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Um futuro digno depende do fim da bancada do agronegócio

O inimigo está na surdina, pronto para dar o bote: a bancada ruralista está em campo para manter sua hegemonia no Congresso e avançar com sua agenda de destruição da legislação ambiental

14 de setembro de 2026
  • Bruno Araujo

    É apresentador do Podcast Planeta A, geógrafo, mestrando em planejamento urbano com foco em clima, especialista em clima e políticas públicas, militante ecossocialista e criador de conteúdo socioambiental no @brunopeloclima

Enquanto os holofotes da imprensa e a atenção geral se voltam obsessivamente para a disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro, uma engrenagem muito mais silenciosa, e infinitamente mais devastadora, continua operando sem questionamentos nos corredores de Brasília. A fratura exposta do Brasil moderno não se resume à polarização das urnas. O verdadeiro desafio estrutural atende por outro nome: a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), que ocupa 60% das cadeiras do parlamento brasileiro (345 dos 594 deputados e senadores).

O discurso do setor tenta vender uma fantasia de modernidade e civismo, repetindo à exaustão que o agronegócio é o “motor da economia” e o “orgulho nacional”. No entanto, uma análise mais cuidadosa da atuação legislativa deste grupo revela um modelo predatório que tem usado a política e a terra para benefício próprio enquanto produz danos que afetam a todos nós: crise climática, degradação ambiental, o envenenamento dos nossos pratos de comida, o empobrecimento e a exaustão física da maioria da população.

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No campo das mudanças climáticas, a conta é matemática e assustadora. Enquanto a propaganda corporativa tenta responsabilizar hábitos individuais, o setor agropecuário responde por cerca de 75% de todas as emissões de gases de efeito estufa do Brasil, impulsionadas pelo desmatamento sistemático, pelas queimadas e pela pecuária extensiva (e as vacas, coitadas, não tem um pingo de culpa nisso).

Em um momento em que os eventos extremos se intensificam, transformando secas rigorosas e ondas de calor no novo normal, a bancada ruralista atua no Congresso como verdadeira patrocinadora das catástrofes que assolam nossas cidades, travando a agenda de transição ecológica e acelerando a destruição de biomas já comprometidos como a Amazônia e o Cerrado. 

E quando a crise climática afeta as safras a FPA corre para apresentar projetos de renegociação de suas dívidas, diminuição de juros, abstenção de impostos e pressão por mais recursos públicos para subsidiar sua produção.

Levantamentos de dados cartográficos apontam que o Brasil possui impressionantes 176 milhões de hectares de propriedades privadas declaradas de forma ilegal dentro de terras públicas. Apenas na Amazônia, essa reportagem de ((o))eco revela que a grilagem já tomou quase 12 milhões de hectares de florestas públicas não destinadas. Em vez de coibir a usurpação do bem comum, a FPA atua para anistiar o roubo de terras e fragilizar órgãos de fiscalização ambiental como o IBAMA.

A profunda assimetria do acesso à terra no Brasil é a raiz histórica dessa concentração de poder. Segundo dados da Oxfam Brasil, menos de 1% das propriedades agrícolas no país controla quase metade de toda a área rural brasileira. O gado bovino ocupa cerca de 156 milhões de hectares ou 20% do território nacional, com em um rebanho de 238 milhões de cabeças que supera a própria população humana do país. Enquanto isso, nós vivemos empacotados em apartamentos minúsculos enquanto o latifúndio estende suas cercas sobre terras roubadas da União.

Além da terra e do clima, a atuação da FPA compromete diretamente a saúde pública e o prato dos brasileiros. O Brasil se consolidou como o grande depósito de agrotóxicos do planeta, aprovando e incentivando o uso de substâncias que já foram banidas na União Europeia e em dezenas de outros países por comprovados riscos de mutação genética e câncer. Através do avanço de pautas como o “Pacote do Veneno”, os parlamentares do agro afrouxam o controle sanitário e inundam o solo e os recursos hídricos com substâncias nocivas, priorizando a margem de lucro na exportação de grãos.

Essa mentalidade de pilhagem e desmonte social não é um acidente de percurso, mas a perpetuação de um modelo arcaico e colonial. A investigação do Projeto Escravizadores, conduzida pela Agência Pública, revelou a genealogia da nossa elite política: pelo menos 33 grandes autoridades brasileiras, incluindo metade dos ex-presidentes desde a redemocratização, quase metade dos atuais governadores e um quinto dos senadores, têm antepassados diretos vinculados à exploração do trabalho escravizado. A herança de leis segregacionistas do século XIX, como a Lei de Terras de 1850, que transformou a terra em mercadoria antes da abolição para impedir o acesso da população negra, ressoa até hoje no comportamento da FPA.

E a sua atuação não se restringe ao campo e à plantação: são os mesmos nomes que lideram a resistência contra o fim da exaustiva jornada de trabalho 6×1, que apresentam Projetos de Lei que legaliza o trabalho análogo à escravidão e que articulam a interferência no conteúdo de livros didáticos nas escolas para apagar termos como “desmatamento” e “agrotóxicos” do vocabulário das futuras gerações. Para a FPA, o trabalhador ideal é o trabalhador exausto, desinformado e desprovido de garantias sociais.

Diante desse cenário, encarar o debate eleitoral apenas sob a ótica da disputa presidencial é cair em uma armadilha. Não haverá projeto de desenvolvimento, justiça social ou soberania viável no Brasil enquanto a bancada ruralista mantiver sua hegemonia e seu poder sobre o Congresso Nacional. Eleger um governante sem alterar drasticamente a composição do Poder Legislativo significa continuar refém de uma agenda feudal travestida de modernidade.

Derrotar o atraso que paralisa o país exige dar nome e endereço aos verdadeiros obstáculos do nosso tempo. O futuro do Brasil não será decidido apenas na faixa presidencial, mas no enfrentamento corajoso ao poder econômico e político do latifúndio. Se quisermos construir um país justo, ambientalmente responsável e soberano, a primeira e mais urgente tarefa da sociedade brasileira é expor, enfrentar e reduzir a influência da bancada ruralista no Congresso.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

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