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A conta é sua

Prédios são gastadores de água porque a conta da ineficiência é coletiva. No entanto, a instalação de hidrômetros individuais pode reduzir o consumo de 20% a mais de 40%.

8 de outubro de 2007 · 18 anos atrás
  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

Quem mora em casa é mais cuidadoso com o consumo de água do quem mora em apartamento. Em ambas as situações a conta total é paga pelo usuário, ou o seu conjunto, no caso dos prédios. Por que a diferença? A razão é muito simples. Os primeiros têm controle sobre o seu consumo total, enquanto os últimos estão em uma guerra silenciosa e destrutiva com os seus vizinhos.

O consumo de água dos prédios, em geral, é medido por um único hidrômetro, embora cada apartamento tenha um consumo diferente. Dessa forma, pouco vale o esforço de economia de um dos moradores se os outros não seguirem o exemplo. As torneiras e chuveiros são abertos na privacidade do lar de cada um. Se em um apartamento elas correm sem fim nem necessidade, os outros sequer ficam sabendo.

O fenômeno é parecido com aquela situação da conta de restaurante. Um grupo grande e festivo chega para comemorar o fim do ano. No início, você se senta pensando em pedir um chopp e comer uma porção de batatas fritas. Mas logo vê, do outro lado da mesa, alguém comendo um belo filé e já na quarta caipirinha. A moça em frente, pediu a sobremesa que é a especialidade da casa. E sabe o que mais? Você decide comer um belo bacalhau. Ao fim do encontro, conformado, vê chegar uma conta duas ou três vezes mais alta do que a prevista.

A maneira de acabar com a injustiça nos dois casos é a mesma. Fazer a cobrança individual. Os restaurantes resolvem o problema distribuindo uma cartela de consumo individual para cada cliente. Consumiu, pagou. Nada de dividir os excessos com o vizinho.

Aqui no Rio de Janeiro, este ano a estiagem está forte. Em meados de setembro, a CEDAE (Companhia de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro) alertou que pode faltar água em vários municípios. A empresa já precisou redirecionar o suprimento dos reservatórios mais fartos para as áreas de mananciais mais afetados pela falta de chuvas. Dessa vez, o fenômeno é pontual, mas a tendência é a situação piorar, porque a quantidade de gente e o consumo de água não param de crescer, enquanto a capacidade de aumentar a oferta é limitada pela natureza.

Muitas coisas podem ser feitas. A própria CEDAE é famosa pela sua ineficiência, sua vulnerabilidade a gatos e pela displicência com vazamentos na estrutura de fornecimento. Mas, voltando ao nosso assunto, uma medida simples para combater o desperdício é mudar a forma de cobrança dos condomínios. Chegou a vez do hidrômetro individual.

Em agosto passado, a medida já se tornou lei em São Paulo. Não precisava fazer na marra. Os incentivos econômicos são suficientes para impulsionar a mudança. Quando hidrômetros individuais são instalados, ocorre uma economia de consumo que varia de 20% a mais de 40%. A SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) cobra R$166,00 para a instalação de um hidrômetro simples. Esse custo pode ser bem mais alto para imóveis antigos. Mas mesmo em situações mais adversas, considerando a economia obtida, em média, o retorno do gasto ocorre em cerca de dois anos e meio. Parece um bom negócio.

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