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Pesquisadores defendem produção sem desmatamento

Encontro realizado em Londres questiona qual o limite da agropecuária na Amazônia e no Cerrado. Cientistas recomendam intensificação da produção.

Gustavo Faleiros ·
12 de maio de 2011 · 15 anos atrás

O governo brasileiro poderá fazer um planejamento territorial detalhado para intensificar a produção agropecuária na Amazônia e no Cerrado, impedindo mais desmatamentos. Segundo informações do pesquisador Arnaldo Carneiro Filho, do Ministério de Assuntos Estratégicos, cinco laboratórios de universidades nacionais que trabalham com modelagens e sistemas de informação geográfico (SIG) estão envolvidos em um esforço de projetar formas de aumentar a produtividade de culturas como a soja e cana, além da pecuária.

Nos cálculos de Carneiro Filho, que em breve vai coordenar o Departamento de Planejamento de Paisagem no Ministério do Meio Ambiente, seria possível liberar 70 milhões de hectares somente com a intensificação da produção pecuária em todo o país (ver mapa abaixo). Essa quantidade de terra excede em muito a necessidade projetada para a expansão das lavouras de soja e cana nos próximos anos. De acordo com os dados reunidos pelo pesquisador, a área plantada da oleaginosa deverá crescer 5 milhões de hectares até 2015, enquanto a da gramínea, 2,3 milhões no mesmo período.

“A melhor forma de ocupar a terra que será liberada , será com o plantio de florestas, pois o Brasil não conseguiu desenvolver ainda uma economia de base florestal”, disse Carneiro Filho.

Fonte: Arnaldo Carneiro Filho/SAE
Fonte: Arnaldo Carneiro Filho/SAE

As informações de Carneiro Filho foram apresentadas na última segunda-feira em um encontro de pesquisadores na Sociedade Real de Ciências do Reino Unido, onde debateu quais os desafios para aumentar a produtividade da agropecuária na Amazônia. Com o sugestivo nome de Peak Soya? – algo como o Pico da Soja, em referência à expressão Peak Oil, que define quando a produção de petróleo chegará ao seu limite – o evento foi organizado pela rede Global Canopy Programme, que reúne cientistas que lidam com florestas tropicais.

Também participaram do encontro, representantes de algumas das maiores maiores empresas do setor varejista na Europa, como os supermercados Sainsbury, a gigante de agronegócio brasileira, Grupo Maggi e também fundos de pensão que investem em empresas com atuação no mercado de commodities agrícolas.

Intensificação é o termo

O climatologista Carlos Nobre, secretário de Políticas e Programas de Pesquisa e Desenvolvimento do Ministério de Ciência e Tecnologia, também participou do encontro, via vídeo-conferência. Autor dos principais estudos que demonstram o risco climático sobre a Amazônia, ele defendeu que a agricultura no Brasil deva adotar a intensificação como prioridade. “O principal termo que define a agricultura moderna é a intensificação e não a expansão sem limites”, ele pontuou.

O coordenador do Global Canopy Programme, Andrew Mitchell, argumenta que o desafio da intensificação continua ser a difusão das informações entre os produtores no campo. Ele lembrou a diferença entre a soja no Brasil – um setor bem concentrado – e a pecuária, cujo a produção é difusa. “Como transformar o conhecimento dos pesquisadores em algo prático para as empresas e produtores?” questionou Mitchell.

WWF faz campanha contra desmatamento do Cerrado

Uma das principais questões levantadas no encontro realizado em Londres foi a influência da produção de soja no desmatamento do Cerrado. O ONG WWF acaba de lançar uma campanha no Reino Unido mostrando que ao contrário do que se pensa, a produção da oleaginosa tem maior impacto na savana brasileira do que no Amazônia .

Segundo a coordenadora da campanha, Isabella Vitali, é difícil despertar atenção do público sobre as questões do Cerrado “O foco principal das campanhas no Brasil continua a ser a Amazônia”, ela conta. Mesmo entre as empresas, o conhecimento parece ser reduzido. Vitalli explica que com o estabelecimento da moratória da soja na Amazônia – acordo firmado entre as ONGs e as maiores empresas comercializadoras de commodities – empresários pensam que o problema já foi resolvido.

A estratégia para sensibilizar os britânicos é pedir que enviem cartas aos principais supermercados pedindo informações sobre o suprimento de soja do Brasil e quaisquer ligações com a produção no Cerrado. O WWF lançará também um relatório em breve com dados sobre a relação entre o mercado global de commodities e o Cerrado.

Aqui o vídeo elaborado pela campanha (em inglês)

{iarelatednews articleid=”24786, 20677″ Uma dúvida no prato}

  • Gustavo Faleiros

    Editor da Rainforest Investigations Network (RIN). Co-fundador do InfoAmazonia e entusiasta do geojornalismo. Baterista dos Eventos Extremos

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