Quando Rick reencontrou Ilse em Casablanca, algo mais forte falou ao seu coração e ele não pode resistir ao misto de emoção, frustração e angústia que, subitamente, invadiu-lhe a alma. Quebrando a promessa que fizera a si próprio, pediu ao velho amigo e pianista Sam que tocasse a música que servira de tema para a louca paixão ambientada em Paris entre ele e Ilse. Esta é uma clássica história de amor mal resolvida. Aqui no Brasil, estamos próximos de ver uma repetição, como farsa, do velho enredo. Refiro-me aos transgênicos e sua regulamentação jurídica no Brasil.
O Tribunal Regional Federal da 1ª Região, recentemente, julgou improcedente a Ação Civil Pública movida pelas associações civis Instituto de Defesa do Consumidor – IDEC e Greenpeace contra a União Federal e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, com o conseqüente reconhecimento da competência legal da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNbio para decidir sobre os aspectos técnicos referentes à liberação de organismos geneticamente modificados no meio ambiente. Ainda que a decisão seja clara e inequívoca, persiste na administração ambiental brasileira um certo ar de constrangimento em relação ao tema. O mesmo constrangimento que Victor Laszlo – marido de Ilse – sentiu ao vê-la reencontrar Rick no cassino. É neste “clima” que o Projeto de Lei de Biossegurança aguarda deliberação do Senado Federal.
Assim como ocorreu na Casablanca submetida ao governo de Vichy, a indefinição das autoridades brasileiras quanto ao tema, não traz benefícios para nenhuma das partes envolvidas mas, ao contrário, serve como agente estimulador da ilegalidade, do contrabando, da falta de controle de qualidade das sementes e, principalmente, do atraso tecnológico e cientifico. Rick, ao ser perguntado sobre sua ideologia, definiu-se como um bêbado. Por ser uma auto-definição, ele não corria qualquer risco de ser deportado de Casablanca.
O Brasil, no caso dos transgênicos, poderá ficar duas doses atrasada, assim como era a humanidade para Rick. Enquanto isto, existe uma “bela amizade” entre os organismos geneticamente modificados e a agricultura brasileira. Ao que parece, a mesma música continuará tocando.
Se o que você acabou de ler foi útil para você, considere apoiar
Produzir jornalismo independente exige tempo, investigação e dedicação — e queremos que esse trabalho continue aberto e acessível para todo mundo.
Por isso criamos a Campanha de Membros: uma forma de leitores que acreditam no nosso trabalho ajudarem a sustentá-lo.
Seu apoio financia novas reportagens, fortalece nossa independência e permite que continuemos publicando informação de interesse público.
Escolha abaixo o valor do seu apoio e faça parte dessa iniciativa.
Leia também
Copa do Mundo das Áreas Protegidas: Grupo D
EUA, Paraguai, Austrália e Turquia disputam vaga na próxima fase. Na Copa das Áreas Protegidas, cada país entra em campo com suas estratégias de conservação →
Produtores rurais impedem audiência pública sobre criação de UC no Pantanal
Com discurso carregado de desinformação sobre “impactos” do Refúgio de Vida Silvestre Delta do Salobra, grupo liderado por sindicato rural ocupa auditório e nega diálogo com ICMBio →
Entenda por que a extinção das línguas é uma questão ambiental
Mais de 2 mil línguas indígenas correm risco de desaparecer neste século – e, com elas, poderemos perder conhecimentos ecológicos tradicionais de suma importância →
