Análises

Quem decide o destino de bilhões em políticas ambientais no Brasil?

Os bastidores da definição dos indicadores da biodiversidade e porque, na nossa opinião, o processo foi falho

Janaina Gomes-da-Silva · Hani Rocha El Bizri ·
3 de setembro de 2026

Há uma pergunta que raramente aparece nos debates sobre conservação da natureza, embora influencie diretamente quais políticas serão priorizadas, quais instituições ganharão protagonismo e como bilhões de reais serão direcionados na proteção da biodiversidade no Brasil e no mundo: quem decide o que e como será medido e quais indicadores orientarão as prioridades de investimento e as políticas públicas?

À primeira vista, a resposta parece simples. Cientistas desenvolvem indicadores, governos os utilizam e organismos internacionais acompanham os resultados. Mas a realidade é muito mais complexa. Indicadores de biodiversidade não são apenas números. São instrumentos que transformam objetivos amplos, como reduzir o desmatamento, recuperar ecossistemas degradados, proteger espécies ameaçadas ou garantir o uso sustentável da biodiversidade, em métricas capazes de avaliar desempenho, comparar o progresso dos países, orientar políticas públicas e justificar investimentos.

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Por isso, indicadores não apenas medem a realidade, mas a forma como são escolhidos define quais dimensões da conservação serão reconhecidas pelas políticas públicas e quais permanecerão fora das estatísticas oficiais. Em outras palavras, os indicadores não apenas descrevem a realidade, eles ajudam a construí-la. Imagine que um governo anuncie que vai recuperar florestas, proteger espécies ameaçadas e reduzir a perda de biodiversidade. Como saber se isso realmente aconteceu? A resposta está nos indicadores. Um indicador pode mostrar quanto da vegetação foi recuperada. Outro pode medir se determinada espécie continua desaparecendo ou se está se recuperando. Outro pode acompanhar quanto dinheiro está sendo investido na conservação de espécies ameaçadas. Sem indicadores, metas ambientais são apenas promessas. Sem indicadores robustos e representativos, metas ambientais tornam-se promessas difíceis de avaliar, comparar e aperfeiçoar.

É justamente por reconhecer essa importância que a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) dedica enorme atenção ao desenvolvimento de metas de biodiversidade e sistemas de monitoramento baseados na utilização de indicadores de biodiversidade. A CDB foi aberta para assinatura durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92) e entrou em vigor internacionalmente em 29 de dezembro de 1993, após atingir o número necessário de ratificações. O Brasil aderiu formalmente à Convenção em 1998.

Líderes assinam declaração conjunta na Eco92, no Rio de Janeiro, em 1992. Entre elas, a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). Foto: Michos Tsovaras/ONU

A CDB constitui um dos principais tratados ambientais multilaterais das Nações Unidas, reunindo atualmente 196 Partes. Como Parte da CDB, o Brasil assumiu compromissos internacionais relacionados à formulação, implementação, monitoramento e avaliação de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade. Entre essas obrigações estão os Relatórios Nacionais, instrumentos exigidos e elaborados a cada quatro anos e destinados a apresentar informações sobre os avanços, desafios e resultados alcançados na implementação dos objetivos, metas e diretrizes estabelecidos pela CDB.

Paralelamente à negociação do novo Marco Global da Biodiversidade, a própria CDB criou grupos técnicos especializados, como o Ad Hoc Technical Expert Group (AHTEG) on Indicators, responsáveis por desenvolver e revisar o sistema de monitoramento e propor indicadores, além de estabelecer critérios para sua seleção e harmonização entre os diferentes países. O objetivo é garantir que os indicadores utilizados pelas Partes sejam suficientemente robustos para permitir comparações internacionais e suficientemente flexíveis para incorporar especificidades nacionais. O próprio processo de construção desses indicadores reconhece que sua legitimidade depende de transparência metodológica, revisão por especialistas, disponibilidade de dados e ampla documentação das decisões técnicas.

Os bastidores

Como país detentor da maior biodiversidade do planeta e protagonista histórico nas negociações internacionais sobre meio ambiente, o Brasil ocupa posição estratégica na implementação da CDB e do Marco Global da Biodiversidade. Por essa razão, a forma como indicadores são construídos, validados e incorporados às políticas públicas transcende o campo técnico, envolvendo questões de governança, transparência, credibilidade científica e responsabilidade institucional.

Foi justamente nesses bastidores que nós, autores deste texto, estivemos envolvidos. Entre 2025 e 2026 participamos como consultores especializados da avaliação, sistematização e proposição de indicadores para a atualização da Estratégia e Plano de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANB), processo conduzido por uma equipe do Departamento de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade (DCBio) do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), no âmbito do projeto GBF Early Action Support (GBF-EAS). O objetivo da consultoria era contribuir para que o Brasil desenvolvesse um sistema nacional de indicadores cientificamente consistente, metodologicamente robusto e alinhado às diretrizes internacionais do Marco Global da Biodiversidade. Esperávamos participar de um processo técnico exigente, como determina qualquer sistema nacional de monitoramento. O que encontramos, porém, revelou algo maior do que dificuldades operacionais ou divergências científicas. Ao longo da execução da consultoria, tornou-se evidente que a disputa pelos indicadores também era uma disputa sobre quem controla o processo decisório, quem define os critérios metodológicos, quem valida as evidências produzidas e, em última instância, quem exerce influência sobre políticas públicas e recursos destinados à biodiversidade.

O caso brasileiro: um processo comprimido – e potencialmente enviesado

Dentro da CDB, o processo de definição de metas nacionais e de indicadores ocorre por meio da atualização das Estratégias e Planos de Ação Nacionais para a Biodiversidade (EPANBs). No Brasil, o desenvolvimento da EPANB foi coordenado por uma equipe do DCBio, citada anteriormente, com parceria e suporte de membros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), conforme definido no Decreto nº 12.485.

A coordenação da EPANB conduziu, entre 2023 e 2024, um processo participativo que incluiu consulta pública e oficinas setoriais, culminando na elaboração de uma proposta de 23 metas nacionais de biodiversidade para 2030 formalizada pela Resolução da Comissão Nacional da Biodiversidade (CONABIO) nº 09, de 28 de novembro de 2024.

Se, por um lado, uma leitura breve já evidencia a complexidade envolvida no cumprimento dessas metas, o que se reflete na necessidade de múltiplos indicadores, por outro torna-se igualmente claro o nível de rigor e aprimoramento necessários para que os indicadores de biodiversidade no Brasil sejam efetivos.

As consultorias para indicadores da EPANB tinham, portanto, uma função muito vital. Os Termos de Referência (TdRs) definiam que cabia aos consultores avaliar criticamente os indicadores existentes, identificar lacunas, desenvolver novos indicadores em resposta a estas lacunas, harmonizar metodologias, construir uma estratégia nacional de monitoramento e garantir coerência técnica ao conjunto do sistema. Essa função era particularmente importante porque cada uma das 23 metas envolvia equipes distintas, diferentes instituições produtoras de dados, múltiplas bases de informação e dezenas de especialistas. Sem um processo de integração transversal, o resultado dificilmente constituiria um sistema nacional coerente. Os consultores também deveriam atuar como instâncias independentes de identificação e definição de indicadores. Essa independência não era um mero detalhe administrativo, mas precisamente o mecanismo criado para reduzir conflitos de interesse inerentes à construção de indicadores. A expectativa, portanto, era que o trabalho técnico se concentrasse justamente naquilo que justificava a contratação de especialistas independentes. O que encontramos, porém, foi bastante diferente. O processo de construção dos indicadores começou apenas em agosto de 2025, quando diversos países participantes do programa GBF Early Action Support já haviam concluído, ou estavam concluindo, etapas equivalentes de revisão de seus sistemas nacionais de monitoramento. Isso significava que um trabalho bastante complexo precisaria ser desenvolvido em poucos meses, sob forte pressão temporal.

Embora os TdRs previssem atividades de articulação institucional, o que se observou na prática foi a necessidade de suprir lacunas que pareciam decorrer de um processo preparatório ainda incompleto. Grande parte das interações entre órgãos governamentais, especialistas, instituições de pesquisa e consultorias temáticas precisou ser construída durante a própria execução da consultoria. Correndo contra o tempo, em cerca de dois meses nós realizamos mais de uma centena de reuniões voltadas não apenas à discussão técnica dos indicadores, mas também à obtenção de informações, mobilização de atores, alinhamento institucional e construção de fluxos de trabalho que, idealmente, deveriam estar parcialmente estruturados antes do início da fase de avaliação dos indicadores. A sensação recorrente era a de que atividades de articulação que normalmente demandariam muitos meses, ou mesmo anos de construção institucional, estavam sendo concentradas em um curto período e absorvidas por uma equipe pequena contratada para desempenhar funções predominantemente técnicas de avaliação, proposição e metodologia de monitoramento de indicadores.

O resultado foi uma compressão do tempo disponível para aquilo que constituía o núcleo da consultoria. Esse contexto ajuda a ilustrar um desafio mais amplo da governança ambiental brasileira. O problema nem sempre está na ausência de conhecimento científico ou de especialistas qualificados, mas na dificuldade de criar, com antecedência e estabilidade institucional, os mecanismos necessários para transformar esse conhecimento em políticas públicas consistentes. Quando etapas essenciais de coordenação e articulação permanecem pendentes até as fases finais do processo, parte significativa do esforço técnico acaba sendo desviada para resolver problemas estruturais que deveriam ter sido enfrentados anteriormente. No caso específico da equipe técnica responsável pela coordenação da atualização da EPANB no Brasil, esse cenário evidencia que a articulação necessária para a definição e validação dos indicadores deveria ter sido conduzida de forma contínua e estruturada entre governo, comunidade científica e sociedade civil desde a aprovação das 23 metas nacionais, e não concentrada na fase final do processo nem transferida, em grande medida, às consultorias técnicas. Alternativamente, se parte significativa dessa responsabilidade fosse atribuída às consultorias técnicas, isso exigiria cronograma, recursos e prazo compatíveis com a complexidade da atividade.

Outro aspecto relevante diz respeito aos mecanismos formais de participação e governança previstos para o processo. A própria estrutura institucional da política de biodiversidade brasileira prevê instâncias colegiadas voltadas à discussão e validação de temas estratégicos, como a Comissão Nacional de Biodiversidade (CONABIO). Essa instância é responsável por articular, acompanhar e orientar os compromissos das convenções internacionais. Ou seja, a não utilização dessa instância é particularmente preocupante porque a própria CONABIO foi criada para ampliar a participação institucional, promover transparência e reduzir o risco de decisões excessivamente centralizadas.

No caso da construção dos indicadores da EPANB, observou-se que, apesar de estar previsto no cronograma de atividades oficinas com o CONABIO para validação de indicadores, tal consulta não foi acionada pela coordenação da EPANB. Como consequência, discussões metodológicas relevantes acabaram ocorrendo em ambientes mais restritos, com menor diversidade de atores e menor rastreabilidade das decisões adotadas. O problema não se resume ao cumprimento de procedimentos administrativos, mas à perda de oportunidades para ampliar legitimidade, transparência e qualidade técnica na construção dos indicadores.

As dificuldades observadas, porém, não se limitaram à sobrecarga de atividades de articulação interinstitucional em prazos reduzidos. Ao longo da execução da consultoria, também foram identificados problemas relacionados à governança do processo, à transparência das decisões e à própria relação entre avaliação técnica e tomada de decisão institucional. Em alguns momentos, verificaram-se assimetrias de acesso à informação entre consultores, participação desigual em discussões metodológicas relevantes e ausência de mecanismos claros para registro, justificativa e rastreabilidade de determinadas decisões unilaterais da equipe de coordenação da EPANB.

Buscando reduzir subjetividades, uma das consultoras autora deste texto, responsável pela sistematização das informações recolhidas e avaliadas durante as consultorias, desenvolveu critérios padronizados e uma metodologia estruturada para avaliação dos indicadores, alinhados às diretrizes do Marco Global da Biodiversidade e às boas práticas internacionais de monitoramento. O objetivo era garantir que a seleção e avaliação dos indicadores ocorressem com base em critérios transparentes, comparáveis e cientificamente fundamentados. Esse tipo de abordagem é amplamente recomendado em processos de monitoramento ambiental por preservar a autonomia técnica dos especialistas e, ao mesmo tempo, assegurar coerência metodológica entre diferentes metas e temas.

Na prática, contudo, observou-se que decisões sobre inclusão, exclusão ou reformulação de indicadores nem sempre estavam associadas aos critérios previamente estabelecidos ou às recomendações dos especialistas envolvidos. Em diversos momentos, propostas elaboradas com base na metodologia acordada foram alteradas ou rejeitadas pela equipe de coordenação da EPANB sem que houvesse discussão metodológica formalmente documentada, processo estruturado de revisão ou oportunidade de debate técnico equivalente ao esforço empregado em sua elaboração. Essa situação gerou um desafio recorrente de distinguir os limites entre a necessária coordenação institucional do processo e a preservação da independência técnico-científica das avaliações.

À medida que o trabalho avançava, deixava de ser possível interpretar as dificuldades apenas como consequência dos prazos apertados ou da complexidade inerente à construção de um sistema nacional de indicadores. Ao mesmo tempo, o próprio ambiente de trabalho tornava-se progressivamente mais instável. A composição da equipe técnica mudou durante a execução da consultoria, responsabilidades passaram a ser redistribuídas e diferentes profissionais precisaram assumir tarefas em um processo que já se encontrava em andamento. Aos poucos, reuniões deixaram de acontecer, oficinas previstas no plano de trabalho foram canceladas por decisão unilateral da equipe de coordenação da EPANB, informações necessárias para avaliar diferentes metas deixaram de ser disponibilizadas e a consultora responsável justamente por garantir a coerência metodológica entre os indicadores (citada acima) passou a ser excluída de forma deliberada de discussões essenciais e das oficinas. As decisões continuavam sendo tomadas, mas já não era possível acompanhar de forma transparente quais critérios haviam orientado a escolha de determinados indicadores ou a exclusão de outros.

Todo esse processo culminou em seu momento mais crítico, relacionado à entrega do terceiro produto da consultoria, o qual consolidava meses de trabalho envolvendo dezenas de reuniões com especialistas e técnicos do governo e de outras instituições, a avaliação de centenas de indicadores e a sistematização das justificativas técnicas para sua seleção. Ao invés de recebermos pareceres técnicos e fundamentados que permitissem sua revisão ou aprovação, o produto entrou em um impasse: sua entrega foi bloqueada pela coordenação da EPANB, sem justificativa ou orientação clara sobre as alterações necessárias. Neste sentido, tornou-se evidente para a equipe de consultores que o processo de aceite dos produtos estava sendo utilizado como mecanismo para homologar a lista final de indicadores alinhada aos interesses institucionais da coordenação da EPANB, vinculando a aprovação dos produtos da consultoria à concordância com escolhas que nem sempre refletiam as avaliações técnicas e robustas previamente realizadas. Na prática, a autonomia técnica dos consultores foi esvaziada, uma vez que as avaliações técnicas deixaram de constituir o principal parâmetro para a aprovação dos produtos.

A equipe do Departamento de Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, apesar de exercer o papel de coordenação da EPANB, não detém, isoladamente, as informações nem a responsabilidade sobre todos os indicadores e metas. Nesse contexto, a escolha de indicadores não pode ser tratada como um processo restrito ou centralizado. Trata-se de uma etapa que deve ser conduzida com base em critérios técnicos, transparência e participação ampla, envolvendo academia, sociedade civil, institutos de pesquisa e diferentes órgãos governamentais. Quando esse processo não é conduzido de forma imparcial, deixa de ser apenas técnico e passa a refletir disputas institucionais por visibilidade, poder decisório e acesso a recursos.

Foi nesse momento que compreendemos que o problema deixara de ser apenas operacional. Já não se tratava de produzir melhores indicadores ou de resolver divergências científicas, mas sim de algo muito mais elementar: a integridade do próprio processo. Um sistema nacional de monitoramento só é confiável quando qualquer decisão pode ser reconstruída, discutida e justificada à luz das evidências disponíveis. Quando os critérios deixam de ser transparentes, quando a documentação desaparece, quando produtos deixam de seguir seu fluxo normal de avaliação e passam a sofrer interferência institucional, e quando a equipe de consultores responsável por integrar metodologicamente o sistema já não consegue acompanhar as decisões, deixa de existir a base sobre a qual a própria credibilidade dos indicadores é construída.

Diante de todo este contexto, os consultores formalizaram um impedimento de execução, um instrumento previsto nos contratos que permite registrar oficialmente quando as condições necessárias para realizar um trabalho deixam de existir por motivos que fogem ao controle do contratado. O impedimento de execução não representou uma desistência do projeto, mas o reconhecimento de que continuar significaria assumir responsabilidade técnica por um conjunto de indicadores cuja coerência já não podíamos garantir. 

Tendo este cenário em vista, a coordenação da EPANB e o PNUD poderiam ter restabelecido as condições mínimas de transparência, participação e independência técnica necessárias à continuidade da consultoria. Em vez disso, optaram por dar prosseguimento ao processo sem enfrentar as questões levantadas pelos consultores, preservando um modelo de tomada de decisão cuja consistência técnica já havia sido formalmente questionada.

O Brasil produz ciência. Por que ela não orienta as decisões?

De acordo com o relatório Biodiversity Research in 2024: A Global Perspective with Focus on Latin America (Elsevier, 2024), o Brasil destaca-se como a principal liderança latino-americana na produção científica sobre biodiversidade, respondendo por 43,5% dos artigos publicados na região entre 2019 e 2023 e ocupando a quinta posição mundial em número de publicações na área. Além disso, é um dos países que possui algumas das bases de dados ambientais mais relevantes do mundo. Ainda assim, esse conhecimento nem sempre se traduz em decisões.

Nessa mesma perspectiva, em artigo de opinião recente publicado no Nexo Políticas Públicas, Alfredo Joly (2026) destaca que o Brasil dispõe atualmente de redes científicas consolidadas, sistemas avançados de monitoramento ambiental, como o PRODES, o DETER e o MapBiomas, além de uma crescente integração entre a ciência acadêmica e os conhecimentos dos povos e comunidades tradicionais. No entanto, o autor aponta um paradoxo preocupante: enquanto o conhecimento científico sobre biodiversidade, conservação e sustentabilidade avança de forma consistente, decisões legislativas e políticas públicas repetidamente caminham em sentido contrário, fragilizando instrumentos de proteção ambiental em áreas onde a ciência já demonstrou a necessidade de conservação. Nesse contexto, Joly ressalta, exatamente como nós identificamos, que as decisões públicas devem ser transparentes, responsáveis e comprometidas com as futuras gerações, incorporando de forma efetiva as evidências científicas ao processo de formulação de políticas ambientais

Com o somatório de aspectos discutidos acima, fica claro que a escolha de indicadores não é neutra. Esta escolha implica atribuir a uma instituição o mandato sobre sua produção e gestão de dados. Isso envolve reconhecimento institucional, acesso a recursos e protagonismo nos processos nacionais e internacionais de monitoramento. Não por acaso, os fluxos de financiamento seguem as atribuições institucionais, ou seja, o dinheiro vai para quem é responsável pela geração e manutenção dos dados. Isso transforma a definição de indicadores em um espaço claro, ainda que não declarado, de disputa por protagonismo institucional. Nesse contexto, a centralização das decisões em um único ator não é apenas um problema metodológico, é também um problema de governança.

Mudanças da lista final de indicadores, quando necessárias, deveriam ocorrer mediante debate técnico qualificado, com base em evidências e posicionamento dos especialistas responsáveis, e não por imposição hierárquica ou por afinidade política. Quando a participação de especialistas não se traduz em influência real sobre os resultados, há o risco de que critérios técnicos sejam subordinados a interesses institucionais, com impactos diretos sobre a distribuição de responsabilidades, visibilidade e recursos.

A literatura científica já alertou para esse tipo de problema onde, quando a definição de indicadores ocorre sem uma etapa técnica independente, governos tendem a selecionar métricas que são mais fáceis de reportar ou institucionalmente convenientes, mas que não refletem a realidade ecológica (e.g., Ette & Geburek 2021; Stevenson et al. 2024). Uma análise de 42 países europeus (Ette & Geburek 2021) evidenciou que, quando governos têm liberdade para selecionar indicadores sem cumprir uma etapa técnico-científica obrigatória, acabam escolhendo métricas convenientes institucionalmente, mas desconectadas da biodiversidade real do país. Esse problema compromete a confiabilidade dos relatórios à CDB e a efetividade das políticas públicas decorrentes. O resultado são sistemas de monitoramento que aparentam progresso, mas não capturam as mudanças reais na biodiversidade. Quando as decisões deixam de se basear em evidências, as políticas de conservação perdem eficiência e tornam-se incapazes de direcionar ações coerentes (Achieng et al. 2023). Esse risco é particularmente relevante no contexto brasileiro, onde a diversidade de biomas, pressões ambientais e desigualdades regionais exige indicadores robustos, comparáveis e cientificamente validados.

Além disso, um estudo recente (Affinito et al. 2025) mostrou que os indicadores globais atualmente disponíveis ainda cobrem de forma limitada os objetivos e metas do Marco Global da Biodiversidade. Considerando apenas os indicadores mandatórios, a cobertura completa varia entre 19% e 40%, enquanto uma parcela significativa dos componentes das metas permanece sem indicadores adequados. Além disso, muitos dos indicadores existentes ainda carecem de metodologias consolidadas ou de dados nacionais com resolução espacial e temporal suficiente.

Em maio de 2026, organizações da sociedade civil reuniram-se no workshop “Contando Histórias da Sociedade Civil sobre a Biodiversidade Brasileira”, promovido por redes como o WWF-Brasil, com participação do Instituto de Pesquisas Ecológicas IPÊ e várias instituições. O encontro ocorreu em uma etapa na qual a lista de indicadores preliminar já havia sido consolidada pela coordenação da EPANB para submissão à plataforma oficial da CDB. Nesse contexto, o foco das oficinas concentrou-se principalmente na sistematização de experiências e na construção das chamadas Histórias de Impacto, buscando evidenciar os resultados concretos produzidos pela sociedade civil na conservação da biodiversidade brasileira e complementar, de forma qualitativa, as informações apresentadas pelo país. Ao mesmo tempo, as discussões evidenciaram uma preocupação recorrente entre os participantes, que detectaram a existência de lacunas metodológicas entre aquilo que efetivamente ocorre nos territórios e aquilo que é capturado pelos indicadores oficiais. 

Diversas iniciativas de conservação desenvolvidas por organizações da sociedade civil produzem informações relevantes para o monitoramento da biodiversidade, mas nem sempre encontram correspondência nas métricas adotadas nacionalmente. Entre os exemplos discutidos estiveram projetos de restauração ecológica cujos resultados sobre a recuperação da fauna permanecem pouco representados nos sistemas oficiais de indicadores. Isso sugere que a contribuição de organizações, pesquisadores e demais produtores de conhecimento poderiam ter sido mais efetiva caso tivesse sido incorporada ainda na etapa de construção e seleção das métricas de monitoramento.

Um exemplo concreto pode ser observado no 7º Relatório Nacional do Brasil à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). No indicador A.4. Proportion of populations within species with an effective population size greater than 500 (Proporção de populações de espécies com tamanho populacional efetivo superior a 500 indivíduos), a resposta oficial apresentada pelo país foi simples: “No data available. Brazil is working on developing this index.” (acessado em junho de 2026).

Mas será que o Brasil realmente não possui nenhuma informação disponível? Ou será que existem dados dispersos em universidades, coleções científicas, programas de monitoramento, projetos de pesquisa e grupos especializados que nunca foram adequadamente articulados para subsidiar esse indicador? Houve esforço institucional suficiente para mobilizar esse conhecimento? Foram identificados e envolvidos os especialistas que trabalham diretamente com genética da conservação, viabilidade populacional, modelagem demográfica e monitoramento de espécies?

O que está sendo perdido, e como fortalecer a governança dos indicadores de biodiversidade

Quando essas decisões técnicas são substituídas por critérios não transparentes, os impactos vão além do desenho de indicadores. Perdem a academia e a ciência, que há décadas produzem conhecimento qualificado, mas não veem seus resultados incorporados, e são sistematicamente desconsideradas. Perde a governança pública, que se fragiliza diante dos interesses e disputas políticas e da ausência de transparência e validação independente. Perde a eficiência do gasto público, com recursos direcionados sem base em evidências robustas, apesar da vasta produção científica disponível que poderia orientar decisões mais assertivas, coerentes e sustentáveis. Perde a sociedade como um todo, que investe recursos dos seus impostos na agenda ambiental e depende diretamente da conservação da biodiversidade para enfrentar desafios globais, como as mudanças climáticas. E perde a própria biodiversidade, que deixa de ser monitorada e conservada de forma adequada.

Enquanto decisões continuarem sendo orientadas mais por interesses institucionais e econômicos do que por evidências, o resultado será previsível, com políticas menos eficazes, recursos mal direcionados e uma biodiversidade cada vez mais pressionada. No fim, a discussão sobre indicadores é apenas a superfície de um problema maior. Trata-se de como decisões ambientais são tomadas em um país que concentra uma das maiores biodiversidades do planeta e, ao mesmo tempo, enfrenta pressões econômicas, institucionais e políticas intensas.

Entre as transformações necessárias destaca-se, em primeiro lugar, a construção de uma governança verdadeiramente compartilhada, com definição clara de papéis e responsabilidades entre órgãos governamentais, instituições de pesquisa, sociedade civil e demais atores envolvidos. A avaliação de indicadores de biodiversidade não pode permanecer concentrada, mas deve refletir um equilíbrio técnico e institucional. Da mesma forma, é fundamental estabelecer fluxos diretos, transparentes e contínuos entre as instituições responsáveis pela produção de dados, a coordenação da EPANB e os relatórios encaminhados à CDB, garantindo coerência, rastreabilidade e eficiência no sistema de monitoramento.

Outro ponto central é a criação de um sistema integrado de monitoramento, estruturado como uma rede colaborativa. No Brasil, isso exige investimento contínuo no fortalecimento dos sistemas de monitoramento, ampliação da completude dos inventários de biodiversidade, melhoria na disponibilidade e desagregação dos dados, especialmente em séries históricas, e maior integração entre sistemas já consolidados, como PRODES, Programa Monitora, DETER, MapBiomas, entre outros, que ainda operam de forma fragmentada em relação aos indicadores de biodiversidade. A integração entre bases de dados, com validação cruzada e acesso público, é essencial para assegurar que decisões sejam, de fato, baseadas em evidências e não suscetíveis a pressões políticas. Esse arranjo fortalece a confiabilidade dos indicadores e alinha o país às melhores práticas internacionais.

Além disso, é imprescindível reconhecer que a efetividade desse sistema depende de investimentos contínuos em capacitação e infraestrutura, acompanhados de planejamento orçamentário claro e cronogramas de execução realistas. Nesse contexto, o conhecimento de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais deve ser incorporado de forma efetiva, não como elemento simbólico, mas como parte estruturante das estratégias de monitoramento e conservação.

Por fim, a contratação de consultorias e estudos técnicos precisa garantir independência científica plena. Sem autonomia técnica, o próprio sentido da produção de conhecimento se perde, e com ele, a qualidade das decisões que orientam políticas públicas. Mais do que ajustes pontuais, o que está em jogo é a necessidade de consolidar a política de biodiversidade como uma política de Estado, e não de governo. Isso exige fortalecer mecanismos de comunicação institucional, ampliar o engajamento entre atores e reduzir a vulnerabilidade do tema a mudanças de prioridades políticas.

Ao longo da elaboração deste texto, perguntamo-nos repetidamente qual seria, afinal, nossa legitimidade para narrar essa experiência. A resposta talvez esteja fundamentada menos em opiniões pessoais e mais nos fatos. Participamos de mais de uma centena de reuniões com membros do MMA e outros órgãos do governo, com o núcleo de coordenação da EPANB e PNUD, consultores temáticos, instituições públicas, privadas e especialistas. Tivemos acesso a documentos, discussões metodológicas, fluxos de trabalho e decisões que raramente se tornam públicos. Fomos contratados justamente para avaliar, sistematizar e propor indicadores de biodiversidade para a atualização da EPANB, e produzimos metodologias, análises técnicas e, diante das condições encontradas, formalizamos um impedimento de execução amplamente fundamentado.

Esses fatos não nos conferem autoridade para afirmar que nossa visão seja a única possível. Mas nos conferem, objetivamente, uma posição privilegiada para relatar como aquele processo ocorreu sob a perspectiva de quem participou diretamente de sua construção. Relatar essa experiência não significa transformar um episódio específico em verdade absoluta, tampouco personalizar divergências institucionais. Além disso, ao longo do caminho nos encontramos com profissionais extremamente engajados com a conservação da biodiversidade brasileira, dentro e fora do governo. Essa experiência é uma contribuição para um debate mais amplo sobre governança ambiental, transparência, independência técnica e qualidade dos processos de formulação de políticas públicas que transcendem os fatos vivenciados.

Escrevemos este relato para que qualquer pessoa possa compreender como esses processos são conduzidos, quais dificuldades podem comprometer sua execução e por que essas questões são relevantes para a ciência, para a governança ambiental e para as políticas públicas do país. Os indicadores de biodiversidade não são apenas tabelas ou métricas, eles influenciam prioridades nacionais, investimentos públicos, compromissos internacionais e, em última instância, a forma como o Brasil mede e conduz a conservação de seu patrimônio natural. Se nossa experiência puder contribuir para que processos futuros sejam mais transparentes, participativos e tecnicamente robustos, acreditamos que o dever de compartilhá-la terá sido plenamente justificado.

Notas

Achieng, A. O., Arhonditsis, G. B., Mandrak, N., Febria, C., Opaa, B., Coffey, T. J., … & Kaunda-Arara, B. (2023). Monitoring biodiversity loss in rapidly changing Afrotropical ecosystems: an emerging imperative for governance and research. Philosophical Transactions of the Royal Society B: Biological Sciences, 378(1881), 20220271. https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10225856/

Affinito, F., Butchart, S. H., Nicholson, E., Hirsch, T., Williams, J. M., Campbell, J. E., … & Gonzalez, A. (2025). Assessing coverage of the monitoring framework of the Kunming-Montreal Global Biodiversity Framework and opportunities to fill gaps. Nature Ecology & Evolution, 1-15. https://www.nature.com/articles/s41559-025-02718-3

Ette, J. S., & Geburek, T. (2021). Why European biodiversity reporting is not reliable. Ambio, 50(4), 929-941. https://link.springer.com/article/10.1007/s13280-020-01415-8

Instituto Socioambiental (ISA). Um marco sobre diversidade biológica para chamar de seu. 2024. Disponível em: https://www.socioambiental.org/noticias-socioambientais/um-marco-sobre-diversidade-biologica-para-chamar-de-seu. Acesso em: 25 mar. 2026.

Joly (2026) https://pp.nexojornal.com.br/opiniao/2026/05/27/o-desalento-de-quem-luta-pela-biodiversidade-brasileira. © 2026 | Todos os direitos deste material são reservados ao NEXO JORNAL LTDA.

Ozório, Letícia; Rizzo, Lia. América Latina lidera nas pesquisas sobre biodiversidade — e porque isso é bom para a COP16. Exame, 15 out. 2024. Disponível em: https://exame.com/esg/america-latina-lidera-nas-pesquisas-sobre-biodiversidade-e-por-que-isso-e-bom-para-a-cop16/. Acesso em: 27 mar. 2026.

Stevenson, S. L., Watermeyer, K., Ferrier, S., Fulton, E. A., Xiao, H., & Nicholson, E. (2024). Corroboration and contradictions in global biodiversity indicators. Biological Conservation, 290, 110451. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320724000120

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Janaina Gomes-da-Silva

    Pós-Doutorados no Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro (IP/JBRJ) e na Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC). Mestre e Doutora em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

  • Hani Rocha El Bizri

    Biólogo pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Mestre em Saúde e Produção Animal pela Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e Doutor em Ciências Naturais pela Manchester Metropolitan University, no Reino Unido.

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