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A influência cultural do paisagismo na preservação dos remanescentes nativos

Se o repertório das plantas presentes no cotidiano da quase totalidade dos brasileiros é de origem estrangeira, haverá uma desconexão histórica e real entre as pessoas e flora nativa

25 de outubro de 2023 · 2 anos atrás
  • Ricardo Cardim

    Paisagista e Botânico, é diretor da Cardim Arquitetura Paisagística, escritório especializado em grandes projetos e com atuação nacional.

Tratado usualmente como algo menor, até mesmo supérfluo e meramente decorativo, o paisagismo segue praticamente desconsiderado das questões ambientais urgentes que dominam nosso cotidiano atual.

Já em 2010, o censo divulgava que 84% dos brasileiros habitavam centros urbanos, número hoje certamente maior. Nesse cenário, os principais responsáveis pelas áreas verdes urbanas são os projetos de paisagismo, públicos ou privados, que vão desde o jardim fronteiriço dos edifícios ao grande parque público, e que também não estão restritos às cidades, mas onde o ser humano habitar, como na praia e no campo.

No Brasil, os espaços verdes projetados tem uma característica peculiar e quase desconhecida pela população: a predominância drástica de espécies vegetais estrangeiras nas suas composições, cerca de 90% via de regra. Taxa que se torna ainda mais assustadora se recordarmos que o país é considerado o dono da maior biodiversidade do planeta.

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Facheiro, espécie de cacto da Caatinga. Foto: Michael Esquer / ((o))eco
Facheiro, espécie de cacto da Caatinga. Foto: Michael Esquer / ((o))eco

Essa situação paradoxal, causada por motivações mercadológicas, culturais e de pouca pesquisa, apresenta graves consequências. Além das questões óbvias de equilíbrio ecológico, tem outra, talvez tão importante quanto, a cultural. Explico. 

Se o repertório das plantas presentes no cotidiano da quase totalidade dos brasileiros é de origem estrangeira, seja em casa, na rua, no clube, no supermercado e nos meios de mídia, serão essas as plantas conhecidas, e potencialmente admiradas e valorizadas. Que vão compor as memórias e modelos coletivos de importância, utilidade, estética e sofisticação. O resto será possivelmente colocado como o genérico “mato”, selvagem e incompatível com a “civilização”, que deve ser mantido apartado ou apenas algo relacionado a enfadonhas leis e relegado a distantes reservas protegidas.

Como resultado em um país tão urbanizado, haverá uma desconexão histórica e real entre pessoas e flora nativa. Não aprenderemos a nos encantar por embaúbas, cambucis e pequizeiros em nossa vida rotineira. E certamente ficará mais difícil compreender porque devemos amar e proteger a maior biodiversidade do planeta, incluindo aí eleger políticos que as valorizem também.

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