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Barack Obama, o equilibrista

O candidato democrata terá que adaptar tudo na campanha, inclusive sua plataforma ambiental, para ter como focar naquilo com o que o eleitor americano está mais preocupado: sua saúde financeira.

31 de agosto de 2008 · 18 anos atrás
  • Eduardo Pegurier

    Mestre em Economia, é professor da PUC-Rio e conselheiro de ((o))eco. Faz fé que podemos ser prósperos, justos e proteger a biodiversidade.

Barack Obama caminha para o centro. “Como presidente, eu explorarei as nossas reservas de gás natural, investirei em carvão de tecnologia limpa e encontrarei caminhos para, com segurança, usar energia nuclear. Eu ajudarei as montadoras de automóvel a se reequiparem, de forma que os carros do futuro, com grande eficiência de combustível, sejam construídos aqui na América”. Como mostra essa fala, parte do discurso de aceitação da candidatura à presidência, ele sabe que mesmo com seu carisma e rara capacidade como orador essa eleição será dura. No momento, está empatada. Ele e McCain dividem meio a meio as intenções de voto. A necessidade de agradar ao centrão, o obrigará a adaptar tudo, inclusive sua plataforma ambiental.

No jogo de xadrez que é a eleição americana, ele precisa deixar de ser o candidato das primárias democratas para se tornar o candidato majoritário. A bandeira do protecionismo populista que empunhou na sua ascensão e na campanha contra Hillary já baixou. A imediata saída das tropas do Iraque já mudou para “uma retirada responsável”. Obama tem a maioria dos votos nas grandes cidades e também parece ter herdado a preferência dos latinos por Hillary. Entre os negros, nem se fala, tem quase 100% dos votos. Falta agora conquistar o segmento que garantirá sua vitória. Precisa do voto do eleitor interiorano, em sua maioria branco, protestante, conservador, isolacionista e, muitas vezes, racista.

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Para esse eleitor, o único apelo que Obama pode usar é o bolso. Com a crise bancária que os EUA enfrentam, o americano médio está inseguro e financeiramente apertado. O desemprego aumentou e a inflação está subindo. McCain, o candidato republicano, é um milionário que, em uma entrevista recente, não foi capaz de responder quantas casas tinha. Enquanto isso, Obama teve uma ascensão dura e por mérito próprio. Outra garantia de seus caminhos vem do fato que seus eleitores mais fiéis, como negros e latinos, também estão em segmentos mais pobres e afetados pela recessão. Assim, mesmo que o deteste, o eleitorado conservador percebe que na economia seus interesses convergem com os de Obama.

Desafios

É mais fácil acreditar que ele se preocupará mais com as suas dificuldades do que McCain. Por outro lado, tudo o mais que vem do candidato democrata irrita. Esse mesmo segmento não quer ouvir falar de substituir o poder bélico americano por diplomacia e alianças; tem medo de um homem negro com um nome que soa muçulmano; é contra o aborto legalizado e tem ódio religioso a homossexuais. Por fim, sua preocupação ambiental acaba quando vai encher o tanque do carro ou pick-up, peça central do seu estilo de vida.

O desafio de Obama é conquistar um naco do eleitorado conservador sem trair os votos que apóiam a sua plataforma progressista.  Essa é a janela para chegar à presidência e ele já começou a ginástica para transpô-la.  

Quem quiser entender a cabeça econômica de Obama deve ler o artigo de David Leonhardt, do New York Times. Segundo ele, antes de tudo, Obama é um pragmático e um apreciador do poder dos mercados. Ao mesmo tempo em que pretende aumentar os impostos dos mais ricos e melhorar a distribuição de renda, defende que  “o mercado é o melhor mecanismo jamais inventado para alocar recursos e maximizar a produção”.  Soa coerente com alguém que durante doze anos foi professor da Universidade de Chicago, mesmo que de direito constitucional, e não de economia. Com relação à política de mudança climática, Obama apóia o objetivo dos democratas de criar um teto para as emissões e permitir que, abaixo desse limite, seja formado um mercado de licenças de carbono. Em um sinal de racionalidade econômica e coragem contra os lobbies, quer leiloar as licenças iniciais, ao invés de doá-las às empresas. Mas, de volta a ambiguidade, a receita obtida financiará causas opostas: um programa de pesquisa em energias alternativas e subsídios às contas de energia dos pobres. Apóia os biocombustíveis, desde que sejam produzidos nos EUA e gerem emprego por lá. Sabemos que isso é mais poluente e caro do que importar do Brasil. Para quem quiser o menu completa, a Grist tem um bom resumo da plataforma ambiental de Obama.

Em resumo, “É uma eleição e não uma revolução”. Nela, Obama é o candidato improvável que superou barreiras culturais que pareciam invencíveis nos EUA. Sua agenda ambiental e em várias outras áreas é um progresso em relação ao desastroso Bush. Mesmo que ele fosse um clone negro (mulato para nós) de McCain, valeria a pena votar nele, só pelo que representa como superação da doída e resistente divisão racial americana. Mas não espere mudanças radicais na área ambiental. O americano médio não as quer e, para ganhar, Obama não irá defendê-las.

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