A genética acaba de trazer à tona uma nova espécie de felino – a primeira descoberta em mais de um século. Trata-se do “tilcayo”, um parente do gato-do-mato, que vive nas florestas da Bolívia. Ainda envolto em mistérios, o felino foi revelado graças à análises genômicas conduzidas por um time internacional de pesquisadores e batizado pela ciência de Leopardus tilcayo, ou simplesmente “tilcayo”, como já chamavam os locais.
O felino traz diferenças dos outros gatos-do-mato como a pelagem relativamente curta, as rosetas (ou “pintas) maiores, abertas e irregulares, e uma cauda com um padrão diferente de pelagem. Já aos olhos da genética, a diferença é ainda maior, com mais de um milhão de variações genômicas que distinguem o tilcayo dos demais gatos.
O animal vive nas florestas úmidas e montanhosas da Bolívia, ecorregião conhecida como Yungas, na encosta oriental da Cordilheira dos Andes, mas sua área de distribuição completa segue indefinida. A espécie permanece envolta ainda em perguntas básicas sobre ecologia, comportamento, dieta e reprodução.
O felino boliviano é a mais nova adição da família dos felídeos desde 1923, quando foi descrito o gato-palheiro-do-pampa (Leopardus munoai).
“A ecorregião florestal dos Yungas, na bacia dos Andes-Amazônia do Peru, da Bolívia e do norte da Argentina, é uma das áreas com maior escassez de dados nos Neotrópicos. No entanto, essa região possui núcleos de alta diversidade e endemismo, impulsionados por sua topografia complexa e pela heterogeneidade de habitats”, pontuam os pesquisadores no artigo.

De acordo com os cientistas, o tilcayo divergiu da linhagem de outros gatos-do-mato há cerca de 1,4 milhão de anos, durante o Pleistoceno Inferior, período marcado por condições climáticas instáveis que favoreceram o isolamento geográfico.
A descoberta foi detalhada em artigo científico publicado na última semana (17), no periódico Current Biology, com acesso aberto. O estudo fez análises filogenéticas dos pequenos felinos da América do Sul, e analisou 38 genomas completos de felinos do gênero Leopardus. Os resultados revelaram ainda uma nova subespécie, o Leopardus tigrinus antisuyo, que ocorre na transição dos Andes com a Amazônia peruana.
Raio-x genético
O artigo resolve ainda uma longa controvérsia sobre os tiger cats ou os pequenos felinos pintados que são encontrados ao longo da América do Sul. As análises genômicas feitas pelos pesquisadores sustentam o reconhecimento de cinco espécies crípticas, ou seja, que apesar de semelhantes, tratam-se de linhagem muito diferentes geneticamente: o gato-do-mato-pequeno (Leopardus tigrinus), o gato-do-mato-do-sul (Leopardus guttulus), o gato-do-mato-pequeno-do-nordeste (Leopardus emiliae), o gato-tigre-nebuloso (Leopardus pardinoides) e, o recém-chegado no radar científico, o tilcayo (Leopardus tilcayo).
“Esse esclarecimento sobre a taxonomia dos tiger cats tem implicações importantes para a conservação desses pequenos felinos ameaçados. Como a avaliação de riscos e o planejamento de conservação devem ser realizados separadamente para cada espécie ou subespécie, nossos resultados demonstram que cada táxon de tiger cat identificado aqui deve ser avaliado e protegido como uma unidade distinta, o que implica mudanças significativas nas estratégias atuais empregadas para determinar os desafios, metas e prioridades para garantir sua sobrevivência a longo prazo”, reforçam os pesquisadores.
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