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Levamos a Terra para um check-up, o diagnóstico é grave, mas ainda temos cura

O Planetary Health Check acompanha nove limites que precisam ficar dentro de uma margem segura para que o planeta continue estável e habitável. Hoje, sete deles estão ultrapassados

8 de outubro de 2026

O lançamento do Planetary Health Check deste ano foi montado como um centro de bem-estar. Você entrava, recebia um suco detox, passava por uma sauna e era recebido por pessoas vestidas de enfermeiras e médicos. A ideia era levar a Terra para fazer o check-up anual, como a gente faz com o próprio corpo.

O que me impressionou foi perceber o esforço para comunicar. Alguns dos cientistas mais respeitados do mundo estavam ali tentando falar por metáforas, criando uma historinha para ver se as pessoas finalmente entendiam. Quando comecei a me aproximar da pauta ambiental sentia falta dessa conexão, falar a língua de nós, cidadãos comuns e percebo que enfim esse movimento está acontecendo.  

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O Planetary Health Check é o boletim anual sobre a saúde do planeta. Ele é produzido pelo Laboratório de Ciência dos Limites Planetários do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), na Alemanha, e assinado por mais de 60 cientistas. A edição 2026 foi lançada em 21 de setembro, na Semana do Clima de Nova York.

O relatório acompanha nove limites planetários: processos do sistema Terra que precisam ficar dentro de uma margem segura para que o planeta continue estável e habitável. Hoje, sete deles estão ultrapassados. São eles: mudança climática, integridade da biosfera, mudança no uso da terra, água doce, ciclos de nitrogênio e fósforo, novas entidades (como plásticos e outros materiais sintéticos) e acidificação dos oceanos.

Só dois limites melhoraram na última década: a camada de ozônio e os aerossóis na atmosfera. O autor principal, Boris Sakschewski, resumiu: o diagnóstico é inequívoco, o risco de mudanças irreversíveis cresce e a nossa margem de erro está encolhendo.

O relatório também faz o balanço de um ano de extremos. As enchentes de 2025 no Paquistão atingiram mais de 6,9 milhões de pessoas. O calor acumulado nos oceanos bateu recorde. E entre janeiro de 2023 e setembro de 2025, cerca de 84% da área de recifes de corais do mundo sofreu estresse térmico capaz de causar branqueamento, o maior evento já observado. Aqui no Brasil, a gente sabe bem do que esse boletim está falando: tornados, ressacas, fumaça em Manaus. A crise não é mais uma questão de se,  ela já chegou.

1. Perder biodiversidade é perder comida

O primeiro ponto que eu destaco é a perda de biodiversidade. E a forma mais direta de entender o que isso significa é olhar para o prato.

O maior desafio aqui são os polinizadores: abelhas, pássaros e, principalmente, insetos. A maior parte dos cultivos que a gente come depende, ao menos em parte, deles. Quando eles somem, o sistema alimentar inteiro fica mais frágil.

O segundo alerta vem do mar. A morte dos recifes de corais está acelerando, e o maior evento de branqueamento já registrado atingiu cerca de 84% da área de recifes do planeta. Isso importa porque a cadeia alimentar marinha começa nos recifes. Segundo a FAO, cerca de 3,2 bilhões de pessoas dependem de alimentos aquáticos para pelo menos 20% da proteína animal que consomem.

Estamos falando de dificultar o acesso à comida para algo como um terço da humanidade. E o efeito dominó não para no mar: se a oferta de peixe cai, a demanda por proteína migra para a terra, a pressão por desmatamento aumenta e o ciclo do desastre se retroalimenta.

2. O oceano está perdendo o fôlego

O segundo ponto é a confirmação do sétimo limite rompido: a acidificação dos oceanos. A ultrapassagem foi identificada em 2025, e os dados deste ano confirmaram o quadro.

Branqueamento dos recifes de corais. Foto: Matt Kieffer/Flickr.

O oceano absorve cerca de 25% do CO₂ que a humanidade emite, além da maior parte do calor extra que estamos jogando no sistema. É um serviço gigantesco, e a gente não paga nada por ele. Só que, ao absorver carbono, a água fica mais ácida. Corais, moluscos e minúsculos organismos marinhos passam a ter dificuldade para formar conchas e esqueletos, e as cadeias alimentares se desorganizam.

O risco é o oceano seguir o caminho que já vemos em partes da Amazônia: deixar de prestar o serviço ecossistêmico que sempre prestou. Floresta degradada absorve menos carbono e, em algumas regiões, passa a emitir. O relatório deste ano dá atenção especial justamente a esses sumidouros naturais e alerta que o planeta pode estar perdendo sua capacidade de amortecer a pressão que colocamos sobre ele.

E essa pressão vem de várias frentes ao mesmo tempo. Tem a poluição plástica, parte das chamadas novas entidades: materiais sintéticos, a maioria derivada do petróleo, que não se decompõem, tem a exploração de petróleo e a mineração em águas profundas, deixando toda essa conta no mar.

3. A notícia boa: as soluções estão acelerando

O terceiro destaque é positivo, e eu faço questão de que ele chegue até você com o mesmo peso dos outros dois. No meio de tantos gráficos vermelhos, havia um gráfico de aceleração: os chamados pontos de virada positivos.

A mensagem é que, apesar de vivermos o momento mais crítico da história humana, coisas estão dando certo. Indicadores sociais seguem melhorando. Soluções e tecnologias para enfrentar a crise estão sendo adotadas mais rápido e ficando mais baratas. A energia renovável, por exemplo, já é mais barata do que muita gente imagina.

E há uma prova concreta de que dá para voltar atrás: a camada de ozônio. Depois do Protocolo de Montreal, de 1987, esse limite voltou para a zona segura. Um acordo internacional, cumprido, moveu um ponteiro planetário na direção certa.

Johan Rockström, diretor do PIK e coautor do relatório, disse que não temos o luxo do tempo, mas temos o conhecimento, a capacidade e as soluções para mudar o rumo. Ou seja: a situação é muito grave, mas os maiores cientistas do mundo ainda acreditam que dá tempo. Desde que a gente comece a reverter agora.

Um bom começo é olhar para perto. Durante o lançamento, foi apresentada a plataforma Climate TRACE, que mostra em tempo real as fontes de emissão de gases de efeito estufa em qualquer endereço do mundo, inclusive no Brasil. Vale entrar, procurar a sua cidade e perguntar: de onde vem a poluição que eu respiro? Quem está lucrando com ela?

Fontes

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