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Felicidade Nacional Bruta

Localizado aos pés do Himalaia, o pequeno reino do Butão não se interessa pelo valor do PIB. O que conta é a FNB, Felicidade Nacional Bruta. Será que funciona?

21 de dezembro de 2005 · 20 anos atrás
  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

Encravado entre China, Índia e Nepal, o pequeno reino do Butão não quer saber do PIB. Trata-se de um país muito pobre. Sua população de apenas 1,5 milhão de habitantes é formada, na maioria, por camponeses. Suas poucas perspectivas de exportação são o turismo e a venda de energia hidroelétrica para a Índia. Mas seu rei, Jigme Singye Wangchuck, dispensa o crescimento econômico convencional e abraçou o conceito de Felicidade Nacional Bruta.

A idéia evoluiu de princípios budistas, religião oficial do país, e envolve combinar prosperidade preservando o meio ambiente e as tradições culturais. Uma das diretrizes é manter 60% do território nacional florestado.

Como é que se mede o fluxo de produção de riqueza de um país? Uma das medidas mais comuns é o PIB, o produto interno bruto. Só que o PIB mede apenas aquilo que foi transacionado nos mercados, só os bens e serviços que têm preço. Na concepção dos economistas, os preços expressam a medida de valor que a sociedade atribui à produção. Mas o cálculo do PIB não inclui itens como a qualidade do meio ambiente ou do lazer. Literalmente, isso não têm preço.

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Um bom exemplo da precariedade do cálculo do PIB é a China. Esse gigante, nos últimos 20 anos, acordou para a produção e disparou a crescer. Isto é, da maneira convencional. O PIB chinês cresce, há 20 anos, a taxas em torno de 10% ao ano, um resultado fantástico. Quem olha apenas esse número esquece que o desenvolvimento convencional está acumulando uma gigantesca dívida ambiental. Um dia essa fatura vai chegar. E será cara.

A última edição da revista Exame fala, em reportagem de Denise Dweck, sobre os problemas ambientais da China. São de meter medo até nos mais céticos sobre o assunto. A China já é a sétima economia do mundo. Em compensação, a pesada dependência de antiquadas usinas de carvão como fonte de energia faz dela o segundo país em emissão de gases do efeito estufa. Dezesseis das cidades mais poluídas do mundo estão lá. Os rios estão morrendo. 75% dos que abastecem centros urbanos estão poluídos. Um terço das terras aráveis sofre com chuva ácida. Os ativistas já estão em ação. Quem quiser saber mais, pode ler livros como Mao’s war agains nature (A guerra de Mao contra a natureza), de Judith Shapiro, ou The river runs black (O rio corre escuro), de Elizabeth Economy.

Voltando ao seu pequeno vizinho, o Butão, sua pobreza não está impedindo o país de obter progressos importantes. A expectativa de vida da população aumentou 19 anos entre 1984 e 1998, chegando aos 66 anos. Esse é um dos fatores, segundo os estudiosos da felicidade (é, isso existe e está virando ciência séria), mais importantes para a percepção de bem-estar. Outra coisa importante é a renda relativa. Descobriu-se que não importa muito ser rico em termos absolutos. O que faz as pessoas se sentirem bem é ter uma renda maior do que seus pares. Ter uma renda acima da média em país pobre dá uma sensação de conforto semelhante a obter o mesmo resultado em um país rico. Por outro lado, o aumento absoluto da renda per capita também melhora a felicidade, mas só até um certo nível. Acima de uma renda per capita de US$10 mil as pessoas não se percebem mais satisfeitas (estamos próximos. A brasileira já é de quase US$ 7 mil).

A verdade é que o Butão ainda não sabe como medir a Felicidade Nacional Bruta. Mas entrou na onda certa e o debate é bom. O PIB é uma medida muito estreita. Seus defensores argumentam que, embora imperfeita, é simples e bem correlacionada com outros indicadores de bem-estar. Quem tem PIB per capita alto, costuma ter também mortalidade infantil baixa, expectativa de vida longa e nível educacional alto. Isso costuma ser verdade, mas, para garantir, a tendência é desenvolver medidas abrangentes de bem-estar. O primeiro passo foi o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que engloba na sua composição indicadores de renda, educação e longevidade.

A nova abordagem não para por aí. A Inglaterra e o Canadá estão desenvolvendo índices de bem-estar mais abrangentes. Pretendem tomar iniciativas semelhantes a Austrália e a Nova Zelândia. Fatores que poderão ser levados em conta nesses novos indicadores incluem itens como acesso a parques, civilidade, trânsito, poluição, reciclagem, criminalidade e, até mesmo, nível de ocorrência de problemas psiquiátricos. Essas medidas, pela novidade e dificuldades de mensuração, não substituirão o PIB, mas começarão a mapear a parte submersa do iceberg da riqueza humana.

Recentemente, 400 especialistas e interessados no assunto se reuniram na província de Nova Escócia, no Canadá. O Butão enviou cerca de 30 representantes entre funcionários do governo, professores e monges budistas. Os mais animados vestiam camisetas com dizeres como “Os camponeses medievais trabalhavam menos que você”. Segundo relatos, um participante declarou durante um debate que “queria viver num mundo sem dinheiro”. Um pintor presente deu rapidamente a solução: “Torne-se um artista”.

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