Análises

Gado na Amazônia é ameaça ao bioma, aos povos tradicionais e ao próprio setor

Presidente sugere abrir terras indígenas para a pecuária, como forma de baixar o preço da carne. Ideia não se sustenta nem do ponto de vista econômico

Lucas Ferrante ·
19 de dezembro de 2019 · 2 anos atrás
Fazenda de Gado em Vista Alegre do Cupim. Foto: Marcio Isenseee e Sá.

Nesta quinta-feira (19/12), o presidente Bolsonaro sugeriu que as terras indígenas fossem abertas para a pecuária como forma de diminuir o preço da carne. A Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, já havia defendido a pecuária não apenas em terras indígenas, mas em unidades de conservação. O que tanto o Presidente da República, como a Ministra da Agricultura parecem não ter compreensão, é que o Brasil não precisa liberar a pecuária em terras indígenas e unidades de conservação, pois existem terras ociosas em outras partes do país que permitem o aumento da produção sem que a pecuária avance sobre a floresta Amazônica e outras áreas fundamentais para a conservação da biodiversidade e serviços ecossistêmicos, como demonstrado no estudo publicado pela renomada revista Global Environmental Change por pesquisadores da PUC e da Embrapa.

Em 2017, coordenei um estudo publicado na revista cientifica Journal of Biogeography, que mostrou que a pecuária é um dos cultivos mais nocivos à floresta, pois os pastos permitem que os ventos ganhem velocidade da paisagem, afetando severamente a estrutura da floresta adjacente, causando a mortalidade de árvores e abertura de clareiras, além da presença do gado destruir a vegetação nativa e o pisoteio dos animais assorear corpos d’agua e nascentes e impedir o recrutamento de novas plantas na área.

Bolsonaro sugeriu que as terras indígenas fossem abertas para a pecuária como forma de diminuir o preço da carne. Foto: Alan Santos/PR.

O estudo ainda demonstrou uma alteração severa na composição de espécies, causando extinções locais em áreas de floresta circundadas pela pecuária. Desta forma, fica claro como não apenas defender a pecuária em terras indígenas e unidades de conservação é uma medida desnecessária, mas que tal liberação pode causar grandes danos ambientais nestas áreas sem que exista uma justificativa real para isso. De fato, conservar as terras indígenas e unidades de conservação, é um fator essencial para a agricultura brasileira, como parecem desconhecer o Presidente Bolsonaro e a Ministra da Agricultura, mas que já foram apontados por vários estudos científicos que estas áreas garantem os serviços ecossistêmicos que regulam as chuvas das regiões Sul e Sudeste do país, influenciando diretamente a produção agrícola do Brasil.

Este ano, através de um estudo publicado na revista científica Environmental conservation, que é editada pela Universidade de Cambridge, eu e o prêmio Nobel Philip Fearnside apontamos como o atual governo de Bolsonaro e Tereza Cristina junto com os ruralistas, visam expandir a pecuária e soja para estas áreas, tendo extremo prejuízo para os serviços ecossistêmicos e regulação das chuvas do país. No mesmo estudo, ainda apontamos as fronteiras da pecuária na Amazônia, como as áreas com maior concentração de grilagem e conflitos de terras, além de assassinatos a ambientalistas, indígenas e pequenos produtores rurais.

Estas informações, que estão descritas em revistas cientificas, cujos estudos foram revisados por outros cientistas, demostram não apenas que o gado na Amazônia é uma ameaça para o bioma, mas que liberar a pecuária em terras indígenas e unidades de conservação é um golpe fatal aos povos indígenas e tradicionais, além da sanção de perda massiva de biodiversidade e desrespeito aos acordos internacionais de clima e floresta. O Brasil tem caminhado para uma agropecuária obscura, que visa se expandir às custas dos povos tradicionais e meio ambiente e isso irá impactar o próprio mercado internacional da pecuária. Tais medidas de liberação da pecuária em unidades de conservação e terras indígenas, se tomadas, poderiam mudar o atual slogan do “agro é pop” para o slogan “o agro não poupa ninguém”.

O acesso ao link para cada um dos artigos mencionados está no próprio texto nos nomes das revistas.

Referencias:

  • Strassburg et al. When enough  should  be  enough:  Improving  the  use  of  current agricultural  lands  could  meet  production  demands  and  spare  natural habitats  in  Global Environmental Change, v. 28, p 84–97, 2014.
  • Ferrante et al. The matrix effect: how agricultural matrices shape forest fragment structure and amphibian composition. Journal of Biogeography, v. 44, p. 1911-1922, 2017.
  • Ferrante & Fearnside. Brazil’s new president and “ruralists” threaten Amazonia’s environment, traditional peoples and the global climate. Environmental Conservation, v. 46, p. 1-3, 2019.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.
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  • Lucas Ferrante

    Doutorando em Ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA)

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Comentários 3

  1. Hélio diz:

    O interesse em liberar a pecuária na Amazônia não é sobre a pecuária, é sobre a mineração. A intenção é concentrar terras riquíssimas em minérios estratégicos nas mãos dos financiadores da bancada ruralista, os maiores lobbistas do país.


  2. Álvaro Rolim Guerra diz:

    Vejo essa relação do "baixar o preço da carne" ao "pecuária em terras indígenas" muito perigosa também para a opinião pública. Com essa premissa é fácil induzir o cidadão-médio, ávido por manter seu padrão de alimentar, a não endossar causas ambientais.


  3. Paulo diz:

    Mais uma do Presidente. Dito "boi de piranha", para desviar o foco.