Um estudo publicado este mês na revista científica Rodriguesia revela que áreas verdes urbanas, como o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, desempenham um papel crucial na conservação de abelhas sem ferrão. A pesquisa, conduzida pela engenheira agrônoma Maria Lucia França Teixeira, destaca que esses locais servem como refúgios para ninhos e reprodução dessas espécies, que enfrentam a perda progressiva de seus habitats naturais.
Intitulado “Diversity and nesting characteristics of stingless bees in an urban green area, the Botanical Garden of Rio de Janeiro”, o trabalho é fruto de oito anos de monitoramento no arboreto do Jardim Botânico. Durante o período, foram registrados 94 ninhos de 13 espécies diferentes. A espécie Tetragonisca angustula (Jataí) foi identificada como a mais abundante na região.
As abelhas sem ferrão são fundamentais para o equilíbrio ambiental, sendo responsáveis por cerca de 70% das abelhas forrageadoras nas florestas da Mata Atlântica. Elas garantem a reprodução de uma grande quantidade de plantas nativas, desde vegetação rasteira até árvores de grande porte. O estudo reforça que a extinção dessas abelhas comprometeria diretamente a sobrevivência das plantas silvestres. Além disso, por possuírem o ferrão atrofiado, elas não representam risco à população humana.
Existem também uma alta capacidade de adaptação dessas espécies. Embora a maioria dos ninhos tenha sido encontrada em árvores frequentemente antigas e ocas, as abelhas também ocupam substratos artificiais, como muros de pedra, monumentos e até o solo. Segundo a pesquisadora Maria Lucia, a urbanização e a redução da vegetação nativa têm levado essas abelhas a migrar para zonas urbanas em busca de locais para nidificação.
A pesquisa destaca que a conectividade entre o arboreto do Jardim Botânico e outros fragmentos de mata, como o Parque Nacional da Tijuca, cria um corredor ecológico essencial. Essa ligação permite que a diversidade de espécies permaneça elevada, mesmo sob pressões urbanas e presença humana.
A preservação de árvores antigas e a criação de corredores ecológicos são estratégias vitais para evitar a extinção dos polinizadores nativos. Para Maria Lucia França Teixeira, a conservação dessas espécies depende de um conjunto de ações que envolvem desde pesquisas científicas até políticas públicas e iniciativas de educação ambiental.
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