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Kiribati até parece ser nossa

Kiribati, arquipélago do Pacífico ameaçado de sumir na mudança climática, tem quase o tamanho do território que Mato Grosso devasta todo ano. Lá, todos terão que emigrar.

12 de junho de 2008 · 18 anos atrás
  • Marcos Sá Corrêa

    Jornalista e fotógrafo. Formou-se em História e escreve na revista Piauí e no jornal O Estado de S. Paulo. Foi editor de Veja...

O fim do mundo desta vez se chama Kiribati, a jovem república plantada em 32 atóis do Pacífico, que celebrou o Dia Internacional do Meio Ambiente pedindo oficialmente para ser evacuada, antes que a elevação dos oceanos trague de uma vez por todas seus 726 quilômetros quadrados de terra mais ou menos firme.

“Nosso povo não quer acreditar nisso”, disse o presidente Anote Tong. Mas Tebua Tarawa e Abunuea, duas ilhotas desabitadas de Kiribati, já submergiram há mais de oito anos. Tepuka Savilivili perdeu seus coqueirais pela salinização do solo. E o resto do território fica, no máximo, seis metros e uns quebrados sobre a linha d’água. Tong não vê outra saída, senão a saída propriamente dita.

Olhar em volta

É melhor levá-lo a sério. Seu problema pode soar, à distância, como o batuque folclórico de uma cultura exótica. Mas aquele arquipélago começou a ser povoado há cerca de quatro mil anos por navegadores polinésios. Tong, eleito em 2003, formou-se na London School of Economics, o que não se pode dizer de qualquer presidente saído das urnas na mesma época. Seus discursos devem ter, pelo menos, alguma sintaxe acadêmica. E basta Kiribati olhar em volta para ver o que está acontecendo em Tuvalu, Vanuatu e nas ilhas Marshall, por conta das mudanças climáticas.

Elas chegaram ao ponto final sem passar pelo projeto de autofagia que devorou Nauru, a antiga Ilha Aprazível dos colonizadores ingleses, alemães, neozelandeses, australianos e japoneses. Independente há 42 anos, Nauru veio ao mundo entalada em 21 quilômetros quadrados de terrenos tão ricos em fosfato, que sua população provou durante quase duas décadas a renda de uma economia desenvolvida – coisa de uns 20 mil dólares per capita, – enquanto exportava seu próprio chão. Atualmente, ela vive de ajuda externa, sobretudo de suas antigas metrópoles.

Anos atrás, com esses trunfos, Nauru brilhou num suplemento especial da revista The Economist, como fábula contemporânea sobre os perigos da rapina. Sobre a mineração do fosfato, os nauruenses fundaram um regime em que 95% dos habitantes tinham empregos públicos, ninguém pagava imposto, o ensino e a saúde eram inteiramente gratuitos, os doentes mais graves eram levados de avião pelo governo para os hospitais da Austrália e todo estudante, ao passar do secundário, ganhava o direito a uma bolsa para cursar a universidade no exterior.

Em outras palavras, foram suicidas. Mas pelo menos tiraram de sua natureza, enquanto durou a festa, capilés sociais mais valiosos do que os brasileiros, em geral, arrancam da Amazônia, onde somem, nas fases de queimada, várias Naurus por semana. Mato Grosso, por exemplo, acaba de passar a motosserra, entre janeiro e abril, em 248 quilômetros quadrados daquilo que deu nome ao estado. Não é nada, não é nada, são cerca de doze Naurus, só no primeiro quadrimestre de 2008. O que dará uma Kiribati por ano, quando essas fronteiras agrícolas forem abandonadas daqui a menos de duas décadas, que é a média regional para geração de terras esgotadas.

Kiribati deveria servir pelo menos para dar ao mundo uma “lição de humildade”, disse Achim Steiner, diretor da ONU para meio ambiente, ao ouvir em primeira mão o apelo do presidente Anote Tong. Trata-se de um país condenado a “acabar não por causa de um desastre natural, mas pelo que nós mesmos andamos fazendo neste planeta”. Mas esse é o tipo da história que só acontece lá do outro lado do mundo, não é mesmo?

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