A engenharia genética promete plantas grandes, bonitas, perfeitas e resistentes a pragas, produzindo alimento suficiente para abastecer o planeta. Mas as sementes geneticamente modificadas têm dono e patente. E como o segredo está em poucas mãos, por ironia o galope transgênico – de sementes que não geram sementes – reforça a fome no mundo. É assim que entra novamente em cena o grão crioulo – ou nativo – que resgata o homem do campo ao mesmo tempo em que é resgatado no Brasil.
Enquanto o mundo discute a relevância dos transgênicos e o polêmico monopólio de sementes híbridas, diversas comunidades brasileiras correm paralelamente em busca das sementes crioulas. Variedades crioulas são aquelas que ainda não foram modificadas, seja pela biotecnologia ou por outros processos de melhoramento. Em cada contexto regional, a semente crioula assume uma dimensão diferente. Enquanto no sul do país sua produção representa autonomia e retomada da tradição, no nordeste ela é, sobretudo, uma questão de sobrevivência.
A semente crioula também movimenta a agroecologia. Esse método de cultivo funciona de forma que uma cultura combinada com a outra impede a invasão de pragas, sempre utilizando sementes crioulas, que são naturalmente complementares. Por isso, também não precisam de agrotóxico. A produtividade das sementes não é tão grande quanto a das híbridas. Mas, enfim, a produtividade – e até a qualidade – dos transgênicos também está sendo seriamente questionada pelos pesquisadores americanos. Oh, yeah!
O cultivo de sementes crioulas foi largamente utilizado no Brasil até a década de 70, mas, com o desenvolvimento tecnológico, aos poucos o agricultor foi perdendo espaço na lavoura para as máquinas, e as sementes rústicas para as sementes híbridas. Até agosto de 2003, a legislação em vigor no Brasil criminalizava o uso dessas sementes. Graças à pressão exercida por grupos de pequenos agricultores, movimentos sociais e associações, a existência de sementes crioulas foi finalmente reconhecida e elas agora podem ser comercializadas. A volta às técnicas tradicionais recupera a cultura do campo, renova a relação do produtor com a terra, inclusive as manifestações étnicas e os festejos populares.
A retomada dessas sementes para o plantio funciona com administração coletiva. Um sistema de empréstimo e devolução. A família associada toma emprestada uma certa quantidade de sementes e lhe acrescenta uma porcentagem quando as sementes forem devolvidas depois da colheita. Para o início das atividades, a casa ou banco de sementes crioulas define coletivamente a quantidade de sementes que cada agricultor tem que depositar, e qual vai ser a porcentagem que deve ser acrescentada na devolução. Esse sistema possibilita a preservação dos recursos genéticos locais e contribui para a segurança alimentar das comunidades. O Ministério do Meio Ambiente está trabalhando em parceria com a Embrapa para dar sustentabilidade à agricultura familiar crioula. E está promovendo cursos de formação para agricultores sobre resgate, produção, seleção e armazenamento dessas variedades. Existem trabalhos muito interessantes sobre agroecologia e sementes crioulas de pesquisadores da Embrapa, como o estudo sobre a recuperação e seleção participativa de variedades locais e tradicionais de milho e mandioca.
Não há mais um só cristão que ainda acredite que as sementes transgênicas vão salvar o mundo da fome. Não é a falta de alimentos que provoca a fome no planeta. É o acesso a eles.
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