Se as vacas pudessem votar, elas poderiam decidir sozinhas os rumos políticos do país. Isso pode soar como uma piada, mas expõe uma realidade concreta: segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui cerca de 238 milhões de cabeças de gado, frente a uma população de aproximadamente 213 milhões de seres humanos. Há mais rebanho do que pessoas vivendo em solo nacional.
Essa assimetria ganha contornos ainda mais graves ao analisar o uso do espaço urbano e rural. Enquanto um em cada cinco brasileiro moram em moradias precarizadas ou gastam uma fortuna para morar em caixas de fósforo nos grandes centros urbanos, a pecuária ocupa 156 milhões de hectares de terras brasileiras (MapBiomas). Essa área equivale a todo o estado do Amazonas ou a mais de 100 mil vezes o tamanho do município de São Paulo. Isso é cerca de 20% de todo o território nacional. Vivemos encurralados em centros urbanos adensados enquanto o espaço do país é destinado prioritariamente ao pasto.
Mas antes que você xingue a vaca e o boi: o animal não possui responsabilidade nesse cenário. O bovino não requisitou sua existência em megapropriedades, tampouco demandou a conversão do Cerrado ou da Amazônia em área de pasto. A responsabilidade recai sobre a estrutura produtiva e política que programa o ciclo biológico dos animais focado no abate para exportação em larga escala, faturando bilhões no mercado financeiro global.
Enquanto o latifúndio monopoliza o solo, a produção da cesta básica nacional (feijão, arroz, legumes e hortaliças) opera com incentivos estatais muito menores e ocupa uma fração residual das áreas agricultáveis do país. O modelo atual entrega terra, recursos hídricos e soberania territorial para concentrar lucro nas mãos de um reduzido grupo de grandes agroexportadores.
O custo desse arranjo é alto: destruição de ecossistemas nativos, deterioração do espaço urbano com perda de qualidade de vida e alimentos caros na sua mesa. O Brasil não enfrenta um problema de superpovoamento demográfico, mas sim de concentração fundiária estrutural, impulsionada por setores que tratam o território nacional como um grande pasto para o comércio externo.
Nas próximas eleições, a mudança desse panorama passa diretamente pela escolha das representações no Poder Legislativo. Se de um lado a bancada ruralista gostaria de aumentar a sua já numerosa bancada (que hoje é maioria do Congresso Nacional), por outro aqueles e aquelas preocupadas com o futuro e com o preço da comida devem se mobilizar para fazer o contrário.
Nesse outro artigo comentei como a sua preocupação ultrapassa as porteiras da fazenda e chega até a sua jornada de trabalho: a bancada ruralista é o atraso do Brasil.
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