Embora o governador do Amazonas, Wilson Lima, tenha destacado durante a COP30, em Belém, o compromisso do Estado com a transição para uma economia verde, análises recentes mostram que a realidade distante dos holofotes do evento é bastante distinta. Um estudo publicado no mês passado no periódico Discovery Sustainability aponta que políticas adotadas durante a atual gestão têm criado condições que favorecem o avanço do desmatamento ilegal e das queimadas no estado do Amazonas.
Associado à fraca fiscalização ambiental por parte do Estado e à ausência de atuação federal nos novos hotspots de desmatamento que avançam na região da BR-319 – como demonstrado pelo estudo publicado no periódico Discovery Sustainability – o polo madeireiro tem registrado um crescimento expressivo em seu faturamento. O setor foi o que apresentou a maior expansão dentro do Polo Industrial de Manaus (PIM) até setembro de 2025, em comparação com o mesmo período do ano anterior. Dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) indicam que o segmento faturou R$ 56,05 milhões entre janeiro e setembro, praticamente igual ao total arrecadado em todo o ano de 2024 (R$ 56,54 milhões), representando um aumento de 38,77%. Esse desempenho até setembro contrasta fortemente com as retrações acumuladas nos dois anos anteriores, que totalizaram 48,3%. Por sua vez, a retração observada no setor madeireiro nos anos anteriores pode ser atribuída às mudanças nas políticas públicas de combate ao desmatamento ilegal implementadas nos primeiros anos do governo do presidente Lula, mas que posteriormente perderam efetividade – conforme demonstrado em estudo liderado pelo biólogo, bacharel e mestre em Direito e doutor em Meio Ambiente Rodrigo Vilani, publicado no periódico Environmental Conservation, editado pela Universidade de Cambridge.
Preocupantemente, e algo que não tem sido noticiado pela mídia tradicional, a cadeia da madeireira no estado do Amazonas está profundamente entrelaçada com esquemas de grilagem de terras e desmatamento ilegal na região, respaldado por agentes estaduais e federais corruptos, conforme demonstra um segundo estudo também publicado pelo periódico Environmental Conservation.
O estudo em questão descreve que a extração irregular de madeira na área de influência da BR-319 ocorre em um contexto de vulnerabilidade institucional e falhas de governança. Ele registra evidências típicas de exploração não autorizada, como trilhas de arraste, derrubadas sem técnicas de manejo e toras sem identificação, indicando que parte da atividade ocorre fora dos padrões exigidos para um manejo florestal sustentável.
O estudo também aponta inconsistências em processos de licenciamento ambiental, destacando que autorizações emitidas pelo Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) em determinadas áreas foram concedidas sem comprovação adequada de regularização fundiária ou sem Cadastro Ambiental Rural, o que permite a entrada de madeira extraída ilegalmente em cadeias formais.
Imagens do estudo publicado no periódico Environmental Conservation evidenciam a extração ilegal de madeira na área de influência da BR-319, estado do Amazonas.
Além disso, o estudo destaca que políticas fundiárias e assentamentos promovidos pelo INCRA na região, embora voltados à regularização social e produtiva, acabam contribuindo inadvertidamente para a abertura de novas frentes de ocupação e aumento da pressão sobre áreas florestais. Adicionalmente, dados do MapBiomas mostram que o estado do Amazonas vem registrando aumento no número de queimadas nos últimos anos, prática implementada após a retirada de madeira de maior valor comercial – dinâmica já descrita na tese de doutorado do delegado da Polícia Federal Alexandre Silva Saraiva, defendida na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), que demonstra como a exploração madeireira predatória costuma anteceder processos de queima e conversão do solo na região.

Um estudo publicado no periódico Land Use Policy também relaciona o aumento do desmatamento – incluindo aquele associado ao setor madeireiro – à maior trafegabilidade e à intensificação da especulação fundiária na área de influência da rodovia BR-319. Os dados indicam que o desmatamento na região mais do que quintuplicou em comparação ao período em que a rodovia permaneceu intrafegável. Em conjunto, os estudos sugerem que a soma de fragilidades institucionais, lacunas de fiscalização e políticas públicas que incentivam a ocupação acelerada da região cria um cenário propício à expansão de atividades madeireiras ilegais e não sustentáveis no estado do Amazonas, o que não pode ser dissociado da expansão do setor dentro do estado do Amazonas.
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