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Alerta severo: a infraestrutura de vitrine não protege as periferias de Belém

Com 225 decretos de emergência, os belenenses enfrentam o paradoxo de ter sediado o debate global enquanto suas periferias pagam o preço de uma urbanização que ignora as bacias hidrográficas da cidade

29 de abril de 2026
  • COJOVEM

    Cooperação da Juventude Amazônida para o Desenvolvimento Sustentável

  • Pedro Mota

    Cria da Terra Firme, em Belém do Pará. Professor e Doutorando em Geografia na UFPR. Coordenador de Pesquisa no Instituto COJOVEM.

O “Inverno Amazônico” sempre foi parte da identidade de Belém. Mas enquanto Belém se projeta como a capital mundial do clima no último ano, esse cenário deixa de ser uma característica cultural e passa a ser um registro de perdas sistemáticas, com um recorte espacial pré-definido: as baixadas da cidade. 

Dados do Relatório Científico Amazônia Jovem 2025 revelam que o Pará lidera o ranking de emergências na Amazônia Legal, somando 225 decretos de calamidade entre 2020 e 2025. Assim, é questionável: como a priorização de grandes obras de vitrine, sobretudo para comportar um evento internacional, negligencia a infraestrutura básica e a drenagem profunda, consolidando o racismo ambiental nas periferias?

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Decretos de Emergência e Calamidade na Amazônia Legal (2020 – 2025).  Fonte: Instituto COJOVEM (2025)

“Os problemas agravantes não são naturais: os alagamentos são a ausência de drenagem, manutenção ou limpeza de esgoto e canais urbanos, onde estão assentadas inúmeras famílias negras e de territórios tradicionais, que historicamente foram expulsas e remanejadas para ocupar as planícies de inundações de rios e igarapés que foram aterrados em nome do “desenvolvimento”, afirma o geógrafo Cauã Lima. Lima, que é mestrando da Universidade Federal do Pará, também é morador do bairro da Terra Firme, uma das periferias afetadas pelas fortes chuvas.

Bairro da Terra Firme, 2023. Fonte: Cauã Lima.

A crise climática no Pará

O estado sofre com o clima e enfrenta também uma crise de governança adaptativa. O volume de decretos de emergência expõe uma vulnerabilidade crescente onde o Pará responde por mais de 38% dos decretos de toda a Amazônia Legal no ano de 2025. Em 2021, o estado registrou 14 decretos por chuvas intensas, de acordo com o Instituto COJOVEM, saltando em 2023 para 28 registros. Em 2024, o estado passou a lidar com eventos simultâneos: vendavais, inundações, secas severas e riscos antrópicos, como transporte de produtos perigosos.

O Paradoxo da Infraestrutura

Especialistas como o AdaptaBrasil MCTI e Instituto COJOVEM apontam que o modelo de desenvolvimento atual pode estar agravando os impactos da crise climática. Isto é, o Pará possui baixa capacidade de se ajustar a desastres geo-hidrológicos, o que é comprovado pela história. Os grandes investimentos em rodovias, hidrelétricas ou pelo setor imobiliário deslocam recursos que deveriam ir para saneamento e conectividade da população local.

Frequência das causas dos decretos de emergência e calamidades no Pará (2020-2025). Fonte: Instituto COJOVEM (2025).

Ruth Cardoso e Leonardo Pantoja, pesquisadores amazônidas especialistas das dinâmicas imobiliárias expressam que: “Eixos urbanos valorizados, dotados de infraestrutura, funcionam como mecanismos de concentração e atração de investimentos imobiliários. Em contraste, as áreas que estão afastadas desses espaços permanecem com menores investimentos públicos, baixa infraestrutura, e por conseguinte, suscetíveis a vulnerabilidades socioambientais como os alagamentos. (…) Isso só escancara ainda mais como o mercado imobiliário converte em preço as desigualdades socioespaciais da cidade.” (Ruth Cardoso e Leonardo Pantoja, doutorandos na Universidade Estadual Paulista).

Assim, o desmatamento urbano gerado por esse avanço de desenvolvimento perverso, reduz a infiltração da água no solo. O que antes era absorvido pela floresta, agora se torna enxurrada destrutiva em áreas pavimentadas sem drenagem.

Observamos que no Pará optou pela utilização dos avisos de emergência por mensagens no celular e poucos pontos de ajuda para a população. Porém, mais da metade da população reside a mais de 10 km de postos de saúde ou sinal 4G, dificultando o socorro em casos de inundações e enchentes.

Crise climática tem cor e endereço

Há cenários que precisam ser levados em consideração para a compreensão da complexidade dos impactos em cidades da Amazônia. Mulheres enfrentam sobrecarga física e mental, percorrendo distâncias maiores por água potável, em uma cidade que raciona água e lida com enchentes que prejudicam o uso de banheiros domésticos e cuidados pessoais.

Pesquisadores do Observatório Nacional de Dinâmicas Imobiliárias (ONDI), evidenciam ainda que “os alagamentos em Belém, interferem diretamente na produção desigual do espaço urbano ao depreciar imóveis situados em contextos de maior vulnerabilidade infraestrutural e de maior exposição ao risco.” (Ruth Cardoso e Leonardo Pantoja, doutorandos na Universidade Estadual Paulista).

Em Parauapebas, município do Pará, 100% de uma amostra de 121 crianças indígenas Xikrin apresentam metais pesados no organismo, agravando o risco à saúde durante crises ambientais. Acerca das juventudes, a população negra de jovens periféricos perde dias letivos e acesso a áreas de lazer, visto que 73,73% desses jovens apontam que a cobertura vegetal tem diminuído em suas cidades.

As juventudes almejam mudanças, soluções

Para além dos diagnósticos, as juventudes amazônidas reivindicam um novo modelo de gestão. Segundo Cauã Lima, “a construção de soluções para o combate à emergência climática, estratégica e eficaz, deve passar pelas camadas populares e ser principalmente orientada e construída com as instituições”.

Além disso, é importante salientar as incidências na promoção de políticas públicas que tenham por base evidências vividas e não apenas dados abstratos. Importante o uso de abordagens interseccionais, para a construção de planos de adaptação que considerem especificidades de gênero, raça e classe. Visando assim uma Transição Justa, como o programa defendido pelo Núcleo de Pesquisa do Instituto COJOVEM, apontando o microcrédito socioambiental e capacitação técnica em tecnologias sociais para jovens de territórios afetados.

A adaptação climática em Belém não pode ser uma infraestrutura de vitrine. Sem enfrentar o racismo estrutural e sem garantir que o saneamento básico chegue às áreas de baixadas, a cidade continuará culpando a chuva por uma responsabilidade que é, fundamentalmente, política e coletiva.

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