Manaus é hoje a 10ª maior região metropolitana do Brasil com 2.2 milhões de habitantes, segundo o IBGE. O coração da Amazônia, como gosta de ser conhecida, é ao mesmo tempo grande centro econômico e ferida na floresta. Sofre com trânsito caótico, poluição dos igarapés, rios e bacias, especulação imobiliária e crescimento horizontal que adentra a mata. A fauna que habita seu entorno sofre com o atrito da cidade, com a caça e o tráfico ilegal de animais.
Para amenizar esse conflito em que sempre perdem os animais, Manaus mantém dois Centros de Triagem de Animais Silvestres (CETAS), cuja função e acolher animais resgatados pelos órgãos ambientais ou entregues pela população. Um deles está dentro do Refúgio da Vida Silvestre Sauim-Castanheiras, uma Unidade de Conservação de proteção integral, gerida pelo Município. O outro se encontra dentro da sede do IBAMA na cidade. Com poucos recursos, os veterinários e tratadores desses centros realizam um trabalho formidável de cuidar de ferimentos físicos e traumas, na tentativa de reintroduzir os animais à natureza.
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Sem recursos
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“Nossas dificuldades são muitas. A maior talvez seja falta de profissionais disponíveis. Faltam veterinários, biólogos e tratadores em número suficiente”, diz Diogo Cesar Lagroteria, único veterinário do Ibama no estado do Amazonas. Ele é obrigado a dividir seu tempo entre trabalhos administrativos, de fiscalização e de cuidar dos animais do CETAS/Ibama. Diogo sonha com o engajamento e parceria de universidades, instituições de pesquisa e iniciativa privada como uma saída para fortalecer os centros, mas esta não é a realidade. “Com a falta de gente, estrutura e verba, fica difícil desenvolver um trabalho que não seja quase sempre emergencial”, diz.
O outro CETAS de Manaus, o Saium-Castanheiras sofre das mesmas mazelas. A estrutura deste centro é satisfatória, mas também esbarra na falta de pessoal e verbas para manutenção e melhorias. Segundo o veterinário responsável, Laérzio Chiesorin Neto, o Saium-Castanheiras tem 18 funcionários, dos quais apenas 1 veterinário e 3 tratadores. Esse paranaense que escolheu dedicar a vida ao tratamento de animais amazônicos levou a reportagem de ((o))eco para um tour que mostrou parte dos 170 animais “hospedados” neste CETAS. Sob os cuidados da sua equipe, há cobras, araras e macacos, além de um belíssimo Gavião-Real.

| (Esquerda) Laérzio e um Macaco-de-Cheiro. Esse tipo de animal é frequente no CETAS, pois são capturados para “estimação” e depois de adultos renegados. (Direita) Diogo Lagroteria segura um filhote de Macaco-Barrigudo. |
Um dos problemas recentes do Sauim-Castanheira decorre de modificações na legislação ambiental promovidas pela Lei Complementar 140 (Dez/2011). por ela, a competência da gestão da fauna divide atribuições entre união, estado e municípios. Katia Schweickardt, secretária municipal de Meio Ambiente, vê com preocupação a situação do CETAS Sauim-castanheiras: “o município está saindo da gestão da fauna”, disse. “Para cuidar dos animais a gente precisa de recursos. (…) A gente [o município] entrou em entendimento com o governo do estado e vamos apoiar a manutenção do CETAS se o estado assumir itens como alimentação, medicação dos animais e quadro funcional”.
“Sortudos” e “azarados”
O CETAS Sauim-castanheiras recebe com maior frequência macacos (principalmente macaco-prego) de pessoas que os pegaram filhotes para criar e descobriram que, quando crescem, se tornam agressivos. Outro caso é o de animais que foram feridos por pessoas. Uma cobra Jiboia chegou ao refúgio esfaqueada e lá estava se recuperando para ser devolvida à floresta. Um gavião-real se recuperava de um tiro no pescoço. O animal foi resgatado na BR-174 e ninguém sabe a causa do tiro, mas a recuperação demorou 1 ano (logo após a visita de ((o))eco, o Gavião foi solto na mata). “Infelizmente o animal não foi marcado ou monitorado, mas parecia apto e a expectativa é de que se vire bem na mata”, disse Laerzio. Desde 2009, o Sauim-Castanheiras já atendeu mais de 3.200 animais, com uma taxa de retorno à natureza perto de 70%.
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Mas a sorte não sorri para todos. O filhote de onça-parda teve sua mãe abatida por caçadores e chegou ao CETAS do Ibama em boas condições de saúde, com aproximadamente 2 meses de idade. Agora com 6 meses, as chances de ser reintroduzido na natureza são mínimas. O felino aprende suas habilidades de caçador com a mãe e o filhote não teve essa chance. Segundo Diogo Lagroteria, uma onça em cativeiro está “ecologicamente morta”. Esta pequena onça-parda está fadada a longa espera por um lugar em um zoológico ou por um criador autorizado.
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*Matéria editada em 17/05/2013 às 15h22
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