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A Rio+20 foi um fracasso? Depende de nós

O texto aprovado foi pouco ambicioso, mas a Rio+20 não pode ser considerada uma derrota, devido às iniciativas e debates que catalizou

Paulo Barreto ·
22 de junho de 2012 · 9 anos atrás
Não conte com a iniciativa dos líderes mundiais. Foto: UN Photo Conference.
    • O prefeito do Rio de Janeiro propôs a isenção de impostos municipais para construções que adotem medidas para reduzir consume de água e energia. A bola está agora com a Câmara de Vereadores;
    • O governador do Pará se comprometeu a zerar o desmatamento até 2020;
    • Os prefeitos das 59 maiores cidades do mundo (agrupadas na iniciativa C40) se comprometeram a reduzir suas emissões de gases do efeito estufa em cerca de 1,3 bilhão de toneladas até 2030;
    • O Banco Central vai disponibilizar para consulta pública duas normas sobre a política de responsabilidade socioambiental e sobre a elaboração e divulgação de relatório de responsabilidade socioambiental por parte das instituições financeiras;
    • O Conselho Empresarial da América Latina propôs isentar de impostos as empresas que produzem energia renovável;
    • O Conselho do Fórum de Bens de Consumo, que reúne as grandes multinacionais deste setor, anunciou o compromisso de eliminar o desmatamento de sua cadeia de suprimento até 2020. Ou seja, empresas como Unilever, Walmart, Tesco (rede de supermercados britânica) boicotarão soja, óleo de dendê, carne e celulose e seus derivados de áreas que contribuam para o desmatamento.

Esses e outros compromissos são confiáveis e suficientes? Certamente algumas das promessas fazem parte da maquiagem verde que visa a esconder problemas, mas outras são genuínas. A pressão social e legal tem feito algumas empresas e governantes entenderem que é inaceitável continuar práticas destrutivas. Além do mais, muitas empresas sabem que só será viável crescer aumentando a eficiência. Já consumimos hoje mais do que o planeta pode aguentar.

Todas as iniciativas prometidas na Rio+20 são insuficientes, mas elas podem criar o impulso para uma transformação mais ampla. O diretor geral da Unilever, Paul Polman, que é do Fórum de Bens de Consumo, resumiu bem o processo em entrevista ao jornal The Guardian:

“Nos próximos dois ou três anos, acredito que haverá suficiente massa crítica com grupos de países e empresas começando projetos concretos. Como em muitos programas de mudança, quando você cria algum sucesso em torno de algum projeto concreto específico, isto atrai outros. Existem líderes, seguidores e retardatários em tudo.”

Enfim, creio que ainda é cedo para fazer o balanço da Rio+20. Se apoiarmos e cobrarmos as mudanças planejadas e prometidas talvez se atinja massa crítica para um desenvolvimento mais sustentável em escala global.

Cada um pode fazer a sua parte, como nos exemplos abaixo:

    • Jornalistas poderiam fazer uma lista destes compromissos e sistematicamente cobrir o desempenho das empresas e governos. Em vez de esperar a divulgação de novo recorde de desmatamento para tratar deste tema, a cada semestre algum jornalista pode perguntar ao diretor do Walmart no Brasil como anda a implementação do plano para evitar a compra de gado de áreas desmatadas ilegalmente.
    • Estudantes universitários podem comparar a lista de compromissos com os relatórios de responsabilidade social das empresas ou outros indicadores de desempenho relevante de cada compromisso como as emissões de gases do efeito estufa, a taxa de desmatamento, ou o financiamento para economia verde no caso dos bancos.
    • Indivíduos e ONGs poderiam lançar campanhas nas redes sociais na internet para parabenizar ou criticar o desempenho dos compromissos.
    • Devemos demandar que o Congresso aprove a desoneração da energia renovável.

E você, o que vai fazer?

Texto publicado originalmente no blog Rio+Tudo, do portal Terra.

 

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    Sonha com um mundo sustentável e trabalha para que este desejo se torne realidade na Amazônia. É pesquisador Sênior do Imazon.

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Comentários 2

  1. Aristides Arthur Soffiati Netto diz:

    Devemos creditar aos povos indígenas o pioneirismo na abertura de trilhas que, posteriormente, serão aproveitadas pelos europeus nas chamadas estradas gerais e sua ramificações, como mostra Capistrano de Abreu em “Caminhos antigos e povoamento do Brasil” (1930). Os povos indígenas usavam essas picadas para a prática de uma economia de subsistência bastante robusta. Com os europeus e seus descendentes, a economia de mercado, ainda que precária, produziu desmatamento, ataques à fauna nativa e extermínio de indígenas.


  2. Raphael Albino diz:

    O Eduardo Bueno, do canal Buenas Ideias no Youtube possui um excelente vídeo sobre essa trilha e as aventuras que alguns personagens da nossa história passaram por ela.