Análises

Setor madeireiro do Amazonas cresce à sombra do desmatamento ilegal 

Falhas na fiscalização, ausência de governança e brechas abrem caminho para que madeira de desmate entre na cadeia de produção

Lucas Ferrante ·
19 de dezembro de 2025

Embora o governador do Amazonas, Wilson Lima, tenha destacado durante a COP30, em Belém, o compromisso do Estado com a transição para uma economia verde, análises recentes mostram que a realidade distante dos holofotes do evento é bastante distinta. Um estudo publicado no mês passado no periódico Discovery Sustainability aponta que políticas adotadas durante a atual gestão têm criado condições que favorecem o avanço do desmatamento ilegal e das queimadas no estado do Amazonas.

Associado à fraca fiscalização ambiental por parte do Estado e à ausência de atuação federal nos novos hotspots de desmatamento que avançam na região da BR-319 – como demonstrado pelo estudo publicado no periódico Discovery Sustainability – o polo madeireiro tem registrado um crescimento expressivo em seu faturamento. O setor foi o que apresentou a maior expansão dentro do Polo Industrial de Manaus (PIM) até setembro de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) indicam que o segmento faturou R$ 56,05 milhões entre janeiro e setembro, praticamente igual ao total arrecadado em todo o ano de 2024 (R$ 56,54 milhões), representando um aumento de 38,77%. Esse desempenho até setembro contrasta fortemente com as retrações acumuladas nos dois anos anteriores, que totalizaram 48,3%. Por sua vez, a retração observada no setor madeireiro nos anos anteriores pode ser atribuída às mudanças nas políticas públicas de combate ao desmatamento ilegal implementadas nos primeiros anos do governo do presidente Lula, mas que posteriormente perderam efetividade – conforme demonstrado em estudo liderado pelo biólogo, bacharel e mestre em Direito e doutor em Meio Ambiente Rodrigo Vilani, publicado no periódico Environmental Conservation, editado pela Universidade de Cambridge.

Preocupantemente, e algo que não tem sido noticiado pela mídia tradicional, a cadeia da madeireira no estado do Amazonas está profundamente entrelaçada com esquemas de grilagem de terras e desmatamento ilegal na região, respaldado por agentes estaduais e federais corruptos, conforme demonstra um segundo estudo também publicado pelo periódico Environmental Conservation

O estudo em questão descreve que a extração irregular de madeira na área de influência da BR-319 ocorre em um contexto de vulnerabilidade institucional e falhas de governança. Ele registra evidências típicas de exploração não autorizada, como trilhas de arraste, derrubadas sem técnicas de manejo e toras sem identificação, indicando que parte da atividade ocorre fora dos padrões exigidos para um manejo florestal sustentável.

 O estudo também aponta inconsistências em processos de licenciamento ambiental, destacando que autorizações emitidas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) em determinadas áreas foram concedidas sem comprovação adequada de regularização fundiária ou sem Cadastro Ambiental Rural, o que permite a entrada de madeira extraída ilegalmente em cadeias formais.

Imagens do estudo publicado no periódico Environmental Conservation evidenciam a extração ilegal de madeira na área de influência da BR-319, estado do Amazonas.

Além disso, o estudo destaca que políticas fundiárias e assentamentos promovidos pelo INCRA na região, embora voltados à regularização social e produtiva, acabam contribuindo inadvertidamente para a abertura de novas frentes de ocupação e aumento da pressão sobre áreas florestais. Adicionalmente, dados do MapBiomas mostram que o estado do Amazonas vem registrando aumento no número de queimadas nos últimos anos, prática implementada após a retirada de madeira de maior valor comercial – dinâmica já descrita na tese de doutorado do delegado da Polícia Federal Alexandre Silva Saraiva, defendida na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que demonstra como a exploração madeireira predatória costuma anteceder processos de queima e conversão do solo na região.

Dados de queimadas do MapBiomas para o estado do Amazonas.

Um estudo publicado no periódico Land Use Policy também relaciona o aumento do desmatamento – incluindo aquele associado ao setor madeireiro – à maior trafegabilidade e à intensificação da especulação fundiária na área de influência da rodovia BR-319. Os dados indicam que o desmatamento na região mais do que quintuplicou em comparação ao período em que a rodovia permaneceu intrafegável. Em conjunto, os estudos sugerem que a soma de fragilidades institucionais, lacunas de fiscalização e políticas públicas que incentivam a ocupação acelerada da região cria um cenário propício à expansão de atividades madeireiras ilegais e não sustentáveis no estado do Amazonas, o que não pode ser dissociado da expansão do setor dentro do estado do Amazonas.

As opiniões e informações publicadas nas seções de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Lucas Ferrante

    É pesquisador da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e colaborador do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (CENSIPAM).

Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar

Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.

Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.

Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.

Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.

Leia também

Notícias
13 de março de 2026

Nascimento de filhote de harpia em reserva da Bahia é comemorado pela Ciência

Desde 2018 não eram registrados nascimentos na unidade. Filhote ativo no Corredor Central da Mata Atlântica é passo importante para evitar extinção

Salada Verde
13 de março de 2026

Em homenagem ao cão Orelha, governo aumenta multa para quem maltrata animais

Novo decreto amplia de R$500 para R$ 1.500 valor da multa mínima em caso de maus tratos aos animais. Governo também estabeleceu a criação da Conferência Nacional de Direitos Animais

Análises
13 de março de 2026

A natureza como estratégia

As organizações modernas foram desenhadas para um mundo previsível. Estruturas hierárquicas, processos lineares. Mas a natureza opera de outra forma

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.