Análises

Humanidade primata

Será que nossa organização social nos fez evoluir até o ponto em que nos imobilizou? Quando o macaco nu parou de se enxergar como parte da natureza que ele mesmo destrói?

Marina T. Zaluar · Julia Niemeyer ·
10 de junho de 2022

Com um traço debochado, o renomado zoólogo Desmond Morris nomeia o Homo Sapiens como o macaco nu em seu livro “The naked ape”. Morris disserta a respeito das características evolutivas do homem, abordando teorias e hipóteses para cada característica física e comportamental adquirida e enfatizando nossa animalidade. Com visão tridimensional, capacidade de manipular objetos e o cérebro em crescimento, nossos ancestrais primatas arborícolas desenvolveram alta capacidade de domínio na copa das árvores. Quando os primeiros macacos terrestres surgiram, a postura passou a ser ereta e as mãos, antes utilizadas principalmente na locomoção, passaram a manipular objetos. Enquanto isso, o cérebro, já bem complexo, desenvolveu a capacidade de organização social, importante para a caça. A organização social tornou-se hierárquica para o melhor desempenho na caça e defesa territorial, sendo necessários líderes mais fortes para comandar os grupos. Formaram-se pares familiares e relações de cooperação nos grupos para domínio hierárquico dos infantes. Muitas dessas características biológicas, o domínio da cooperação na caça em grupo, aliado ao domínio de armas artificiais, tornaram o macaco nu um exímio caçador, diminuindo sua competição com outros animais eficazes caçadores como cães, gatos e lobos, porém, levando outras espécies à extinção. 

Uma das teorias vigentes sobre o declínio da megafauna no Quaternário está diretamente relacionada com a chegada do homem em cada continente e à caça para subsistência. A mesma característica de exímios caçadores capazes de causar a extinção biológica narrada por Desmond é destacada, e nos faz refletir sobre nosso modo de vida e organização em sociedade atual que tem o potencial de levar à extinção inúmeras espécies, incluindo a nossa. Dentre as principais causas dos problemas ecológicos da atual sociedade desenvolvida é o crescimento populacional desenfreado. A globalização e modernização tecnológica progrediram de formas desconexas com o meio ambiente, e a superexploração, o agronegócio e o desenvolvimento urbano são as maiores causas de perda de biodiversidade mundial. Não à toa que a era atual é chamada de Antropoceno, definida pela época geológica diretamente relacionada aos impactos dos humanos na Terra.  

Sob essa narrativa, podemos destacar o caso da Ilha de Páscoa no Chile, no extremo do oceano pacífico. Os primeiros habitantes da ilha eram agricultores e desmatavam a floresta que os cercava para utilizar madeira para muitas finalidades, principalmente para construir as inúmeras e enormes estátuas, característica marcante da Ilha que hoje atraem turistas do mundo todo. Com o crescimento populacional exponencial e desmatamento desenfreado, aliado ao fato de as ilhas serem ambientes fechados e isolados, o meio ambiente foi sendo modificado até atingir o ponto crítico, ou ponto de ruptura, no qual o equilíbrio do ecossistema é perdido. Hoje gramíneas substituem a floresta úmida original. Infelizmente, esse processo ocorre em ecossistemas do mundo todo. Na Amazônia, se o desmatamento atingir ≥40% poderá haver um processo de desertificação que levará a floresta ao ponto crítico. Inúmeros focos de incêndios e o avanço da agricultura assolam a Floresta Amazônica e vemos o ponto de ruptura se aproximar, impactando sua imensa biodiversidade e o clima e ecossistemas globais. Muitos pesquisadores sugerem que já atingimos o ponto crítico ambiental mundial e que a estabilidade socioeconômica não mais é possível. 

Devemos nos lembrar que apesar de nossas características biológicas primárias, é evidente a nossa evolução de domínio da racionalidade e reconhecimento dos nossos próprios erros. Nos remetermos aos nossos ancestrais e nossas raízes biológicas que nos moldam e explicam padrões podemos a partir daí começar o nosso maior desafio: mudar esses padrões. Nos apropriar dos erros passados e aprender com eles para não mais cometê-los. 

Desmond deixa claro a complexidade biológica e evolutiva da nossa espécie, mas acentua a importância de revermos nossa trajetória dali para frente. Essa trajetória é pautada no crescimento populacional exponencial, e desenvolvimento tecnológico e consumismo desenfreados, o que chamamos de constante progresso. Qual será o limite desse progresso e quem de fato progride dentro de nossa sociedade? 

Desmond em 1967 já enfatizava que se nossas atitudes não mudarem, caminharemos para extinção biológica não só da nossa própria espécie, como de muitas outras ao longo do caminho. Para frear a destruição ambiental iminente que nós mesmos estamos criando, de nada adianta medidas de desenvolvimento sustentável se o crescimento populacional não for controlado. De fato, desde 1800 o número de pessoas aumentou em 7 vezes, e levou cerca de 1 milhão de espécies à extinção. 

Na natureza, interações entre espécies, como predação e competição, controlam e equilibram o crescimento populacional das espécies, evitando a superexploração e esgotamento de recursos naturais. Ao contrário das demais espécies, o macaco nu não conta com esse tipo de controle biológico e o avanço da medicina retarda cada vez mais as mortes por doenças e envelhecimento natural. Contudo, ao longo da história, a população humana tem sido controlada por uma série de agentes patogênicos e surtos de vírus, tais como a peste bubônica, a varíola, o HIV, o Ebola e o H5N1, que podem ser parcialmente atribuídos aos impactos humanos na natureza. O tamanho da população hospedeira e a distribuição espacial são dois dos processos ecológicos que influenciam o impacto, a propagação e a persistência de agentes patogênicos. A superpopulação, a destruição do habitat e as mudanças climáticas contribuem para os agentes patogênicos se proliferarem. Mais recentemente, o novo Coronavírus levou milhões de seres humanos à morte, afetando gravemente as economias globais.  Esta pandemia é um reflexo de que a saúde e o bem-estar humanos estão intimamente ligados à saúde do ecossistema. 

A população humana contemporânea está sofrendo as consequências das suas próprias escolhas e ações, que desencadearam uma grave crise socioeconômica, e o aumento das taxas de poluição, de doenças e de eventos extremos do clima. Se continuarmos seguindo o caminho socioeconômico atual, ou nos extinguiremos destruindo o nosso habitat e esgotando os recursos naturais, ou ocorrerão surtos de doenças até determinado ponto da história que nos impedirá de o fazer. As consequências da destruição dos ecossistemas já podem ser sentidas mundialmente. Teremos de atingir o ponto crítico, em que não há retorno, para agir coletivamente para o bem comum? Vimos a evolução de nossas relações sociais, mas será que o macaco nu virou uma espécie solitária em que o individual ultrapassa o coletivo? Será que nossa organização social nos fez evoluir até o ponto em que nos imobilizou? Quando o macaco nu parou de se enxergar como parte da natureza que ele mesmo destrói? 

Recordar nossa história nos indica os caminhos que precisamos percorrer e quais devemos evitar que ela se repita. A questão é: o macaco nu consegue aprender com os erros do passado? Para criar uma curva na história, devemos retomar nossa característica de cooperação e pensar e agir como populações da mesma espécie, não como indivíduos desconectados entre si e com o meio em que vivem. 

Agradecimentos: Agradecemos ao Dr. Tiago Teixeira, Dra. Camila de Barros e MSc. Luisa Genes pelas valiosas sugestões para este artigo. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) pela bolsa de doutorado de MTZ (nº 001) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico pela bolsa de doutorado da JN (nº 380924/2018-8).

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As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Marina T. Zaluar

    Doutora pelo Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGE), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Laboratório de Vertebrados, Departamento de Ecologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro

  • Julia Niemeyer

    Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGE), Universidade Federal do Rio de Janeiro, Brasil. Laboratório de Vertebrados, Departamento de Ecologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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