Colunas

O professor de Javanês e a Estrada do Colono

O conto de Lima Barreto nos alerta que em uma sociedade na qual a maioria sabe pouco ou nada, os espertos se passam por expertos.

20 de maio de 2014 · 8 anos atrás
  • Reuber Brandão

    Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservaçã...

Lima Barreto já advertia no seu conto, o perigo dos "professores de javanês"
Lima Barreto já advertia no seu conto, o perigo dos "professores de javanês"

Há muitos anos, quando eu ainda era um estudante de graduação cheio de expectativas, o amigo Paulo Oliveira me alertou sobre os professores de javanês do meio ambiente…

O conto “O homem que sabia javanês”, de autoria de Lima Barreto, é bem conhecido. Um sujeito desempregado, procurando ofertas de trabalho no jornal, se depara com um anúncio curioso, onde se procuram professores de Javanês. Vai passando o tempo, as contas vão se acumulando, o emprego não aparece, mas o anúncio continua lá… O sujeito então decide decorar algumas palavras de javanês em um dicionário, se candidata e consegue o emprego. A mensagem é bem clara. Onde ninguém sabe javanês, qualquer um pode se dizer entendido.

A formação de um Ecólogo é demorada. Ao contrário do que muitos imaginam, a Ecologia é uma ciência poderosa, com grande carga de leitura, modelagem computacional, estatística e matemática. Por isso, a Ecologia possui poder preditivo e uma ampla capacidade explicativa do mundo natural. E isso não é por acaso. Sistemas ecológicos são extremamente elaborados. Os diferentes compartimentos estão conectados por mecanismos elaborados de troca de matéria e energia e o grande número de variáveis envolvidas torna o entendimento e o manejo do mundo natural uma tarefa complexa.

No entanto, grande parte da sociedade é analfabeta no que se refere à Ecologia, dando ao termo os entendimentos mais díspares. Por conta disso, pululam “especialistas” das mais variadas origens, características e interesses. E de muitos interesses, é claro. Como o “herói” do conto de Lima Barreto, decoram termos que soam bonito, como “sustentabilidade”, “equilíbrio ecológico”, “desenvolvimento sustentável”, “estudos de impacto ambiental”, “estrada parque” e por aí vai, mas nem entendem efetivamente do que estão falando… Aos ouvidos de uma sociedade ingênua, tais termos soam lindos… Aos ouvidos dos interessados no mau feito, soam como o barulho das moedas de prata que caem nas mãos dos Judas que entregam a natureza para a sua crucificação pelos interesses escusos.

Outro dia, ouvindo uma entrevista do Relator do Projeto, Deputado Nelson Padovani, do PSC/PR e relator do Projeto de Lei 7123/10, que institui a “Estrada-Parque Caminho do Colono”, de autoria do Deputado Assis do Couto (PT/PR), me lembrei imediatamente do conto do Professor de Javanês… Uma série de termos decorados, manjados, jogados de forma aleatória, para iludir uma sociedade com pouco conhecimento sobre o que é realmente ecologia e para maquiar o único interesse que é fragmentar de forma definitiva um dos mais importantes patrimônios ambientais do planeta.

Na Sessão da Câmara onde o PL 7123/10 foi aprovado, me chamou a atenção o discurso do Deputado Alfredo Kaefer (PSDB/PR), afirmando que o grande desafio futuro da humanidade será o equilíbrio entre desenvolvimento e meio ambiente. Excelente afirmação. No entanto, o equilíbrio que se busca pelos interesses desenvolvimentistas arranjados é desviado. Visa alterar a legislação ambiental (no caso, a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, para enfiar uma categoria de “unidade de conservação” tresloucada), visa rasgar o Parque Nacional do Iguaçu, reconhecido internacionalmente e extremamente lucrativo, justamente em sua zona mais preciosa, visa atropelar qualquer senso de valor que o patrimônio natural do Brasil possui.

Para mim, equilíbrio significa outra coisa. O Brasil é um país rico, vastíssimo e com condições de atender a diversos interesses. Não é compreensível que um país como o Brasil seja incapaz de proteger seu patrimônio biológico. Não é aceitável que uma estrada que visa tão somente atender a interesses locais se sobrepunha a uma das jóias da natureza mundial. Concordo que em um país democrático é imprescindível equilibrar interesses. Só que o equilíbrio visado pelos setores “desenvolvimentistas” é unilateral: descaracterizar a legislação ambiental para permitir que seus interesses sejam atendidos, custe o que custar. Para mim, não pode haver melhor exemplo de desequilíbrio.

A estrada entre Capanema e Serranópolis do Iguaçu possui pouco mais de 180 km ou pouco mais que duas horas de carro. Uma distância muito pequena para justificar o tamanho do estrago ambiental. O rasgo da Estrada do Colono iria reduzir a viagem pela metade. Vejo centenas de pessoas que viajam distâncias muito maiores todos os dias, sem culparem um Parque Nacional pela infelicidade de terem que viajar. É evidente que o rasgo do colono é apenas mais uma das desculpas putativas, que visam o “bem estar social”, cujo único objetivo é fragilizar as poucas garantias ambientais dadas pela legislação.

A ignorância da sociedade em geral sobre o que a Biologia da Conservação ensina é uma bênção para os setores “desenvolvimentistas”. A ignorância sobre a raridade, a fragilidade, o funcionamento e a história das nossas poucas conquistas ambientais é a maior fonte de nossas anunciadas tragédias ambientais. Em um país onde um atalho vale mais que um Parque Nacional, onde a desinformação vale mais do que o conhecimento, só podemos esperar que o empobrecimento cultural, ecológico e dos valores elevados pontuem a nossa história.

Nada mais somos que uma sociedade iludida, mal informada e governada por um número enorme de professores de javanês, como poucas vezes se viu na história.

 

Leia também
2014: ano de aprovar reabertura da Estrada do Colono no Senado
Porque a estrada do Colono deve continuar para sempre fechada
Dez motivos para a estrada do Colono não passar

 

 

 

Leia também

Reportagens
27 de maio de 2022

Um caminho (e um sonho) para unir a América

A construção de uma trilha pan-americana que conecte caminhos do Alasca à Patagônia parece um sonho distante, mas já há sonhadores dispostos a montar esse quebra-cabeça

Notícias
27 de maio de 2022

São Paulo registra duas décadas de poluição do ar acima do recomendado pela OMS

Em alguns pontos da cidade, concentração de poluentes foi quatro vezes maior do que o indicado, mostra estudo. Poluição mata 7 milhões de pessoas por ano no mundo

Notícias
26 de maio de 2022

Conexão de trilhas e pessoas embala 1º Congresso Brasileiro de Trilhas

Evento que começou nesta quarta (25) e se estende até domingo, em Goiânia, conta com mais de 1.500 inscritos para discutir e fomentar a implementação de trilhas no Brasil

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta