Análises

Quando o turismo deixa de ser promessa e passa a estruturar o futuro de uma cidade

Avanço da observação de aves, fortalecimento da economia local e aumento da arrecadação via ICMS Ecológico faz Antonina (PR) consolidar parceria com a Grande Reserva Mata Atlântica

Thiago Afonso de Souza ·
8 de maio de 2026

Durante muito tempo, o turismo em cidades históricas brasileiras foi tratado quase como um potencial adormecido. Paisagens exuberantes, patrimônio cultural, gastronomia, tradição e natureza sempre estiveram presentes, mas nem sempre conectados a uma estratégia clara de desenvolvimento.

Antonina, localizada no litoral do Paraná, vive hoje um processo diferente. Um movimento construído de forma gradual, coletiva e consistente, que passou a compreender o turismo não apenas como lazer, mas como vetor econômico, instrumento de valorização territorial e oportunidade concreta de geração de renda, emprego e futuro.

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Nos últimos anos, especialmente a partir de 2017, o município passou a estruturar uma agenda voltada à recuperação do patrimônio histórico, fortalecimento do calendário de eventos, promoção turística nacional e valorização dos ativos naturais que fazem de Antonina um dos territórios mais singulares do Sul do Brasil. Neste processo, a parceria com a Grande Reserva Mata Atlântica teve papel decisivo.

Antonina compreendeu cedo algo que hoje o mundo inteiro começa a perceber de maneira mais evidente: destinos capazes de conservar suas áreas naturais, proteger sua identidade cultural e oferecer experiências autênticas tendem a ocupar um espaço cada vez mais estratégico dentro do turismo global.

Especialmente no período pós-pandemia, houve uma mudança importante no comportamento dos viajantes. Cresceu a busca por destinos conectados à natureza, ao bem-estar, à autenticidade e à qualidade de vida. E Antonina reúne exatamente essas características.

Estamos inseridos em um território extraordinário. Cercados por montanhas, rios de águas cristalinas, áreas naturais preservadas e uma baía que forma uma das paisagens mais bonitas do país, conseguimos consolidar uma vocação muito clara para o turismo de natureza, turismo de aventura e observação de aves.

Hoje, Antonina já é reconhecida pelo número expressivo de espécies de aves registradas em seu território, consolidando-se como um importante destino para birdwatching no Sul do Brasil. Ao mesmo tempo, regiões como o Vale do Gigante começam a atrair novos empreendimentos turísticos, pousadas e investimentos voltados a um perfil de visitante que busca permanência mais longa e maior conexão com o território. E isso produz impactos concretos na economia local.

O turismo movimenta restaurantes, pousadas, pequenos comércios, artesanato, serviços e novas oportunidades profissionais. É uma cadeia ampla, distribuída e democrática. Quando um visitante chega à cidade, ele gera renda em diferentes setores simultaneamente. O impacto econômico não fica concentrado em um único segmento. Além disso, trata-se de um modelo de desenvolvimento compatível com aquilo que Antonina é e deseja continuar sendo.

Somos uma cidade histórica, tombada pelo patrimônio cultural, inserida em uma região de enorme relevância ambiental. Nosso caminho não está associado à instalação de grandes indústrias poluentes. Nosso futuro passa por um desenvolvimento mais inteligente, equilibrado e alinhado às características do território.

É justamente nesse contexto que fazer parte da Grande Reserva Mata Atlântica se torna algo estratégico. A iniciativa amplia a visibilidade nacional e internacional do município, fortalece conexões institucionais, impulsiona oportunidades de captação de recursos e posiciona Antonina dentro de uma agenda global que valoriza conservação, turismo responsável e desenvolvimento territorial.

Mais do que isso: reforça uma compreensão fundamental para o século XXI. Cuidar do meio ambiente não é um obstáculo ao crescimento econômico. Pelo contrário. Em muitos territórios, será justamente a conservação aquilo que permitirá desenvolvimento de longo prazo. Antonina já começa a perceber isso também na prática da gestão pública.

O ICMS Ecológico representa hoje uma fonte extremamente relevante de arrecadação para o município, inclusive superando receitas vinculadas à atividade portuária. E esse resultado não acontece por acaso. Ele está diretamente ligado à preservação das áreas naturais existentes no território e ao trabalho histórico realizado por instituições parceiras, como a SPVS (Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental).

As Reservas Naturais da SPVS em Antonina ajudam a proteger biodiversidade, recursos hídricos e patrimônio natural, mas também contribuem diretamente para geração de receita pública, qualidade de vida e fortalecimento das capacidades do município. Talvez esse seja um dos maiores aprendizados desse processo: natureza conservada não representa atraso. Representa ativo estratégico.

Os desafios ainda existem. Precisamos continuar fortalecendo infraestrutura, qualificação, promoção turística e parcerias público-privadas. Precisamos ampliar nossa capacidade de receber visitantes e seguir atraindo um turismo de qualidade, capaz de permanecer mais tempo na cidade, gerar maior circulação econômica e valorizar a experiência local. Mas os resultados já demonstram que estamos no caminho certo.

Vejo Antonina, nos próximos anos, consolidada como uma das principais referências brasileiras em turismo de natureza aliado à preservação patrimonial e cultural. Vejo uma cidade cada vez mais preparada para receber investimentos responsáveis, novos empreendimentos e visitantes do Brasil e do exterior.

O turismo deixou de ser apenas uma vocação. Ele passou a fazer parte da estratégia de futuro do município. E talvez o mais importante seja justamente isso: entender que desenvolvimento não significa crescer a qualquer custo. Significa crescer preservando aquilo que torna um lugar único.

Antonina tem essa oportunidade. E está aprendendo a transformá-la em realidade.

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