Reportagens

“É falso que melhorar a gestão ambiental prejudica a agropecuária”, diz pesquisador da USP

Co-organizador de um livro sobre caminhos da transição agroalimentar no país, Arilson Favareto coloca produção agropecuária e consumo dos alimentos no centro do debate socioambiental

Tainah Ramos ·
19 de maio de 2026

A transformação do sistema agroalimentar é um dos pilares essenciais para combater as mudanças climáticas. No caso do Brasil, significa um passo para descarbonizar a economia: o setor agropecuário representou, em 2024, 64% das emissões de gases de efeito estufa, de acordo com o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), plataforma do Observatório do Clima. O número pode ser ainda maior ao pensar na conexão entre o desmatamento e o avanço das fronteiras do agronegócio no Cerrado e na Amazônia.

Professor titular da Cátedra Josué de Castro de Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis da Universidade de São Paulo (USP), Arilson Favareto explica as dimensões do sistema agroalimentar – produção e consumo – e quais as possibilidades para uma transição efetiva e dentro da velocidade necessária para impedir um esgotamento ainda maior dos limites do planeta.

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Ao lado do pesquisador Ricardo Abramovay, Favareto é organizador do livro “Caminhos para a transição do sistema agroalimentar: desafios para o Brasil”, publicado pela Editora Senac em novembro de 2025. O estudo reúne artigos sobre os sistemas agrícolas atuais e o desequilíbrio ambiental causado pelas formas de produção e consumo, além de apontar tecnologias e práticas que podem tornar soluções concretas em escalas suficientes para regenerar os ecossistemas.

Em entrevista a ((o))eco, Favareto destaca a necessidade de colocar o sistema agroalimentar no centro do debate ambiental e combater a apropriação dos termos, como “agropecuária regenerativa” por setores empresariais para “uso fraco”. “A agropecuária regenerativa não é apenas uma tecnologia, mas um conjunto de práticas – tecnologias e sistemas de fiscalização e de regulação que contribuem para a regeneração dos ecossistemas. Não adianta usar bioinsumos e continuar desmatando a Amazônia. Isso não é agropecuária regenerativa e não pode ser considerada como. Isso eu chamo de uso fraco da expressão”, afirma. Leia na íntegra:

((o))eco: Para começar a conversa, você poderia introduzir qual o conceito de sistemas alimentares?

O cátedro Arilson Favareto, da USP. Foto: Editora Senac.

Arilson Favareto: Quando falamos de sistemas agroalimentares, primeiro tem uma questão que não se trata apenas de semântica. Falamos sistema agroalimentar ou sistemas agroalimentares. As duas estão corretas. Muita gente prefere usar a expressão “sistemas agroalimentares”, no plural, porque, de fato, existe uma quantidade muito grande de formas de produzir, de transformar, de preparar e de consumir alimentos. Nesse sentido, claro, existem sistemas agroalimentares no plural.

No entanto, eu e alguns colegas temos preferido usar a expressão “sistema agroalimentar”, no singular, porque existe uma forma predominante que hierarquiza esses vários subsistemas. Falamos do sistema agroalimentar global, que tem algumas características. 

Também temos usado a expressão “monotonia do sistema agroalimentar” para chamar atenção para uma característica básica. Essa monotonia tem três dimensões: a da produção de grãos – produção agrícola cada vez mais concentrada em poucas espécies, que se baseia num modelo tecnológico apoiado fortemente no uso de insumos químicos e em tecnologias intensivas de uso de recursos naturais. 

Isso gera paisagens monótonas. Se você for daqui para o interior de São Paulo ou pelo Cerrado, você vai viajar centenas de quilômetros vendo praticamente a mesma paisagem, com duas ou três cores no horizonte. Desse modo, essa monotonia da paisagem se traduz também em uma monotonia da vida que existe nesses lugares, porque o uso dos insumos químicos estão voltados a eliminar a biodiversidade, a microbiodiversidade, para favorecer justamente o crescimento de uma única espécie, a planta que produz os grãos que são comercializados. Essa produção agrícola é predominantemente voltada a produzir grãos que vão ser usados na alimentação animal. 

Essa é a segunda dimensão da monotonia: a da criação animal. Se qualquer um de nós pensar na maneira como são produzidas aves e suínos, talvez venha à nossa mente a imagem daquelas granjas com milhares de animais todos iguaizinhos, muito concentrados em um único ambiente. Esses ambientes concentracionários, como costumamos falar, são propícios para  propagação de doenças. A própria homogeneidade genética favorece isso. As doenças se propagam de maneira muito rápida e a única forma de controlar isso é com o uso massivo de antibióticos, o que causa o risco de grandes pandemias, como gripe suína, gripe aviária e afins. Essa é uma das grandes preocupações da Organização Mundial da Saúde (OMS) hoje. 

Assim se completa a última dimensão, com a monotonia do consumo. Hoje temos um consumo cada vez maior de ultraprocessados, substituindo as dietas diversificadas baseadas em produtos in natura ou minimamente processados. 

Desse modo, há um modelo predominante. Isso é o que chamamos de sistema agroalimentar, um sistema que envolve todas as etapas da produção primária até o consumo, volume e descarte dos alimentos, e um modo predominante de organização desse sistema baseado nessa tríplice monotonia.

Há um segundo ponto que quero trazer para essa conversa. Hoje, não sem razão, o que mais chama a atenção no debate público é o aquecimento global e as mudanças climáticas, mas é importante relembrarmos que isso representa apenas um dos chamados limites do planeta. A edição mais recente do “Planetary Boundaries” mostra que dos nove limites planetários, sete já foram ultrapassados. É importante destacar que o sistema agroalimentar global tem contribuído de forma decisiva para que esses limites sejam ultrapassados.

Os nove limites do planeta são sistêmicos, ou seja, ao comprometer um, há um efeito sobre os demais. Isso significa que se não revermos a maneira como está organizado o sistema agroalimentar, não existe nenhuma possibilidade de ter uma resposta satisfatória para a agenda climática e para a agenda ambiental contemporânea.

No caso da agenda climática, se considerarmos a contribuição do sistema agroalimentar na escala global, ele responde por aproximadamente um terço das emissões [de gases de efeito estufa]. No caso do Brasil, quando consideramos os efeitos diretos e indiretos, estamos falando de três quartos das emissões. Então, para qualquer lado que olhamos, é fundamental pensar em uma transição do sistema agroalimentar.

E como pode ser feita essa transição?

No livro organizado por mim e pelo meu colega Ricardo Abramovay, discutimos exatamente isso. Começamos com esse diagnóstico que mencionei. Não tem como pensarmos em algum modelo sustentável de relação entre sociedade e natureza sem uma mudança do sistema agroalimentar. Além disso, dizemos também que não é uma questão de saber se vamos ter uma transição ou não. Uma transição já está acontecendo. Essa é a notícia boa. A notícia ruim, porém, é que essa transição está sendo muito lenta e não necessariamente ela está tomando uma direção melhor. Ou seja, a transição já começou, mas está sendo lenta e ambígua demais perante o necessário.

Noite de autógrafos do lançamento do livro ‘Caminhos para a transição do sistema agroalimentar: desafios para o Brasil’, publicado pela Editora Senac em novembro de 2025. Foto: Editora Senac.

O que está sendo feito hoje? Temos um arquipélago de inovações, mas que não são o suficiente para alterar o sentido geral do sistema agroalimentar. E que inovações são essas? Se eu olhar para agricultura, vemos se tornar mais frequente o uso de bioinsumos na produção agropecuária. Isso é importante porque substitui o uso de insumos químicos – alguns deles que destroem a biodiversidade e os solos. 

No caso da pecuária, há um conjunto de tecnologias que levam ao que chamamos de intensificação moderada da pecuária. Intensificação por quê? Porque hoje desmatam, desmatam e desmatam para ter áreas enormes de pastagem com uma produtividade muito baixa. Se tivermos tecnologias – e temos – para criar esses animais em uma área menor, integrando a criação animal com produção de grãos e com florestas, o que teria resultados ambientais muito melhores.

No âmbito do consumo, temos também iniciativas como o “Guia alimentar para população brasileira” [documento elaborado pelo Ministério da Saúde], que chama a atenção para quão nocivos são os ultraprocessados e para a importância de dietas diversificadas. Temos nas políticas públicas a introdução de critérios baseados, por exemplo, na Classificação NOVA [um sistema desenvolvido por pesquisadores da USP, que categoriza alimentos em quatro grupos com base no nível de processamento industrial] para políticas de alimentação escolar e etc.

Para todos os lados que olhamos estão sendo feitas inovações, mas por que então estou dizendo que elas ainda são muito lentas e muito ambíguas? Porque a maneira como está organizado o ambiente institucional – financiamento, incentivos fiscais, regulação – continua favorecendo as práticas convencionais. Temos um paradoxo. 

Ao mesmo tempo em que aumenta o uso de bioinsumos, aumenta ainda mais o uso dos insumos convencionais, os fertilizantes químicos e os agrotóxicos. Ao mesmo tempo em que aumentam as práticas da chamada pecuária regenerativa, aumentam ainda mais as áreas de pastagem convencional e o desmatamento. Ao mesmo tempo em que você tem o uso de instrumentos como guia alimentar, você tem um aumento ainda maior do consumo de ultraprocessados. Então, temos uma transição que já começou, mas que precisa ser fortemente corrigida. É neste momento que estamos agora.

Há uma disputa em torno desse diagnóstico, porque algumas lideranças vão dizer: “Olha, não precisa de muita coisa, não precisa fazer mais nada, porque a gente já tem essas tecnologias novas”. Outros vão dizer: “A agricultura brasileira já é sustentável, porque já tem bioinsumos, já tem pecuária regenerativa.” Ou ainda: “É só uma questão de tempo para que uma coisa substitua a outra”.

Esse argumento está errado. Precisamos fazer correções. Não dá para dizer que não temos inovações e coisas interessantes acontecendo. Mas estamos muito longe de uma situação na qual essas inovações sejam suficientes ou sejam predominantes no curto prazo. Tem muita coisa que precisa ser feita para acelerar e corrigir essa transição.

Há alguns princípios ou práticas de transformação desse sistema agroalimentar? Você citou alguns, mas poderia falar sobre o conjunto de práticas?

Foto: Editora Senac.

Tem um repertório gigante. O uso de bioinsumos substituindo os insumos químicos é uma prática. A chamada pecuária regenerativa ou sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta são outras. A rotulagem de alimentos indicando quais alimentos consumidos em quantidade muito grande são nocivos à saúde também é uma prática, que é importante porque instrui os consumidores sobre o que estão consumindo e qual o resultado disso.

A prática da certificação e da rastreabilidade, que são cada vez mais exigidas nos mercados – e deveria ser mais ainda – é um outro tipo de prática. O conjunto de práticas que muitas vezes se rotula como “agroecologia” – que é um conceito muito elástico – é algo que também podemos colocar nesse arquipélago de inovações. 

Mas o que falta? Em primeiro lugar, falta termos de maneira partilhada a transição do sistema agroalimentar. Por exemplo, quando se fala de transição energética, todo mundo vai dizer: para ter transição energética, precisamos superar a dependência de combustíveis fósseis. Tem uma discussão ou divergência sobre o tempo e o caminho, mas o centro do debate é o chamado phase-out, ou a transitioning away, deixando para trás o petróleo. Precisamos urgentemente ter algo similar para o caso do sistema agroalimentar.

Deveríamos cada vez mais falar que precisamos de um phase-out ou de uma transitioning away, deixando para trás esse modelo convencional baseado em insumos químicos, intensificação e consumo de ultraprocessados. É sobre compartilhar um diagnóstico.

O segundo ponto é que precisamos incentivar essas inovações e desincentivar o convencional. Hoje esse é o problema. Não se está substituindo uma coisa pela outra. As duas coisas estão existindo simultaneamente, e não vamos ter transição se uma coisa não substituir a outra. Isto é, se a agropecuária regenerativa ou a agroecologia não substituírem o modelo convencional. Se você pegar o Plano Safra, que é o principal instrumento de financiamento da agricultura brasileira, você vai ver que a esmagadora maioria dos recursos vai para o convencional. E um percentualzinho vai para a agricultura de baixo carbono. Não vai funcionar, porque significa exatamente isso: você está colocando um caminhão de dinheiro no convencional e um pouquinho no inovador. Claro, não dá para fazer essa mudança do dia para a noite, mas é preciso ter uma progressividade. 

Em terceiro lugar, precisamos trabalhar com um uso forte do conceito de agropecuária regenerativa, porque você vai ver organizações do setor empresarial dizendo cada vez mais: “Nós temos que praticar uma agricultura ou uma agropecuária regenerativa”. Excelente. Todos estamos de acordo com isso, mas isso não resolve o problema da transformação e do consumo. Você pode ter uma agropecuária regenerativa que produza soja para virar matéria-prima para ultraprocessados. Ou seja, não vai existir uma alimentação saudável só com a agropecuária regenerativa. Isso é o feijão da feijoada. Sem agropecuária regenerativa não tem sistema agroalimentar sustentável, mas só ela é insuficiente para o sistema agroalimentar sustentável.

Tem também muita gente usando a expressão “agropecuária regenerativa” para fazer referência a um uso tópico de uma ou outra tecnologia. Por exemplo, vão dizer “fazemos plantio direto, isso é agropecuária regenerativa”, mas usa vários insumos químicos ou faz irrigação desperdiçando os recursos hídricos de um determinado ecossistema local. 

Não é uma tecnologia ou outra. O que nos permite dizer que é uma agropecuária regenerativa é contribuir – como o próprio nome diz – para a regeneração da capacidade de um ecossistema em continuar prestando serviços essenciais para a vida humana, como o fechamento do ciclo de determinados elementos químicos como carbono e nitrogênio, a formação dos ciclos de armazenamento e circulação dos recursos hídricos, a regulação térmica e o regime de chuvas. Há uma série de processos naturais dos quais a vida humana e a própria agropecuária dependem. A produção precisa de chuvas e regulação térmica. 

Desse modo, o que eu chamo de uso forte da expressão agropecuária regenerativa não é apenas uma tecnologia, mas um conjunto de práticas – tecnologias e sistemas de fiscalização e de regulação que contribuem para a regeneração dos ecossistemas. Não adianta usar bioinsumos e continuar desmatando a Amazônia. Isso não é agropecuária regenerativa e não pode ser considerada como. Isso eu chamo de uso fraco da expressão.

Irrigação de uma platação de feijão em Avaré, no interior de São Paulo. Foto: José Reynaldo da Fonseca/Wikipédia.

Voltando um pouco também na questão dos limites planetários, como essa transformação do sistema agroalimentar pode fazer um uso mais racional dos recursos como a água, por exemplo?

Os estudos mostram que áreas de cobertura florestal próxima ou no interior das próprias fazendas têm um impacto na produtividade, porque há mais umidade. No caso da produção rural, a sombra das árvores e da floresta gera conforto térmico aos animais e a menor necessidade de consumo de água. Esse é um exemplo.

Outro que acho muito importante é que, no momento em que a questão hídrica vai se tornando tão relevante quanto o aquecimento global em termos ambientais ou tão ou mais que os conflitos por terra, que historicamente no Brasil sempre foram predominantes, precisamos ter uma regulação da atividade agropecuária. Esse setor é muito exigente em consumo de água. Por isso, é necessário melhorar a legislação e fiscalização sobre como estão sendo utilizados os recursos hídricos para a irrigação. 

Por fim, de forma muito direta, precisamos interromper o desmatamento, seja legal ou ilegal, imediatamente. Já sabemos que o desmatamento do Cerrado e da Amazônia tem levado a mudanças do regime de chuvas. Alguns estudos dos colegas da Embrapa já mostram que em algumas áreas do Cerrado se produz atualmente no limite da disponibilidade hídrica. Se chover um pouquinho menos – e a tendência é essa por conta do desmatamento e do aquecimento global –, só vai ser viável continuar produzindo nessas regiões com irrigação. E isso causa dois problemas: terá que usar mais água e os custos pelo próprio setor agropecuário – retirar água do solo custa em equipamentos, energia e etc. É falso o argumento de que melhorar a gestão ambiental prejudica a competitividade agropecuária. Pelo contrário, porque é melhorada a disponibilidade hídrica, reduzindo o custo da irrigação.

A gestão agregada – nacional e internacional – da questão ambiental é fundamental para a regulação do regime de chuvas e, portanto, para a disponibilidade hídrica.

  • Tainah Ramos

    Jornalista com experiência em cobertura socioambiental na América Latina. É formada em Jornalismo pela Universidade de São Paulo (USP) e estudante de Geografia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Tem reportagens publicadas no UOL e na InfoAmazonia.

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