Não nos surpreende pagarmos pelos produtos que consumimos de acordo com a quantidade comprada. Fazemos o mesmo com serviços públicos como luz, gás e telefone. Parece natural. Quanto mais se consome, maior o preço. Não aplicamos essa racionalidade à coleta de lixo. No Rio de Janeiro, por exemplo, essa taxa está embutida no IPTU. Funciona como se fosse fixa. Mas os custos ambientais e de remoção são diretamente ligados à quantidade de lixo gerada. Por que, então, não pagar de acordo?
Morei por alguns anos nos Estados Unidos, primeiro na capital, Washington D.C. e, por um período de meses, em Bozeman, uma pequena cidade em Montana, no oeste do país. Nos dois lugares, observei comportamentos completamente distintos em relação ao lixo doméstico.
Os americanos são famosos pela voracidade que consomem. Têm renda alta, impostos baixos e cultuam a praticidade. Eles gostam do bigger, better, and cheaper. As porções vendidas (e, logo, as embalagens) nos supermercados são enormes. Compra-se suco de laranja e refrigerante em galões. Pães, cereais, queijos, iogurtes, molhos, tudo vem em pacotes muito maiores do que estamos acostumados no Brasil e no resto do mundo. Grande parte da alimentação já vem processada. O resultado é um lixo volumoso, com muitos restos sólidos do processo industrial.
Em Washington o custo do lixo é invisível como no Rio, embutido dentro dos impostos municipais. Em cada casa, não importa quanto é jogado fora, o preço é o mesmo. Lá, eu via as pessoas usando latas e sacos gigantes, que formavam altas pilhas nas calçadas no dia da coleta. Ao contrário, na chegada em Bozeman, me espantei com o esforço dos locais em minimizar o problema.
Nos primeiros dias me hospedei numa casa em que os restos orgânicos eram separados e viravam compostagem para adubar o jardim. Todas as embalagens eram cuidadosamente amassadas antes de ser dispensadas. As latas de refrigerante, com ajuda de uma prensa manual, eram reduzidas a um compacto de metal. Tudo para diminuir a quantidade e o volume do lixo.
A princípio, pensei que a diferença estivesse relacionada a hábitos frugais do campo ou a uma consciência ecológica superior. Afinal, Bozeman é uma cidade universitária rodeada de belezas naturais. Mas havia mais. Logo que aluguei uma casa, descobri que gerar lixo custava cerca de US$1 por saco. O sistema de pagamento era simples. Os sacos deviam ser fechados com lacres pagos (compráveis no supermercado) de uma cor específica para cada tamanho. Sem lacre, nada de recolhimento e, possivelmente, uma multa.
Os dólares mensais com os lacres não eram tantos assim, mas faziam pensar cada vez que se comprava ou jogava fora alguma coisa. Descobri pelo bolso que o tratamento do lixo custa. E que, em Washington, o consumidor ambientalmente correto subsidiava o descuidado e (ou) gastador.
Bozeman usa uma variação do sistema conhecido como pay-as-you-throw (pague na medida em que joga fora). Existem várias, mas o princípio é sempre o mesmo: cobrar taxas variáveis para desincentivar a geração de lixo. Ao longo da década de 90, o número de programas desse tipo nos EUA subiu de 100 para cerca de 6.000, cobrindo 20% da população americana, algo como 60 milhões de pessoas.
Nos lugares em que foram combinados com medidas de reciclagem e compostagem, os programas pay-as-you-throw reduziram a tonelagem do lixo entre 20% e 60%. Mesmo sem medidas complementares, a redução da tonelagem foi em torno de 16%. Um terço dessa queda foi obtida por aumento de reciclagem, outro em usos alternativos de sobras orgânicas (yard waste diversion) e, por fim, o último terço com a chamada “redução na fonte” (source reduction). Essa última envolve todo o tipo de esforço para reduzir a geração. Desde o design até a escolha do consumidor, contando tudo o que pode ser feito para alongar a vida útil dos produtos e diminuir a toxidade dos restos.
Enquetes nos locais onde foi adotado mostram que o pay-as-you-throw é um programa popular. Os moradores percebem que, nessa modalidade, os cuidadosos podem economizar e os esbanjadores pagam mais. É claro que isso acontece quando a antiga cobrança fixa, ou pelo menos parte dela, é substituída por uma variável. Ninguém está falando de superpor impostos. No caso de famílias muito grandes ou pobres, o município pode conceder descontos.
Talvez a minha intuição inicial sobre a superioridade ecológica dos moradores de Bozeman estivesse certa. Afinal de contas, eles implantaram um sistema que penaliza o consumo perdulário e a poluição.
Na semana que vem, a coluna volta ao assunto com enfoque na situação brasileira.
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