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Uma aventura na Rota dos Pioneiros, a maior trilha aquática do Brasil

Percorrida de caiaque pelas águas do rio Paraná, na divisa entre Mato Grosso do Sul e Paraná, a Rota dos Pioneiros é uma oportunidade de remar no curso deste gigante e conhecê-lo de forma privilegiada

Erick Caldas Xavier ·
20 de setembro de 2021

Eu e meu caiaque estamos sobre uma barra de areia em meio ao rio Paraná. A minha volta, 780 mil metros quadrados de praia se espalham por todos os lados. No horizonte, a lua cheia começa a surgir, refletindo na água de um dos maiores rios do mundo, tornando a noite de um lilás indescritível, que uma câmera fotográfica é incapaz de registrar. É o meio de nossa aventura. Estamos na maior trilha aquática do Brasil: a Rota dos Pioneiros, ao longo do curso do rio Paraná, entre Mato Grosso do Sul e Paraná.

A convite de Anderson Pachamama, surgiu a oportunidade para esta experiência. Grande amigo e operador de expedições na Rota, ele decidiu testar um dos trechos da trilha e me chamou para essa aventura. O desafio: 43 quilômetros de trilha aquática a ser percorrida ao longo de dois dias, tendo como ponto de partida a Praia da Amizade (no município de Itaquiraí/MS) e como chegada o Porto Morumbi (Eldorado/MS), com uma parada estratégica para um acampamento rústico no meio do rio. Ao todo, a Rota dos Pioneiros tem um percurso de 388,8 quilômetros de extensão.

Nosso ponto de encontro foi na cidade sul-mato-grossense de Naviraí, distante 137 km do aeroporto de Dourados (MS) e 132 km do aeroporto de Guaíra (PR). Carregamos todos os caiaques na carreta da van da Pachamama Ecoturismo e saímos de Naviraí, percorrendo 49 km por asfalto até Itaquiraí. Após mais 21 km por estrada de chão, chegamos na Praia da Amizade, um dos diversos portos ao longo do rio Paraná. Vale dizer que os portos ao longo do percurso da trilha aquática são estratégicos como pontos de apoio para água potável, refeições e pernoite. Alguns são bem simples, com pouca infraestrutura, enquanto outros possuem opções de restaurantes, lanchonetes, hotéis e pousadas. Considere tudo isso em seu planejamento.

Às 8 horas da manhã de sábado os caiaques já estavam na água. Um caiaque duplo para mim e para a Letícia, parceira de todas as aventuras e divididos em outros dois caiaques individuais, o casal Anderson e Patrícia. Nossa amiga Camila Bortoli foi o nosso apoio por terra e quem nos buscou no dia seguinte em nosso destino final. Como acontece nas travessias de montanhas e na maior parte das trilhas de longo curso, é preciso planejar o “resgate” no final do trecho. Numa trilha aquática, em água corrente, é muito improvável que você remará todo o percurso de volta ao ponto de partida.

Os paredões de arenito são um espetáculo à parte. Foto: Erick Caldas Xavier.

A saída da Praia da Amizade é um espetáculo desde o início. Por muitos quilômetros rio abaixo você remará com um paredão de arenito ao seu lado direito, que te transporta ao fim do período Cretáceo (entre 145 e 65 milhões de anos atrás) quando um gigantesco derramamento de lava, ao longo do eixo do que um dia seria o leito do rio Paraná, literalmente afundou a crosta terrestre com seu peso, criando escarpas e levantando oceanos e planaltos. Hoje é possível ver nestas paredes escavadas pelo rio as impressões das dunas que se formaram nesta depressão ao longo da era Cenozoica, que sucedeu o Cretáceo, quando tudo era um grande deserto. Prova disso são os cactos incrustados nas rochas em meio ao bioma Mata Atlântica, uma vegetação relictual que conta essa história de eras do rio Paraná.

Ao longo da Rota dos Pioneiros é importante fazer algumas pequenas pausas para descansar os braços, esticar as pernas e, principalmente, forrar o estômago, coisa que fazemos com bastante frequência nestas aventuras. Percorrer uma trilha não deve ser pensado como uma oportunidade para emagrecer, é preciso estar bem alimentado para curtir a experiência. Então comemos o dia todo: café da manhã, segundo café da manhã, “onze horas”, almoço, chá, jantar e ceia, como os pequenos e gulosos “hobbits” em suas jornadas inesperadas. Neste percurso há algumas ótimas opções de descanso, seja em um barranco debaixo de uma figueira ou em alguma das diversas praias.

Nossa primeira parada foi numa inusitada cachoeira – coisa rara por estas terras de planícies – bem nas proximidades da ponta norte da ilha Bode Verde, onde há também uma pequena e oportuna prainha.

Seguimos nossa aventura e de repente toda a minha segurança quanto ao percurso se esvaiu ao me deparar com rochas, grandes barras de areia e canais que deveriam estar passando por ali, mas que não existem mais. Teríamos chegado ao nosso destino, as Sete Praias? Mas isso não seria possível, pois ainda seriam necessárias algumas horas de remada pela frente. De qualquer forma, o rio estava irreconhecível. Nossa salvação foi o lindo mapa ilustrado da Rota dos Pioneiros que carregamos nas nossas costas, no uniforme dos caiaqueiros voluntários desse incrível movimento de construção das trilhas brasileiras.

O mapa providencial da Rota dos Pioneiros estampado no uniforme. Foto: Erick Caldas Xavier

Finalmente, ao longe no horizonte, avistamos nosso destino final: as Sete Praias. Um conjunto esplêndido de barras de areia e de praias de água doce. Acampar em uma das praias do rio Paraná há muito era um desejo meu, desde que começamos a idealizar a Rota dos Pioneiros, na verdade. Já havia passado muito tempo desde a última vez que vivi uma experiência como esta e o sucesso, já sabia eu, era garantido. Nestes lugares não há pernilongos ou a sombria floresta te observando, não que isto também não seja uma experiência memorável, mas o rio Paraná pode ser um local selvagem e a trilha aquática precisa proporcionar a experiência perfeita para o visitante.

Armamos nosso acampamento em uma destas barras de areia – com cuidado para garantir que estivéssemos longe dos limites das áreas de acesso proibido do Parque Nacional de Ilha Grande – e contemplamos, de um lado o pôr do sol mais belo desta costa oeste e do outro o nascer de uma imensa lua cheia, que surgiu como um luzeiro refletindo no remanso do rio Paraná.

São nestas noites de lua, longe de tudo e de todos, que podemos nos reconhecer, dividir histórias e risadas. O caiaque, como uma grande mochila sob seus pés, leva tudo o que você precisa para atender até o mais alto grau de exigência. Não falta espaço para barraca, água à vontade, comida, fogareiro, caixa térmica, colchão inflável e colchonete. É uma aventura ao alcance de toda a família.

Após uma noite tranquila, com temperatura amena, fizemos nosso desjejum e tivemos um farto café da manhã, apreciando a alvorada com uma boa prosa. Saímos para nossa reta final rumo ao Porto Morumbi e ao fim de nossa expedição. No caminho, mil planos para a próxima expedição. Testar novos trechos, realizar novas aventuras, vivenciar experiências únicas e reviver as grandes epopeias que este rio gigante, tão grande como o mar, assistiu ao longo de sua história de guaranis, jesuítas, bandeirantes, tenentistas revoltosos e colonizadores.

Mas não podemos nos enganar. Por trás desta beleza há um paradoxal alerta para um rio que está agonizando. Este caribe de azul turquesa e verde esmeralda esconde um rio empobrecido de nutrientes. Não muito longe, em sua montante, a Usina Hidrelétrica Engenheiro Sérgio Motta mantém em seu reservatório sedimentos decantados por décadas e décadas. As cheias que não ocorrem mais não podem trazer os nutrientes das várzeas e lagoas marginais. Os pulsos de inundação que ano após ano revigoram a planície não são mais uma realidade e, mesmo as várzeas continuam a ser drenadas, perdendo a sua função de reservatório natural de água e carbono. As areias que seriam carreadas pelas grandes cheias, agora se acumulam ao longo deste gigante. Por todo o seu entorno, pequenos rios, córregos e riachos são sistematicamente assoreados por extensos plantios de cana-de-açúcar ou permanecem expostos ao pisoteio do gado, onde deveria haver uma intrincada malha de matas ciliares. No lugar destas matas protetoras avançam as construções de condomínios e loteamentos – muitos ilegais, outros imorais – numa promessa fantasiosa de avanço e progresso, que não tem resultado em nada além de pura especulação imobiliária.

As rochas expostas no leito do rio trazem um alerta. Foto: Erick Caldas Xavier

Por isso, acreditamos neste último trecho do rio Paraná, em que o rio ainda é livre e corrente, como uma oportunidade única de conhecer o que sobrou deste incrível ecossistema. No silêncio de uma embarcação a remo é possível se conectar com nossas origens, com o nosso passado e juntar energias para trabalhar por um futuro melhor para a biodiversidade brasileira.

Assista a live da Rede Brasileira em parceria com ((o))eco sobre a Rota dos Pioneiros:

As opiniões e informações publicadas nas sessões de colunas e análises são de responsabilidade de seus autores e não necessariamente representam a opinião do site ((o))eco. Buscamos nestes espaços garantir um debate diverso e frutífero sobre conservação ambiental.

  • Erick Caldas Xavier

    Biólogo, pesquisador, mestre em Ciências Ambientais e doutorando em Biodiversidade. Ex-chefe do Parque Nacional de Ilha Grande e da APA das Ilhas e Várzeas do Rio Paraná.

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