
Notas
[1] PINTO, Janaina; CASTRO, Mariana; FACINI, Arthur. Mudanças Climáticas, In: MUNOZ, Enara et al. Atlas da Justiça C limática na América Latina e no Caribe. Buenos Aires : Clacso, 2025.
[2] TRISCHLER, Helmut. El antropoceno, un concepto geológico o cultural, o ambos? Desacatos, 54, p. 40- 57, mayo-agosto, 2017.
[3] PINTO, Janaina; CASTRO, Mariana; FACINI, Arthur. Mudanças Climáticas, In: MUNOZ, Enara et al. Atlas da Justiça Climática na América Latina e no Caribe. Buenos Aires : Clacso, 2025.
[4] TRISCHLER, Helmut. El antropoceno, un concepto geológico o cultural, o ambos? Desacatos, 54, p. 40- 57, mayo-agosto, 2017
[5] MARQUES, Luiz. Capitalismo e Colapso Ambiental. 3.ed. Campinas : Ed.Unicamp, 2018. p. 462
[6] DUSSEL, Enrique. 1492: o encobrimento do outro: a origem e o mito da modernidade. Petrópolis : Vozes, 1993.
[7] FEARNSIDE, Philippe M. Planned disinformation: the example of the Belo Monte Dam as a source of greenhouse gases. In: ISSBERNER, Liz-Rejante; LENA, Phillippe (eds.) Brazil in the Anthropocene: conflicts between predatory development and environmental policies. New Yourk: Routledge, Taylor & Francis, 2017. p. 125 -142.
[8] LEITE, R.C. C. Belo Monte, a floresta e a árvore. Folha de São Paulo, 19 de maio de 2010.
[9] MARTINS, Rafael Moro et al. Governo do Pará libera mina de Belo Sun na volta grande do Xingu mesmo sem estudos atualizados. Sumaúma: Jornalismo do centro do mundo, 15 de abril de 2026. Disponível em: https://sumauma.com/governo-do-para-libera-mina-de-belo-sun-na-volta-grande-do-xingu-mesmo-sem-estudos-atualizados/
[10] KINNEY, Ellie. CCPI X Military emissions gap – How military emissions impact global warming. Climate Change Performance Index, 14 nov. 2024. Disponível em: https://ccpi.org/guest-article-ccpi-x-military-emissions-gap-how-military-emissions-impact-global-warming/ Acesso em 20 de abril, 2026.
[11] LEITE, Paulo. Giro internacional: Irã fecha mais uma vez o Estreito de Ormuz. Agência Brasil, Brasília, 20 abril, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/internacional/audio/2026-04/giro-internacional-ira-fecha-mais-uma-vez-o-estreito-de-ormuz Acesso em 20 de abril de 2026.
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