O Brasil convive com uma contradição inquietante: enquanto acumula experiência histórica sobre poluição e desastres tecnológicos, continua reproduzindo padrões que ampliam riscos invisíveis à população.
Recente abordagem cinematográfica lançou luzes sobre o acidente radiológico de Goiânia, ocorrido em 1987. O episódio revelou ao país que o perigo mais devastador não é necessariamente aquele que se vê, mas aquele que se ignora. O Césio-137 não tinha cheiro, não fazia ruído, não produzia sinais imediatos compreensíveis. Ainda assim, contaminou corpos, territórios e vidas.
O problema central não foi apenas o material radioativo, mas a ausência de controle, de informação e de governança. Vimos isso acontecer também no episódio de contaminação química que assolou o Recanto dos Pássaros em Paulínia, onde a contaminação por poluentes orgânico-persistentes devastou uma comunidade de pequenas chácaras às margens do rio Atibaia. Outro episódio marcante foi o do pó-da-China de Cubatão, quando toneladas de substâncias tóxicas foram descartadas na área continental da cidade de Santos.
Mas estes processos devastadores podem ser mais usuais do que se pensa. A contínua liberação do uso de agrotóxicos já banidos no exterior, o uso de mercúrio no garimpo ilegal e a poluição da água e do ar não são fatos para exemplificar ou simbólicos – são parte de um processo estrutural.
Quase quatro décadas depois do episódio de Goiânia, o Brasil segue convivendo com riscos de natureza semelhante – agora dispersos em diferentes frentes e, em muitos casos, institucionalizados. O País que já viveu esse choque de desastre radiológico cinematográfico mereceria também produções para a ampla plateia brasileira, possibilitando sentir de perto o drama dos atingidos por poluição e demonstrando o caminho silencioso desses agentes perigosos, sejam agrotóxicos, poluição hídrica ou do ar.
No campo agrícola, o País tornou-se um dos maiores consumidores de agrotóxicos do mundo, incluindo substâncias já proibidas em outros países por seus efeitos nocivos à saúde e ao meio ambiente. Trata-se de risco invisível, cumulativo e crônico, cujos impactos se manifestam ao longo do tempo, muitas vezes longe dos centros de decisão política.
Mas é na expansão do garimpo – especialmente ilegal – que essa lógica atinge um dos seus níveis mais críticos. O uso de mercúrio na extração de ouro permanece amplamente disseminado em regiões como a Amazônia. Esse metal pesado, altamente tóxico, é utilizado para amalgamar o ouro, sendo posteriormente liberado no ambiente, contaminando rios, peixes e populações humanas. Uma vez no ecossistema, o mercúrio se transforma em metilmercúrio, substância ainda mais perigosa, que se bioacumula na cadeia alimentar.
O resultado é desastre. Silencioso, contínuo. Comunidades indígenas e ribeirinhas estão entre as mais afetadas, expostas a níveis elevados de contaminação sem acesso adequado a diagnóstico ou tratamento. Trata-se de uma forma de violência ambiental difusa, que não explode em um evento único como Goiânia, mas se infiltra lentamente no cotidiano, comprometendo gerações inteiras.
O ar que respiramos contém poluição que vem passando por estágio de naturalização. “É assim mesmo, é o inverno”, as pessoas costumam dizer, diante de rinites e bronquites que eclodem em internações nas cidades como São Paulo.
Há lentidão na adaptação das fontes móveis, veiculares. Há falta de catalisadores eficientes para motocicletas e para a frota à diesel, que continuará a circular por décadas com padrão obsoleto e perigoso. A normatização sobre padrões de qualidade é leniente e prevê prazos a perder de vista para o atingimento das metas para a boa qualidade do ar. As normativas lançam a segurança da população, obrigatória por lei, para futuro distante, após 2050, ao sabor da atualização provida por mera dinâmica de mercado.

O entorno das gigantescas refinarias e polos petroquímicos promovem impactos decorrentes da somatória de suas emissões. Tornam-se ameaça permanente, como no Pólo Petroquíco de Capuava, no ABC paulista, ultrapassando os muros industriais e mergulhando diuturnamente comunidades vizinhas em fogs invisíveis de poluição. Aqueles que permanecem mais tempo em casa, como crianças e idosos, são os mais atingidos. Os inventários das fontes de poluição permanecem deficitários, inclusive na região de Cubatão, apesar de longo e histórico aprendizado sobre a adequação das indústrias a um status de modus vivendi mais civilizado.
A baixa capacidade da sociedade brasileira no tratamento de esgotos, para eliminar fontes difusas como fármacos, traz outro desafio invisível, permanente e pouco divulgado.
A analogia com o Césio-137 é inevitável. Nos casos de agrotóxicos, mercúrio, poluição da água e do ar, estamos diante de ameaças silenciosas, cujos efeitos exigem conhecimento técnico e da lupa da ciência para serem identificados e compreendidos. Isso demanda instituições de controle robustas. E nesse sentido o Brasil demonstra dificuldades recorrentes em estruturar uma governança preventiva eficaz.
As instituições responsáveis, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis e a Comissão Nacional de Energia Nuclear, e os órgãos de controle estatais e municipais possuem competências relevantes, mas operam em um ambiente marcado por limitações operacionais, pressões políticas e fragmentação institucional.
O resultado é um padrão de atuação reativa. Age-se após o dano, não antes dele.
Essa lógica é particularmente grave no caso do mercúrio, porque envolve não apenas uma questão ambiental, mas também criminal. O garimpo ilegal se estrutura como atividade econômica paralela, frequentemente associada a redes de financiamento, logística e proteção que dificultam sua contenção. Nesse contexto, a contaminação química deixa de ser apenas um problema técnico e passa a ser um problema de governança territorial e segurança pública.

O Brasil, portanto, enfrenta, entre outras, três camadas de risco simultâneas: o risco acidental, como o do Césio-137; o risco regulado, como o dos agrotóxicos, do ar e da água; e o risco ilegal, como o do mercúrio no garimpo. O que une essas três dimensões é a mesma falha de origem: a incapacidade de tratar riscos invisíveis com o grau de prioridade que eles exigem.
Essa incapacidade não decorre da ausência de conhecimento. A ciência é clara sobre os efeitos dessas substâncias. O que está em jogo é a forma como esse conhecimento é incorporado – ou ignorado – nas decisões políticas.
Ao permitir a circulação de substâncias perigosas, ou tolerar poluição por omissão, flexibilização regulatória ou incapacidade de fiscalização, o país naturaliza uma exposição que deveria ser considerada inaceitável.
O caso de Goiânia deveria ter estabelecido um princípio inequívoco: riscos invisíveis exigem máxima precaução, controle rigoroso e transparência absoluta. Mas o que se observa é uma normalização do risco.
No campo, na floresta e nos territórios mais vulneráveis, o Brasil segue convivendo com substâncias que contaminam sem serem vistas, provocam adoecimento sem serem imediatamente identificadas e degradam sem gerar respostas proporcionais.
Mas hoje vivemos algo mais complexo – e talvez mais perigoso: a banalização de múltiplos desastres silenciosos, simultâneos, persistentes, que agem de forma sinérgica e cumulativa sobre a qualidade de vida da população.
Ignorar essa realidade não elimina o risco. Apenas o torna mais profundo, mais difuso e mais difícil de enfrentar. Porque, no fim, a maior ameaça não está apenas nas substâncias tóxicas. Está na capacidade de a sociedade se acostumar com elas.
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