A aprovação do Projeto de Lei 5.900 pela Câmara dos Deputados, no contexto da chamada “Semana do Agro”, gerou reação imediata de organizações ambientalistas. Para o Observatório do Clima, a proposta amplia de forma indevida a influência do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) sobre decisões regulatórias de outras áreas do governo, incluindo meio ambiente e vigilância sanitária.
O texto aprovado prevê que o Mapa seja ouvido previamente em atos normativos que possam afetar atividades produtivas do setor agropecuário. Na avaliação da coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, a medida institucionaliza um mecanismo de pressão política sobre órgãos técnicos que já possuem atribuições legais próprias. “O texto aprovado dá superpoderes ao Ministério da Agricultura para se manifestar previamente em qualquer ato normativo que possa influenciar as atividades produtivas do setor. Isso significa empoderar o Mapa para tentar obstruir as atividades reguladoras dos órgãos ambientais, incluindo o Conselho Nacional do Meio Ambiente, a Comissão Nacional da Biodiversidade, entre outros colegiados e órgãos ambientais, bem como as entidades da vigilância sanitária”, afirmou.
Segundo Araújo, o argumento de que a proposta criaria maior coordenação entre pastas não se sustenta, já que mecanismos de consulta interministerial já existem na administração pública. “Mesmo com os ajustes feitos no texto inicial, a medida não faz qualquer sentido, até porque as consultas ao ministério já acontecem quando necessárias. Acima de tudo, esse PL cria obstáculos inaceitáveis ao controle das atividades agropecuárias”, disse.
A crítica se soma à avaliação de entidades socioambientais de que a Câmara vem acelerando uma agenda legislativa favorável ao agronegócio com impactos diretos sobre a política ambiental. Para o Observatório do Clima, a aprovação do projeto de lei reforça um movimento de deslocamento do poder decisório técnico para esferas mais suscetíveis à pressão setorial, em um momento de crescente disputa sobre fiscalização ambiental, biodiversidade e regulação sanitária no país.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Bancada ruralista acelera ‘pacote agro’ na Câmara dos Deputados
Proposta aprovada em urgência retira do Ministério do Meio Ambiente parte da competência sobre biodiversidade e fiscalização →
Câmara proíbe embargo remoto de área desmatada sem vistoria prévia
Projeto restringe medidas cautelares usadas por Ibama e ICMBio e proíbe a queima de maquinários flagrados pela fiscalização ambiental →
Câmara avança com PL que reduz proteção de campos nativos no país
Texto segue ao Senado sob críticas do MMA, Ibama, ICMBio e organizações ambientais, que veem risco à Mata Atlântica, Cerrado, Pantanal e Pampa →
